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sábado, 12 de maio de 2012

LOURENÇO MUTARELLI: trabalho é como cutucar ferida


Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Ravini Padilha
Revisão textual: Paulo Cappelli


            O escritor Lourenço Mutarelli – autor de vastos títulos e do célebre “O Cheiro do Ralo”, adaptado para os cinemas e tendo como protagonista o autor Selton Mello – fala ao O HÉLIO com exclusividade sobre o seu novo livro de quadrinhos, “Quando Meu Pai se Encontrou com ET fazia um Dia Quente”

LOURENÇO MUTARELLI --- Acho que cada vez mais o silencio...está na minha obra. A dificuldade de comunicação também é uma forma de se comunicar. Isso tudo tem muito a ver com o vazio, como você me perguntou antes de ligar o gravador. Tem muito a ver com esse vazio e com o que a gente forja para tentar cobrir. É como areia movediça que vai te engolindo. Você vai sempre querendo preencher este vazio, capturá-lo.

O HÉLIO.: E onde está esse vazio no atual livro?

LM .: É... esse vazio. (Suspiros) Acho que ele está em todas as personagens dos meus livros. É essa solidão que a gente tenta quebrar e que, na verdade, muitas vezes conseguimos.

O.H.: Você tem algum personagem xodó?

LM.: Tem alguns livros de que gosto. Gosto muito do personagem do “Cheiro do Ralo”; talvez até pela personificação que o Selton (Mello) deu nele. Tenho muito carinho, mas acho que é muito pela vida que vi o personagem ganhar. Foi uma coisa muito interessante, ganha uma dimensão maior do que tudo o que poderia ser. Não me importo de não gostar de alguns que escrevi. Acho que tem que ter livros ruins para você chegar em um melhor. Mas, tem alguns que... Tem o Diomedes, personagem de quadrinhos que tive. É uma criação que tenho muito carinho.

O.H.: Por quê?

LM.: Foi o único personagem com quem sonhei. De quem tive saudade. Pensei muito nele.

O.H.: Além da vida, suas influências você pode dizer que foram quais?

LM.: Tive várias influências ao longo da vida. Nem sempre elas se refletem no meu trabalho. Mas, algumas me estimulam a tentar fazer direito. No começo, quem me levou para literatura, me influenciou muito mesmo, foram os livros de Kafka (Franz).

O.H.: “Carta ao Pai”, por exemplo, foi um livro que te marcou?

LM.: Interessante você ter escolhido citar essa obra. Esse livro demorei para ler; li justamente quando minha mulher estava grávida. Acabei tendo a visão contrária. Entendi muito mais o pai do que o filho. Acho toda aquela revolta e reclamação do filho, uma reclamação de quem nunca foi pai. É de quem só consegue ver o outro lado. Tem coisas que ele não consegue entender a limitação do pai, a precariedade daquele pai. Então, foi um livro que li na hora errada. Tinha que ter lido antes de pensar em ser pai.

O.H.: Qual é o papel da literatura, Lourenço, nesse mundo onde o livro ainda é tão caro?

L.M.: Olha, livros são caros... Minha mulher, por exemplo, é de uma origem muito simples, mas ela sempre leu muito em bibliotecas públicas. Acho que é questão de você ir atrás também. Se você pensar que 50% é da livraria, 10% é do autor e 10% é de quem fez...Então, esse caro é até para quem faz também. Tudo transforma. Todo mundo tem um cerne, uma semente que pode florescer. Para alguns é a literatura, para outros pode ser o basquete. Acho que não pode ser só uma coisa ou outra.  

O.H.: E o seu processo de criação, como é? Você tem hábitos específicos?

L.M.: Olha, Pedro, é muito diferente quando trabalho quadrinho, quando trabalho livro e quando escrevo para teatro. Este livro em especial, quando me veio a ideia original, antes de terminar o roteiro, escrevi a espinha dorsal dele e comecei a desenhar. E como era um trabalho sobre memória, no momento já tinha um corpo de imagens, sentei ali e escrevi tudo. O processo caótico me ajudou a ir amadurecendo.

O.H.: Como o Lourenço Mutarelli enxerga eventos grandes em homenagem ao livro. Exemplo: bienais, feiras etc?

L.M.: Eu gosto muito...gosto muito...como espectador mesmo. Acho que é muito bom você ter essas oportunidades de encontro. Adoro. Tem leitores que tem uma relação excelente comigo, que me conhecem demais mesmo. Sempre escrevo gratidão nos meus autógrafos. É bom ver os leitores voltarem no próximo livro.



O.H.: Tem alguma produção alternativa de livro, em São Paulo ou no Rio, que tenham lhe arrebatado?

L.M.: Tenho visto algumas produções independentes com uma qualidade incrível. As produções independentes são fundamentais, Pedro. As grandes produções estão caindo. No independente, é onde você tem maior grau de experimentação. A produção independente é o caminho e o fim. Sonho, um dia, em voltar a fazer fanzine de novo. Você faz o que você quer. O meu atual livro acho que, no fundo, fala sobre a memória. É um personagem que não viveu uma história, que conta uma história que o pai dele contou dez anos antes. Então, é ele tentando reconstruir a história que ele escutou do pai anos atrás. Esse livro é para ver como a memória nasce no mesmo lugar da ficção.

O.H.: Você lida bem com a fama?

LM.: (Risos) Felizmente não tenho fama. Fico constrangido quando sou reconhecido na rua, no metro. Fico embaraçado. Não tenho problema de encontrar leitores em palestras. Mas, quando me veem na rua, me constrange. É estranho para mim. A rua é meu laboratório.

Capa do novo livro em quadrinhos de Lourenço Mutarelli 


O.H.: Com a sua escrita, você preenche àquele vazio?

L.M.: Pedro, a minha escrita me leva muito mais para o vazio do que me resolve. Esse vazio me some, é preenchido, quando estou com a minha mulher, meus filhos e meus gatos. Mas, o meu trabalho é como catucar ferida. Enquanto estou lá, cutuco minhas feridas.

O.H.: E a ausência desse livro é a ferida de uma memória de filho?

L.M.: Podemos dizer que sim. O menino conta essa memória já como homem feito. Ele leva o seu pai para um asilo, por decisão da irmã. O filho é só um condutor. Um mensageiro. Dez anos depois, ele vai rever essa história de outra forma. Acho que ele percebe o quanto ele foi superficial e fútil nesse contexto. Mas, será assim sempre. A nossa existência é fútil e superficial. Seremos sempre assim. E a vida é isso.


Agradecimentos: Livraria Folha Seca 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

MARCOS PRADO – PARAÍSOS ARTIFICIAIS


Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Ravini Padilha
Revisão textual: Paulo Cappelli


Conhecido por seus trabalhos inovadores, o diretor Marcos Prado fala ao O HÉLIO. Dia 4 de maio, seu novo longa-metragem chega ao cinema. Nessa também longa conversa, Marcos abriu o verbo para nos contar sobre o inicio de sua carreira profissional como fotógrafo e relembrou importantes fases com seus trabalhos “Os Caroveiros”, “Estamira” e a produção do filme “Tropa de Elite”. Ele também revela como foi o surgimento de sua produtora, ZAZEN, na qual é sócio de José Padilha.
O HÉLIO – Do que trata o seu atual longa-metragem?
MARCOS PRADO – É um drama de amor que tem a ver com um triângulo amoroso. É muito específico porque se passa em três tempos diferentes. O filme é dado aos poucos, vai para frente e para trás. O momento passado é numa festa rave e o presente, em Amsterdã - onde o casal, os protagonistas (os atores Natália Dill e Luca Bianchi) se encontram e se apaixonam. Ela, nesse momento presente, descobre que já tinha tido contato com esse cara. Acaba se apaixonando por ele. Quando você volta ao passado, entende da onde vem o triângulo entre o personagem da Lívia, melhor amiga da protagonista, da Natália e do Luca.

O.H.: E as drogas são o pano de fundo?
MP.: Sim. O que leva o filme é a construção dessa história de amor. É o destino levando esse reencontro dos protagonistas no tempo presente e você entendendo como tudo aconteceu.

O.H.: Ainda sobre o seu atual trabalho, “Paraísos Artificiais”, qual o seu posicionamento com relação às drogas ilícitas?

MP.: É muito delicado falar “sou contra”. Não posso fazer apologia porque não sou totalmente a favor da legalização de todas as drogas. Mas, se você legaliza, diminui o índice de criminalidade; mas, cria um problema de saúde pública gravíssimo. Vai ser vendido crack na farmácia? Por outro lado, quem nunca fumou maconha? Estava vendo uma pesquisa que indica que 51% dos universitários já experimentaram alguma droga ilegal. Porque se legaliza apenas o tabaco? Então, são perguntas que ficam aí no ar. E o álcool? Sou contra certos tipos de droga. Agora, por que não deixar experimentar maconha? Os argentinos já fizeram isso. Ficaram na nossa frente! (RISOS) E eles têm o Messi! Fiz um filme que é em cima do muro. Pesquisei muito, sabe, fui à várias raves, a várias clinicas de reabilitação. Vi muitos jovens viciados sofrendo de síndrome do pânico, depressão.

O.H.: Que tipo de jovem consome?

MP: Acho que tem uma fase na sua vida em que você usa mais drogas. De 16 aos vinte e poucos anos. Você é mais rebelde ideologicamente e politicamente. É uma fase perigosa da vida. Jovens de classe média geralmente usam as drogas sintéticas. Acho que, nas favelas, atualmente, o consumo maior é a cocaína mesmo. O trabalhador pode chegar da labuta e cheirar o seu pacote de 3, de 10. É um problema sério. Ou, esse mesmo trabalhador bebe, sei lá, cinco garrafas de cerveja toda noite mais duas doses de pinga. Quero mostrar no filme “Paraísos Artificiais” uma maneira de lidar com esse assunto delicado, mas falar com o público. As festas raves de Londrina, por exemplo, foram proibidas. Mas, continuam ocorrendo bastantes festas desse tipo pelos interiores de todas as regiões do país. E a juventude do interior sempre exagerou nas drogas. Não sei se é a falta de cultura, se é a monotonia do cotidiano, a falta de informação. As pessoas acabam se escondendo numa cúpula recreativa. Então, quero mostrar no filme uma história de amor com o pano de fundo das drogas. E a música eletrônica pode fazer paralelo com tudo. É um tipo de música que toca nos rodeios, nas boates, nos carnavais.

O.H.: De alguma maneira, você toca no vazio das pessoas.

MP.: Com certeza, Pedro. Existe uma necessidade das pessoas saírem dos seus cotidianos frustrantes. Acredito que apenas 1% das pessoas trabalha naquilo que gostam. A sociedade competitiva que a gente vive hoje é muito cruel. É um número pequeno de pessoas que querem arriscar. Os jovens de hoje em dia podem chegar aos 120 anos! Mas, você vive num mundo com mais de 100 profissões que pode escolher. E quando pode escolher, também gera buraco de insegurança muito grande. Causa uma saída tardia de casa. O jovem corta o vínculo com os pais aos 25, 28 anos de idade. Mas, porra, o mundo está esquentando! A frustração da corrupção continua! O planeta X vai acabar com a Terra em 2012! E aí, esse jovem faz o que? Vive sensorialmente o presente. E as drogas caem perfeitas para uma demanda sensorial. Se você olhar o princípio ativo da anfetamina, vai notar o apelo ao sensorial. Mas, o jovem está nisso tudo e sem nenhum grito de ideologia. Ninguém se encaixa mais em grandes grupos. Tudo agora é nicho. Tem lá a banda depressiva, o menino com balão na mão; tem lá os listradinhos cinéfilozinhos, entende, Pedro? Porra! Não tem uma ideologia de valores, nada a ser rompido a não ser a sua sobrevivência. O jovem hoje está em nichos. Clubinhos. E essas drogas prolongam o presente.

O.H.: Ao mesmo tempo, Marcos, não te sinto pessimista.

MP.: Jamais! Não acho que essa geração esteja perdida. Os jovens buscam cada vez mais o autoconhecimento, por exemplo. Um amigo sociólogo fala que a busca de identidades e a produtividade criativa é, hoje, muito mais pulsante do que antes. Por mais que, atualmente, se saiba 10% de várias coisas do mundo. É a tal viciante “informação”.  Então, os relacionamentos serão reinventados. Está tudo sendo reelaborado. As famílias podem ser de dois ou três casais, quem sabe? Essa juventude trabalha de segunda a sexta, se enfia nas drogas sintéticas no final de semana, vai para o fundo do poço e dorme no domingo. Segunda, estão no seu trabalho. Seja ele qual for.

O.H.: E o jovem pobre, Marcos? Como ele escolhe cinema?

MP.: Acho que esse jovem tem que ser muito mais corajoso do que o jovem de Ipanema ou Leblon ou aqui do Jardim Botânico que ficam na asinha da mãe até terminar os estudos. Para um garoto pobre, certamente, a garra tem que ser maior. Sabe, Pedro, tem que existir o acesso a cultura. Apresentamos o Tropa de Elite em vários cinemas gratuitos, cineclubes, cinemas a um real. A classe C está indo mais ao cinema e a gente precisa criar massa crítica.

O.H.: No caso do “Paraísos Artificiais”, foi complicado captar recursos para um filme que, querendo ou não, aprofunda o foco na questão das drogas e das raves?

MP.: Putz, foi um processo super difícil. Muita gente se opôs. Mas, sempre mostramos que antes de qualquer coisa, é uma história de amor contada em dois tempos diferentes! E é um filme sem mensagem moralizante. O que tem são consequências naturais. Nem todo mau se fode, nem todo bonzinho vive na glória. É um filme ousado, charmoso. Tem cenas de sexo a dois, a três. Cenas do garoto usando a sua primeira balinha. É um filme meio para voyeurs. Muita gente que vai assistir, ainda não viveu nada daquilo. Como é transar com duas ou três pessoas? É um filme sensorial mesmo, sinestésico. A história é dada a conta gotas. E outra, o roteiro é um guia, é um orientador. Claro, tem cenas que são chaves. Tiveram cenas que deixei meus atores à vontade ao máximo que pude. Graças a Deus, são atores muito bons. E viveram experiências próprias. É um filme também com pouco diálogo. Será lançado dia 4 de maio Filmamos no Rio, Recife, Alagoas e Amsterdã (Holanda).   

Pedro Paulo Rosa entrevistando para O HÉLIO na produtora ZAZEN, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro


O.H.: Uma das coisas mais interessantes que acho na sua carreira é a diversidade. Você já falou de muita coisa. No seu livro, “Os Carvoeiros”, por exemplo, você trouxe à luz o exercício subhumano dos homens que extraem carvão ainda no século XXI. O documentário “Estamira” é uma outra coisa. Acho que a gente pode falar disso também. Você produziu “Tropa de Elite”, que tem uma outra levada e outra temática. Agora, está com “Paraísos Artificiais”. Então, é muito multifacetado o seu trabalho. Quero saber como é a escolha do Marcos Prado antes de realizar qualquer trabalho artístico.

MP.: É...meu trabalho de documentarista era todo voltado para problemas sociais, ecológicos. Principalmente no caso dos carvoeiros e no caso do Tibete. Fui até lá, fiz três viagens e montei o Free Tibet, para registrar aquele genocídio cultural quando ninguém ainda falava disso. E resultou numa exposição no MAM (Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro).  Nada foi racionalmente pensado. Isso nunca aconteceu na minha vida. Até temia pelo próximo projeto. Caralho, e agora? (RISOS) Vivia momentos de angústia profunda; os temas foram aparecendo na minha vida, trazidos pelo acaso. Quando decidi virar fotógrafo fazia economia, mas abandonei no último período. Logo me entreguei à fotografia. Não queria trabalhar com moda de jeito nenhum, mas tive de sobreviver e fiz muito catálogo. Queria ser fotógrafo da National Geographic para descobrir o mundo! Tinha essa vontade intensa dos jovens. Ainda mais naquele tempo, em que ainda havia lugares ermos, isolados. Hoje, são poucos os lugares que os seres humanos não tenham invadido, destruído e domado. Trabalhei  em freelas na revista Trip por muito tempo; e na minha primeira reportagem, “Surfista Ferroviário”, ganhei vários prêmios com as fotos. Quando vim para o Brasil para trabalhar, comecei a buscar temas. Porque o foto-documentarista precisa contar uma história. Acabei indo parar no Oriente. Antes das Torres Gêmeas explodindo, o Oriente era muito diferente. Então, fiz um mochilão para lá passando pela Tailândia, Indonésia e parei no Tibete. Eu e minhas câmeras. Fiz a melhor viagem. Explorei por mim mesmo, sem precisar da National. Foi uma experiência incrível. Não tinha um foco específico, só conhecer os lugares. Não sabia o que encontraria no Tibete. Cheguei lá e fiquei impressionado. Abracei a causa tibetana durante muitos anos da minha vida. O Tibete fechou em 1989 e abriu só em 1992. Em 1991, comecei o meu trabalho com “Os Carvoeiros”. Vi muita criança brasileira trabalhando no interior de Goiás. Acabei viajando o centro oeste inteiro e percebi que todos estavam trabalhando com carvão para as indústrias siderúrgicas brasileiras. Coincidiu da ECO 92 ser no ano seguinte, e minha exposição se tornou evento oficial. Ganhei o premio da ONU de fotografia e o principal prêmio de foto jornalismo do mundo, que é o holandês World Press Photo. Aquilo me deu um gás enorme. Pensei, “po, agora vou viver disso”. Quis voltar para o Tibete em 1993. E fui. Já que não podia fazer muitas fotos sobre a questão política, porque seria eliminado pelos chineses, resolvi fotografar ruínas e o povo tibetano, a sua cultura, as suas peculiaridades. Em 1997, encontrei o Dalai Lama, levei todo o meu material. Me perguntava: por que estou fazendo isso? Algo me ligava àquela cultura.

O.H.: Então, a profissão de fotógrafo estava te preenchendo?

MP.: Sim e não. Acabava meio frustrado porque minhas exposições como fotógrafo acabavam sempre indo parar em museus ou numa revista ou outra. Não era de interesse de ninguém. Quem vai ao museu no Brasil? Fotógrafos ou interessados. E o mundo virou audiovisual. Nessa época, comecei a me desiludir. Queria expor era no metrô, na televisão!  Queria mostrar temas importantes que ninguém conseguia entender, mas não atingia o grande público. E o Zé Padilha tinha trabalhado com catálogo numa empresa junto com o pai dele, mas o Plano Collor acabou com a empresa. Até que ele chegou para mim e disse que gostaria de fazer um documentário sobre “Os Carvoeiros”. Nisso, estava terminando o preparo do meu livro junto com um pesquisador amigo meu, Pedro Nabuco. Já estávamos nisso há sete anos. Tínhamos bastante material. E tentamos levantar dinheiro, juntamos forças e contratamos um gringo bastante experiente. Nos afinizamos com o estilo do tema e do acaso aparecerem juntos, com personagens surgindo e a figura do diretor não aparecendo. Acabou que, nesse caso, acabei fazendo quase todas as entrevistas do filme e foi bacana porque já conhecia todo histórico dos carvoeiros, suas tradições familiares. Uma grande parte de Minas Gerais se acabou com exploração abusiva do carvão.

Diretor Marcos Prado


O.H.: Aí, você percebeu que estava entrando no cinema.

MP.: Porra, foi isso! Acabei fazendo um monte de fotografia durante o processo do filme. Sabe como é cinema, o dinheiro pode acabar no meio do caminho. Daí, voltamos com o documentário e acabamos indo pra tudo o quanto é canto, indo parar em Carajás. O Governo brasileiro, depois dos prêmios todos, acabou se manifestando. O Gabeira abraçou a causa, isso foi parar no Congresso. Enfim, incomodamos. Começamos a trabalhar juntos, eu e o Padilha. Pensamos: vamos montar uma produtora de documentários. Ficamos sócios meio a meio e começamos com a Zazen. O nome é um estado pré-iluminação do Zen Budismo. Logo depois, o filme “Os Carvoeiros” foi para o Sundance, depois fizemos um pitching em Amsterdã. A National Geographic gostou, colocou mais uma grana. Com isso, embarcamos em nosso próximo projeto, “Os Pantaneiros”. Focamos a cultura pantaneira, que estava sendo destruída pela política agropecuária da divisão das terras em pastos. Uma das nossas características é pesquisar muito, é ter respeito ao que é histórico de todas as coisas. Compramos Abílio de Barros para fazermos esse segundo trabalho. Enfim, foi sensacional porque aprendemos muito com as porradas do mercado.

O.H.: A produtora Zazen tem anos e anos de experiência no mercado audiovisual. Como é que você avalia a ascendência ou decadência – como quiser enxergar – do cinema brasileiro? Querendo ou não, você marca opiniões.

MP.: Acho que o cinema brasileiro está num momento de expansão de linguagem cinematográfica. O documentário brasileiro cresceu antes da ficção.

O.H.: Por quê?

MP.: Ah... a gente vive num país com muita desigualdade. E o cinema reflete muito a cultura do país. Muitos documentários fortes, desde a retomada do cinema, refletem isso. E vários documentários tiveram mais respaldo de cinema do que a própria cinematografia ficcional. Acho que o documentário brasileiro, principalmente no início dos anos 90, veio com uma chuva criativa muito forte. O saldo é positivo.

O.H.: Qual foi a sua motivação para o “Estamira”?

MP.: Pedro, (RISOS) estava em casa tomando um yogurte. Raspei até o final e fui jogar no lixo. Pensei: caralho, lá nos Estados Unidos, a gente separa o lixo todo bonitinho, chega aqui no Brasil, a gente mistura tudo. Já tinha visto umas fotos do Sebastião Salgado no Gramacho. Pensei logo em ligar para Comlurb. Atendeu um sujeito maravilhoso. Falei para ele que era um fotógrafo e que queria conhecer o lixão. (RISOS) Ele me disse que conhecia meu trabalho nos “Carvoeiros” e que no dia seguinte um carro me pegaria. Eles me abriram as portas de uma maneira que não esperava. Depois da ECO 92, foi dito que o lixão seria transformado em aterro e até o momento, nada. Quando cheguei lá, os traficantes tinham fechado tudo, estava caindo um temporal. Depois, consegui entrar e presenciei uma diversidade: lixo, criança, velho. Cara, vibrou dentro de mim. Fudeu! O ensaio me achou. Aí começou, fotografei, fotografei. Achei gente muito orgulhosa de trabalhar no lixo. Gente que sustentava família, pagava escola para filho. Também encontrei moradores dizendo que aquilo era uma degradação humana.

O.H.: Quer dizer, lá é uma espécie de universo paralelo?

MP.: Sim. Tinham prostitutas, as pessoas cheiravam muito tarde e noite. E de noite aquilo virava a lei do mais forte. E tinham pessoas que moravam ali porque não tinham grana para a passagem. Eu não havia feito portrait de ninguém, até porque era um local muito inóspito. É difícil se ambientar naquele ambiente. É bom lembrar aqui, o carvão entrou na minha vida junto com o lixão. Isso mais ou menos em 1991. Fazia um pouco de um projeto e depois ia para o outro. Aí, em 1997, fiquei sócio do Padilha como falei e em 2000 encontrei Dona Estamira. Falei, caralho cara! Essa mulher não sai da minha cabeça! Mas, não tinha dinheiro. Fui chamando gente. Juntei três pessoas, começamos a filmá-la. Eu sentei do lado dela, ela me explicou lá toda a cosmologia dela rabiscando num papel. Disse que morava num castelo e tudo o mais. Decidi filmar essa senhora. Pedro, nunca achei nem acho que ela tenha algum distúrbio mental. Acho que ela recebia alguma entidade ou qualquer coisa. O fato foi que não consegui esquecê-la. Dona Estamira foi apedrejada no lixão, foi parar numa clínica de saúde para curar as feridas. Aí, o doutor indicou para que ela fosse ao centro social em Campo Grande (Rio de Janeiro). Nesse centro, ela começou a tomar remédios fortíssimos. Quando cheguei lá no Jardim Gramacho (lixão em Duque de Caxias, RJ) e me disseram que ela estava descansando em casa, fui até lá. Era uma área periférica de Campo Grande, lugar cheio de traficante. Os caras liberaram, entramos super com medo. Bati palmas, ela mandou entrar me dizendo: “Tarda, mas não falha”. Disse para ela que não a tirava da cabeça e ali propus de filmar a sua vida. Ela me olhou e disse que estava esperando por isso a vida inteira. Porra, aí Pedro, foi uma coisa atrás da outra!

O.H.: Você se alimentou lá?

MP.: Tive que comer...(RISOS) Não fraquejei hora nenhuma. Filmava o cotidiano daquela senhora sem querer me envolver pessoalmente, embora aficionado e emocionado com tudo o que ela era. Amando-a de todas as maneiras. Venerando Estamira, a profetisa; a Zaratustra moderna.

Pedro Paulo Rosa e Marcos Prado


O.H.: Naqueles momentos em que Estamira brigava com os familiares e amigos, como você reagia?

MP.: Totalmente desconfortável. Na briga dela com o neto, por exemplo, foi no terceiro ano de trabalho, então, já estava acostumado. Tentando não interferir, pisando em ovos. Sentíamos no feeling a hora de ligar e desligar a câmera.

O.H.: Se você pudesse repensar e refletir sobre a linguagem que você e Padilha desenvolveram nos documentários, de que maneira seria essa reflexão?

MP.:   Todos os nossos documentários foram feitos pelo mesmo formato que nos doutrinou. Sempre fizemos documentários tentando não interferir demais narrativamente. Principalmente no caso de “Estamira”. Não fazemos estilo clássico francês e também não fazemos sem nunca aparecer nem perguntar nada. Entrei na ilha com o meu montador e foram 12 meses de edição para nascer “Estamira”. Quis respeitar a cronologia, o inicio do tratamento dela. É muito importante mostrar que é possível conviver com uma pessoa com distúrbios. Na verdade, acho Estamira extremamente lúcida. Cheguei a uma conclusão, Pedro: os distúrbios de Estamira, a sua cosmologia; os “espertos ao contrário”, “o controle remoto”, aquilo tudo era a lucidez dela.  Era a dimensão de si própria. O lixo estava aqui fora. Ela tinha uma ética pura, quase budista de valores. A loucura dela era a capacidade que ela tinha em se preocupar com os filhos e os netos. Poxa, no passado, ela sofreu dramas amorosos, foi obrigada a internar a mãe num sanatório. Enfim, respeito a cronologia de Estamira e recorro aos seus filhos para darem um sentido de concretude. Pois Dona Estamira nos conta tudo por meio de metáforas sensíveis. E Pedro, ninguém acreditava no projeto! Me chamavam de louco por estar filmando uma senhora do lixão de Gramacho. E é um documentário para poucos mesmo. Embora tenha ganhado mais de 30 prêmios nacionais e internacionais. É um documentário longo, lento.

O.H.: Quem são esses poucos para os quais “Estamira” se direciona?

MP.: Acho que...(RISOS) para os atores. Muita gente acha que ela atuava. Talvez exagerasse. Bem, se ela atuava, ela é a melhor atriz que o Brasil já teve. Ela era simplesmente o momento presente. A fluidez e a inteligência dela no seu vocabulário e na narrativa eram impressionantes.

O.H.: E aí, lá na frente, veio o Tropa de Elite. Você se surpreendeu com a repercussão?

MP.: Então, depois que o Padilha estourou com o filme “Última Parada 174’’ , quis aprofundar nessa questão da violência pública no Rio de Janeiro. Conversamos muito e chegamos à conclusão de que precisávamos fazer uma ficção. Fomos pra guerra! Porque é tudo mais caro e complicado na ficção. Os estudantes da PUC acusavam, os jornalistas, os bandidos. Cada setor dava seu grito. Foi uma puta discussão sensacional. Fizemos o Brasil discutir. Aliás, todos os filmes têm uma carga sociológica muito forte.

O.H.: Como vocês lidaram com a questão da pirataria no primeiro Tropa de Elite?

MP.: Porra, ficamos muito frustrados. Perdemos grana mesmo. Pegamos empréstimo. No começo, foi chocante. Ficamos fodidos. Nós pegamos quem foi que fez aquela sacanagem toda. Agora, no Tropa II, viemos mais maduro em tudo. Na técnica, no enredo. Em tudo. O II é menos thriller que o primeiro.

O.H.: Como você lidou com alguns sociólogos e outros setores da sociedade batendo em vocês?

MP.: Olha (RISOS), muita gente bateu e muita gente defendeu. Como é que um cineasta não pode fazer a visão de um policial do BOPE que mata e tortura? Como é que isso não pode ser interpretado nas telas? Ridículo nos acusarem. O que fizemos foi observar com os olhos de um policial do BOPE. Sem generalizar, é claro! Esse filme mexeu tanto nas estruturas que muita gente panfletou a favor e contra ele. Tem a classe média que é conivente. E é mesmo. Porra, se você sobe no morro ou paga alguém pra subir e comprar droga, você é conivente com essa merda! Simples e prático assim. Po, por que não planta!? (RISOS). E outra, depois que você faz o filme, ele é do público. Falem mal ou bem, mas falem. 

O.H.: O que você diz para os alunos que enchem as turmas da UFF, da PUC, da Darcy Ribeiro e de tantas outras instituições que entendem cinema como ensino/formação?

MP.: Para que eles estudem fotografia, para que eles sejam flexíveis e aprofundados. Lendo muito, estudando dramaturgia. Cinema tem que ser 80% contado em silêncio. Você tem que tampar os ouvidos, sem ouvir o diálogo e conseguir entender o filme. Senão, vira teatro. Se for tudo falado, escreve livro e faz teatro que é melhor. E outra coisa: tentar manter afastamentos. Sem ficar sendo intelectualóide. Sem ter tantos ídolos. Criando suas referências. Sendo cauteloso à política dos prêmios, para não se esquecer do seu real tamanho. Você, jovem, sabe exatamente do que estou falando, tem muita gente assim! (RISOS).

O.H.: E qual será seu próximo tema?

MP.: (RISOS) Ele já apareceu, graças a Deus! Vou falar sobre gangues de futebol. O problema de torcedores que se matam e colocam uma coisa de paixão e amor, quando, na verdade, há algo sociológico ainda obscuro nisso tudo. Já tem roteiro e planos para rodar. Só existe uma maneira de fazer filme sobre torcidas sem causar violência: fazendo sobre o mesmo time, a Raça contra a Jovem. Ambas matam há 40 anos. E sou flamenguista doente! (RISOS) Será ficção. Ouvi uma vez de um cineasta e nunca esqueço: “só a ficção pode te tocar lá no fundo da sua alma”. Achei bonito. Na ficção, você consegue se tornar personagem do filme. No documentário, isso é quase impossível. Pedro, cinema pode ser entretenimento, mas é ainda mais gostoso quando é de bom gosto e quando propõe a criação de massa crítica. O mundo é cruel. Só esqueceram de falar isso pra gente desde pequenininho. Tem que ser dito antes: você pode ser feliz, mas tem que correr atrás.

Marcos Prado












 





domingo, 1 de abril de 2012

TATI AZEVEDO – A GRANDE E A ADOLESCENTE MÍDIA


Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Luana Dias
Revisão textual: Paulo Cappelli

            Para fechar o clima de comemoração do aniversário de um ano d’O HÉLIO, espaço virtual independente que conquistou uma grande adesão de visitantes do mundo inteiro, nada melhor do que conversar e aprender com quem fez parte do estímulo ao inicio da minha caminhada pela comunicação.  Tatiana Azevedo ou simplesmente Tati construiu um legado coletivo de produção audiovisual com o seu toque íntimo. Mais do que proporcionar e trocar conhecimento com um heterogêneo conjunto de, no mínimo, 600 jovens, Tati Azevedo possibilitou um espaço de produção de amizades, vivências, projetos e vocações para uma vida inteira.

O HÉLIO – Queria falar com você sobre as suas experiências e o que mais rolar aqui. Acho que a gente pode começar abordando as necessidades da juventude. Como é que você avalia a necessidade dos jovens? Estou focando em cultura e educação. E o que estaria sendo clamado via facebooks e derivativos?

TATIANA AZEVEDO – Assim...o que vejo é que as pessoas não sabem muito ainda usar tudo o que elas têm na mão, sabe? É bacana toda essa revolução das mídias, acesso à cultura, à informação, a compartilhar tudo o que está na rede. A ser produtor, além de consumidor da cultura. Não sei até que ponto o jovem está sabendo usar isso tudo. Acho que acaba sendo muito mais do mesmo. São os mesmos vídeos idiotas que recebem milhões de acessos. A mesma coisa que faz sucesso na televisão é a mesma coisa que está bombando na internet. Não sei te dizer de que forma isso pode mudar, é um ciclo vicioso. As coisas acabam sendo produzidas para a demanda do consumo. E o que chega que é diferente, que leve para uma discussão mais ampla, fica meio de gueto, só pra quem é cabeça. Estava dando uma palestra sobre cultura nordestina. A gente aqui no Rio aprende que, quem nasce lá pra cima é paraíba, independente da onde seja. Você tem milhões de sotaques, de culturas diferentes. Aquilo não é uma massa uniforme. Mas, isso não chega aqui. A gente é muito auto-centrado no que é produzido por aqui, só o que vira febre Rio-São Paulo é o que é considerado bom.

O.H.: E, de alguma maneira, você acha que esses jovens de Belém, por exemplo, aceitam esse paradigma de que o que é bom são as produções do Rio e São Paulo?

Tatiana.: Acho que eles têm lá a cultura deles e de alguma forma isso é valorizado. Acho que já foi mais, mas teve um grande declínio. Acho que, agora, a cultura local começou a ser re-valorizada, muito por conta das pessoas poderem mostrar seus lugares. Sem depender de grandes mídias para isso. Mesmo assim, os jovens que conheço de outros estados, ainda têm uma adoração pelo Rio e por São Paulo. Falam “Ah, vou me formar e ir viver no Rio, me emancipar de pai e mãe.” Cara, Pedro, você sabe, não é assim. Você gasta lá R$ 300 para viver; aqui vai gastar pelo menos R$ 1.000. É bonito pensar, mas é difícil fazer.

O.H.: Mas, tem mercado naqueles estados?

Tatiana.: Ah, cara, acho que mercado a gente faz. Tem muita coisa repetida na área da cultura. Por exemplo, trabalhei num projeto que se resumia em levar cinema brasileiro para comunidades do Rio de Janeiro: Vila Kennedy, Senador Camará, Reta João XXIII lá em Santa Cruz. Era uma puta tela que a gente montava, com cadeiras bacanas, pipocas, a comunidade ia. Eu pensava, “po, legal”, mas tem 15 projetos iguais a esse. São os mesmos projetos indo para os mesmos lugares. Com essa coisa da UPP então, ligada cada vez mais com a política; então o dinheiro vem daquele provedor que tem estratégia política própria e que deseja mostrar serviço para a comunidade, entende? Então, mercado existe, a demanda é forte. Você tem que ter paciência e, de certa forma, grana para investir. Tempo, hoje em dia, é dinheiro. Será que não tem mercado de produção cultural no Nordeste, no Pará?

O.H.: Há dificuldade em não se “aliar” à classe política e de encontrar esse mercado.

Tatiana.: Não estou dizendo que é pra ser milionário. Aí também é uma coisa minha. Não é isso que me importa. Minha fortuna é contabilizada em sorriso, em muito obrigada, em muito bacana. Sabe? Prazer no que faço é fundamental.

O.H.: Se você pudesse traçar um perfil da juventude brasileira, como se arriscaria?

Tatiana.: Não posso dizer juventude e nem dividiria por estados. Essa galera que está mais ligada ao cinema, que conheço bastante, busca caminhos para ter um traço parecido. Independe se esse jovem está em Pernambuco ou em Manaus. Talvez, aqui no Rio tenha mais acesso à diversidade de festivais. Hoje, o profissional troca pelo facebook. Agora, existe outra juventude que a gente não está falando aqui, que é a juventude alienada.  Despreocupada com o que vai ter amanhã. Politicamente e culturalmente. Trabalhei num projeto de formação em teatro recentemente, lá na Ladeira dos Tabajaras (Copacabana, RJ) e os caras têm a praia ali do lado. Era o teatro competindo com a praia e com o futebol dos estudantes. Aí, começamos a buscar outros jovens que estudavam em Copacabana, mas que moravam, sei lá, em Inhaúma. Copacabana é um lugar de muita gente. Havia um rapaz que morava em Cabuçú e que participava. Ao mesmo tempo, conseguíamos convites para uma peça bacana, ia meia dúzia. Pouca adesão mesmo. Acho que tem muito a ver com a formação cultural, talvez a escola pública não desenvolva esse gosto, que precisa existir desde a infância. Não adianta pegar esse jovem que está querendo ir só para a praia e...sabe, eles vão seguir por outros caminhos; talvez eles descubram a cultura lá na frente. E tem muito assim: “Ah, quero ser ator!” Mas, não está preocupado em quem está produzindo, em quem está fazendo trabalho diferenciado. Tomara que algum dia o bichinho da cultura pegue. É importante que em algum momento isso mude. A escola é muito importante nisso.

O.H.: Você sempre procurou trabalhar com jovens para a capacitação em audiovisual; ou, quando viu, já estava envolvida nessa circunstância? Como foi esse movimento, essa trajetória?

Tatiana.: Foi muito por acaso, Pedro. Fiz comunicação social na UFRJ e lá trabalhava com festival de cinema universitário. Coordenava junto com o pessoal. Sempre fui ligada no 220 nesse lance de trabalho. Chegava cedo à faculdade, embora estudasse de noite. Ficava agitando um montão de coisas, procurando equipamento para aprender a mexer. Nesse período da faculdade, trabalhei muito pela faculdade, produzimos muito curta metragem e eventos. A gente não parava. A CPM era uma saleta muito minúscula para caber as coisas. Lá tinha VT de 50 mil reais só que não tinha os cabos. Então, por muitas vezes passamos por essas dificuldades. Nesse caso, fizemos uma vaquinha entre os estudantes, compramos os cabos e com isso fui aprendendo a manusear tudo o quanto é tipo de equipamento. Por conta dessa época, aprendi a editar, a fazer câmera; tínhamos um grupo que, de duas em duas semanas, inventava um curta-metragem para fazer. Nisso, fui produtora, figurinista, maquiladora. Acabei indo por essa linha de produção mesmo. Daí, entrei para a Globo e trabalhei também em muitos outros lugares. Daí, me chamaram para um freela no Canal Futura; na verdade, era uma espécie de curadoria de um festival que o Futura tinha em parceria com o Festival do Rio. Isso lá em 2002. Foi um suor para conseguir filmes de escolas. Conseguimos cerca de trinta filmes. Liguei para quase todas as escolas do Brasil inteiro para saber se elas tinham alguma produção audiovisual. Até que me chamaram e me mostraram o projeto (Geração Futura), perguntando se já tinha feito algo parecido. E, na verdade, nunca tinha feito. O que sempre fiz foi treinar pessoas, afinal era veterana no CPM (Pontão de Cultura da UFRJ). Então, nunca tinha feito oficina, lidado com jovem. Aí, fui fazer lá no Futura, aí essa história foi começando. Com mais acesso à tecnologia, as pessoas perderam o medo de fazer filme. Era muito caro realizar. Fui aprendendo junto com o Geração Futura, junto com todos esses jovens.

Pedro Paulo Rosa e Tati Azevedo no Espaço Lunático, no Jardim Botânico.

O.H.: O que mais te surpreendeu nesse processo todo?

Tatiana.: (RISOS) O que mais me surpreende é que isso não me larga. Gosto muito de lidar com gente, de trocar ideia. Acho que tenho uma boa troca com jovem. Gosto de me colocar como igual, dando aula isso também se manifesta em mim. Procuro saber o que está vindo do outro lado de dúvida. Acho que isso me ajudou muito em como lidei com o Geração Futura e como lido até hoje, mesmo após o Futura. Muita gente me procura por conta desse know how que consegui acumular dentro do Futura. Todo mundo acha que tenho alguma pós ligada à área de pedagogia. Não, não tenho. Talvez, até por isso, sou mais solta, espontânea. Antes, no inicio do Geração, era tudo muito incerto e experimental. Fomos aperfeiçoando na medida em que cada oficina terminava. O que acho que mudou muito é que, no inicio, era uma oficina de produção audiovisual. A gente tinha muita preocupação em ensinar a manusear a câmera, em pensar a luz. Enfim, a parte técnica acabava sendo o principal foco. Depois, ao passar dos anos, fui aprender que mais legal do que saber fazer vídeos é compreender a troca com diferentes pessoas do Brasil inteiro. Diferentes cabeças e ideias. É outro ambiente, com pessoas que nunca ninguém viu. Muitos me falam que o Geração Futura foi um momento importante. De pensar não só carreira. Mas, pensar vida. É um momento difícil. E aquilo ali de alguma forma encanta, né? Você está dentro de um canal de televisão, conversando com gente legal. Então, essa troca toda acho que é o grande barato do Geração Futura. O segundo mais legal, (RISOS), era fomentar, era nascer pensamentos dali. A técnica, na verdade, é ferramenta. Você pode ter um equipamento de cinema fantástico e fazer “Xuxa”. Não importa a ferramenta, mas sim o que está dentro da pessoa. Cabeça e coração. Acho que o Futura é um espaço bom para discutir ideias, porque tem um conceito de educação e cultura que são bacanas. Fomentar e trazer mais gente do Canal para discutir com os jovens, é enriquecer. E discordar também é isso. O Futura, o Geração em si. na verdade, é mistura, e te pergunta: “O que você pensa?”

O.H.: O que te inclinou a fazer rádio e tv? Livro, amigo, família...?

Tatiana.: Tudo por acaso. Ia fazer psicologia. Aí, estudava numa escola...patricinha na Barra e me colocaram para fazer um teste vocacional. Foram duas semanas de teste vocacional. Fiquei até responsável por ajudar nas dinâmicas da psicóloga para toda a minha turma de terceiro ano. Aí, no final do teste, o resultado veio: comunicação ou serviço social. Pensei que não era possível! Por que isso? (RISOS) Aí, eles me explicaram que tinha boas ideias e que precisava investir nisso. Não sei se a decisão foi só por causa disso, aconteceram outras coisas no meu caminho. Sei que não queria fazer jornalismo de jeito nenhum.

O.H.: Por quê?

Tatiana.: Porque não gosto de escrever. Gosto de escrever carta de amor (RISOS). Mas, escrever notícias...sou muito crítica com o que escrevo. Sou muito critica com tudo. Aí, me inscrevi para publicidade por causa da criatividade mesmo. Depois, marquei rádio/TV e produção editorial. Acabou que passei para rádio/TV. Comecei esse curso que era pequeno, com 20 pessoas e era noturno lá na ECO. Quando terminou meu curso, tinham oito na turma. Mas, me apaixonei pelo curso, produzi muito. Trabalhei com muitos professores meus. É um curso bem prático. Agora, faculdade pública tem problema sempre. Há professores que chegaram no primeiro dia, deram suas bibliografias e só voltaram no último. Então, vai de falta de professor à falta de papel higiênico. Mas, adorei a faculdade, fora as pessoas que você acaba conhecendo que são para sua vida inteira. E assim, morei a minha adolescência inteira na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio de Janeiro), condomínio! Então, era aquela coisa totalmente cercadinho. Tinha o transporte da escola que me buscava e trazia; o meu mundinho era aquilo ali. Não ia a museus. Era uma pessoa completamente...o que conhecia era o cinema do shopping, o “polícia e ladrão” do elevador. Não tinha esse movimento cultural, nem meus pais tinham isso de me levar. Então, quando fui para a ECO (Escola de Comunicação da UFRJ), consegui me aproximar de outros mundos. Acho que isso é um dos pontos mais positivos da faculdade, pública principalmente. Então comecei a rodar, a entrar em outras redes sociais, a me conectar com outras visões de mundo. A minha preocupação qual era? Tinha 18 anos e um irmão de oito. Pensava comigo: ele não pode ficar nesse mundo de Barra. Então, todo final de semana pegava meu irmão e levava ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), por exemplo. Ou para o Museu de Belas Artes. Aí, hoje, tem eu, ele e minha irmã, três anos mais nova. E ele continua me ligando para a gente sair. Meus pais não têm isso. Até hoje. Até em relação a viagem, antes viajava muito com meus pais. Depois da faculdade, passei a viajar muito mais sozinha. É muito bom viajar.

O.H.: Como é que as novas mídias incrementariam a TV, o rádio, o impresso?

Tatiana.: Acho que não são mais tão novas assim, elas estão ficando adolescentes. Por mais que as pessoas usem a internet, a grande mídia ainda é a televisão. As pessoas perdem a novela e vão conferir na internet. Não sei... você escuta rádio no celular...acho que você acaba procurando a grande mídia por meio dessa tecnologia.

O.H.: Mas, você acha que isso é um desenho do Brasil, no sentido dessas mídias estarem reforçando a utilização da grande mídia ou é um perfil de consumo mundial?

Tatiana.: No Brasil, pelo menos, tem uma demanda muito forte por televisão. Você pode me dizer também, mas o jantar de família ainda é no sofá vendo “Jornal Nacional”. Para mim, a ideia de que as novas mídias estariam interferindo na televisão ainda é falsa. Por exemplo, mandar um torpedo para o Big Brother Brasil é encarado como participação direta do telespectador. E a gente sabe que isso não é verdade. Poxa, a televisão sim que se apropriou das novas mídias com o fim de reforçar os seus produtos e as pessoas super participam. Eu sou fanática por blogs, buscar informação. Procuro muito blog com imagens, com coisas diferentes. Mas, assim, ainda é muito mais fácil você sentar no seu sofá e ver a TV. É muito mais cômodo. Tanta gente trabalhando para te dar aquela e aquela notícia, sabe? Tem quem levante a pauta, quem pesquise, o cara da edição, o âncora. Uma rede de pessoas para dar a notícia. Agora, gosto de buscar outras coisas. Procurar outras opiniões e pensamentos. E essa variabilidade encontra-se na internet também.



O.H.: Mas Tati, ainda é um desafio, para você, criar esse espectador da internet, principalmente no Brasil?

Tatiana.: Existe esse cara, mas talvez o caminho não tenha sido achado. Acho que ainda não foi desenvolvido o caminho para achar esses caras que já são espectadores da internet. O que faz um vídeo se tornar sucesso de milhões de views? O que faz um blog ter milhões de acessos? Geralmente, você terá que publicar muita besteira para alcançar os milhões na internet. Tem muita gente que pensa assim, vamos fazer um programa para colocar no youtube. Poxa, quando você põe no youtube, você cai no limbo. Quem vai assistir? Porque assim, você twitta, divulga no facebook. Mas, tem alguma coisa aí que é de acaso. Não tem uma receita ainda. Talvez, você usando a grande mídia para chamar à internet, entende? Se você tiver uma pílula do seu programa de internet na televisão, em um programa de sucesso da TV, talvez assim você consiga os seus milhões. Ou, se você tiver o Ancelmo Góis (Jornal O Globo) falando desse programa...

O.H.: Quer dizer, nesse último exemplo, o impresso estaria reforçando o virtual. Ainda é mesmo um grande desafio.

Tatiana.: Sim, Pedro, é porque a internet é um espaço muito...evasivo. Virtual. Por exemplo, sou pouco focada na internet. Para trabalhar, preciso fechar a internet. Porque acabo sendo muito desconcentrada na frente do computador. É um inferno! (RISOS) E isso dificulta muitas coisas, esse lance da desconcentração. Não sei, acho que as pessoas ainda confiam mais na grande mídia. Tenho uma história para te falar muito legal, Pedro, com o meu pai, sempre meu pai...(RISOS); rodo muito por aí, né? Conheço vários lugares, não sei o que e tem várias historinhas desse tipo, “Po, pai, vamos almoçar num restaurante legal lá em Santa Teresa que tem uma comida sensacional?” Meu pai me olha assustado e fala que ninguém mais vai “naquele lugar, o que ele ia comer em Santa Teresa?”. Aí, três semanas depois, o mesmo restaurante que indiquei para ele, sai na capa da revista Rio Show (Jornal O Globo) como sendo um excelente estabelecimento e tal. Meu pai chega para mim e fala: “Tatiana, vamos lá! Saiu no Globo e estou querendo experimentar”. Quer dizer, isso tudo pra dizer que o que sai no impresso acabou sendo mais importante do que o que eu estava dizendo. E as pessoas acreditam mesmo nisso. Sabe o prédio que desabou no centro do Rio? (Na Cinelândia) Pois é, Pedro, estava dentro do prédio três horas antes! E aí, liguei para o meu pai dizendo que estava ainda a maior confusão no centro, caindo coisas. Ele me volta dizendo: “Ah, mas não está aparecendo nada na televisão ainda”. (RISOS) Então ta bom, né?

O.H.: Agora, a comunicação está mais plena pelo uso das novas mídias? Como é que você se posiciona com relação ao direito à comunicação?

Tatiana.: Acho que o direito à comunicação está em quem consome. Se as pessoas continuarem consumindo do jeito que consomem, esse poder vai continuar instaurado do jeito que está. Ainda confiam em quem? Na grande mídia, no jornal O Globo, na televisão em si. Enquanto a gente, como consumidor, não der essa virada de mesa, vai continuar assim.

O.H.: Enquanto não mudarmos o canal, né?

Tatiana.: Exatamente. O BBB, por exemplo, está vendido até 2015, sacou? Por quê? Porque tem uma porrada de gente que assiste. Eu, inclusive! (RISOS) Quando não estou a fim de pensar, sento lá e assisto. E aí, o que acontece, o Guaraná Antártica está vendendo cada vez mais, assim como o Niely Gold. Eles vão continuar investindo nessa porcaria de produto. Aí, você vai culpar a mídia disso? A gente sempre acaba terceirizando a nossa culpa. A nossa responsabilidade. Isso é maluquice, sabe? Se a Globo é a sua única fonte de informação; se você não se comunica com o mundo, só se comunica com a Globo, aí é você quem está errado. Não é a Globo. Porque eles fazem o papel deles, estão lá ganhando o dinheiro deles e colocando produtos que as pessoas estão demandando. E tem muita coisa que é uma asneira atrás de asneira. Por exemplo, entrevistar um artista para saber como ele pega a mulher dele, ah, pelo amor de Deus...tem programas que já estão na terceira temporada na Globo com essa abordagem. Então, assim, a Globo manipula ou eu sou manipulada? Eu, Tatiana, não sou manipulada.

O.H.: Será que você não é manipulada porque você conseguiu sair lá do seu cercadinho da Barra da Tijuca e...sei lá, será que quem está lá em Santa Cruz (RJ), por exemplo, e só consegue comprar o shampoo Niely, como faz?

Tatiana.: Sim, sim, também. Exatamente. Mas, não é a Globo que tem que educar as crianças. São os pais, as escolas. Se não levar meu irmão para as exposições do CCBB, ele vai ficar em casa vendo desenho. Ele vai ser manipulado? Talvez; acho que o direito à comunicação a gente tem, acesso também. As pessoas podem desligar a televisão e  ler um livro. As pessoas podem desligar a televisão e ir para a rua. Talvez não queiram, talvez não saibam que podem. E aí esse não saber é ignorância. Não é a Globo que tem que falar para ele que eles podem, é o que está em volta.

O.H.: Como é que você avalia os atuais e crescentes estudos sobre periferia, assim como a utilização do “cenário” social da favela como produto artístico? Isso tem ou não dois gumes? A câmera da grande mídia, atualmente, querendo ou não, visibiliza esse público. O problema é o como?

Tatiana.: Todo lugar agora é lugar. Muito bacana você tocar nisso, Pedro. A gente está estudando periferia, mas a cultura dessas periferias está mudando muito por conta desse novo olhar. Eles estão começando a se pesquisar, talvez. Ainda acho muito injusta a maneira como as pessoas entram nesses lugares e se sentem superiores. Sabe, com aquele discurso: “vem aqui, que vou mostrar para vocês o que é cultura”. Sempre o que é bom é o que está sendo trazido de fora. E não é assim, eles têm a cultura deles que geralmente não é valorizada com verdade e respeito. Isso para mim é muito cruel. É difícil você ver um projeto social ou político que vá entender o que está acontecendo ali. Na Cidade de Deus, por exemplo, tem muito projeto. Há garotos excelentes. Para mim, é cruel como estão entrando na favela. Acho que tem gente que entra sem vivência, sem ter o que contribuir e que entra na comunidade dizendo que vai levar o saber, a cultura. Tem um projeto que curto muito, que é o Museu da Maré. As pessoas levaram seus pertences, suas memórias para construir o acervo do museu.

O.H.: Foi uma construção de patrimônio espontânea.

Tatiana.: Exatamente. É diferente de, eu, Tatiana, virar e falar: vamos fazer o museu da Rocinha? E aí, querer dizer o que entra e o que não entra. Sabe, Pedro, vejo muita gente ganhando dinheiro em cima de quem está excluído.

     
O.H.: Você já viu muitos vídeos de produção audiovisual jovem. Tem algum que mais tenha te marcado?

Tatiana.: Olha, Pedro...vou falar do último vídeo que fizemos agora com o Geração Futura 17. São muitos vídeos! Mas, vou falar da Liga da Injustiça. Para mim, meio que fechou com chave de ouro a minha participação no Geração Futura. Foi um resultado tecnicamente bacana com uma ideia muito legal. Nas oficinas anteriores, quando íamos pelo seguro tecnicamente, ficava uma coisa quase chapa branca o conteúdo. Muita gente teorizando, sabe? E o que me cobravam era: cadê a jovialidade, a ideia inovadora? E assim, muitos jovens ali pegaram na câmera pela primeira vez. E cada grupo formado tinha uma diversidade de pensamento que existia em si mesmo. Então, buscar a concessão nisso tudo era sempre um grande desafio. Fico me imaginando nessa situação, eu com 16 anos num canal de TV e um monte de gente experiente vindo falar comigo. Aí, tenho que ter uma ideia genial, tenho que fazer bem, ser jovem, inovador! É muita coisa. Você fez parte e sabe como é, Pedro. Então, assim, em alguns momentos, fui pelo “vamos por aqui” dando uma guiada mais forte e em outros momentos pirei na batatinha e deixei que eles inventassem quase tudo. Então, voltando ao Liga da Injustiça, a ideia foi muito boa. Mas, na verdade, não acredito muito em ideias, mas em construções.

O.H.: Fala mais disso.

Tatiana.: Você pode ter uma ideia, mas se vai ao ar, é uma construção coletiva. São 15 jovens mais uma equipe de televisão para fazer aquilo acontecer. É claro que teve um idealizador, mas da ideia sai um projeto que é uma construção. Foi um mês construindo a Liga da Injustiça. A ideia não é minha ou sua. E isso acho que é o mais encantador na cultura e no audiovisual. Quando você põe no papel e desenvolve o roteiro, a sua ideia já mudou. E quando outras pessoas pegam e produzem, já tem outra cara mesmo o que você inventou. Acho muito mágico a gente poder compartilhar. Produção para mim é isso. Acho que é a área que mais lida e se comunica com todos. Por isso, escolhi produção. O produtor conhece o corpo do produto. As etapas. Além do Liga da Injustiça, teve um projeto que coordenei com jovens da Cidade de Deus que filmaram um documentário sobre o “Sítio da Amizade”. Foi ótimo, por aquilo que a gente estava falando, esse foi um projeto que deu voz. E quero pegar esse vídeo e jogar para a grande mídia, para o programa CQC, porque eles têm influência junto ao poder público para fiscalizar e diminuir as ruínas perigosas à saúde que estão lá nesse sítio da amizade. Nesse sentido, o poder da grande mídia se torna bom, compreende? Os meninos podiam querer falar da baladinha, mas não. Eles quiseram mostrar a realidade deles, que está foda e difícil. Então, essa construção junto com eles foi muito emocionante e ver esse filme sendo exibido na comunidade, e as pessoas reagindo a isso, foi muito bacana. Acho que esse vídeo é um vídeo que tenho na mão que é um produto especial.

O.H.: Uma vez você me disse que tinha um sonho de produzir um longa-metragem. Onde que essa vontade está nesse momento?

Tatiana.: Ainda tenho. Gosto muito de cinema, sempre gostei muito de produzir. Acho que ainda vai rolar um dia. Estou trabalhando para isso, Pedro. Saí do Futura não por causa do filme que quero fazer, mas por conta de querer buscar um pouco mais de independência e outras possibilidades. E poder de repente fazer o meu filme.

O.H.: Sei que é clichê, mas é impossível não te perguntar isso. Quais dicas você daria para quem quer seguir com o audiovisual como carreira?

Tatiana.: E eu vou te falar uma coisa que talvez seja dez vezes mais clichê que isso, mas quero falar também (RISOS). Incomoda um pouco essa história de buscar o audiovisual como carreira. Aquilo que estava falando para você, tem que fazer aquilo que gosta. Quando a gente foca naquilo, a gente consegue. E aí a carreira vai acontecendo como consequencia. Por exemplo, não quero ser uma produtora de Hollywood, quero produzir filmes bacanas. Também não quero produzir Xuxa. Não sei se isso é uma boa dica também, mas é como tenho vivido até hoje.  É claro que posso fazer cada vez mais coisas que gosto e ganhar mais dinheiro com isso. Se não der certo, vou cozinhar também! Foco em fazer coisas em que acredito. Se não acredito, vai sair esquisito. A dica para quem quer trabalhar com audiovisual, é pesquisar o mercado não para saber quem paga mais, mas para saber quem está fazendo aquilo que você gosta. Se o que você gosta é fazer comercial de tênis, cara, vai ver quem está cuidando da conta da Olympikus e mostra que entende tudo de tênis. Se você é fã numero 1 do Renato Aragão ou da Xuxa, vai procurar quem produza eles e se oferece como assistente de boy, sabe? Agora, para mim, não serviu trabalhar na Globo. Não funcionou, não acreditava no que estava fazendo. Chorava no banheiro todos os dias. Isso para mim não é vida. Pode ser ponto ideal de trabalho para outros. Tem gente que se formou comigo que está na Globo até hoje. Para eles funciona, para mim não funcionou. Não condeno de jeito nenhum. Mas, não é um ambiente que curto. Mas, aí, vou te dizer, é muito mais difícil quando você assume o seu caminho. Hoje, seria gerente de produção. Já tinha começado num nível bacana, fazendo minissérie. Mas, não funcionou. Assumir o meu caminho é uma batalha, que travo sempre. Com a minha família também. Quando saí do Futura, fui questionada no âmbito familiar. Como assim, ser independente? A vida está aí para ser vivida. Se não der certo, vou espalhar meu currículo por aí e entrar em algum lugar. Posso até terminar minha carreira trabalhando na Record. Isso não seria um problema, se tiver que acontecer. Tenho que viver o que está pulsando agora. Mas, tem gente que não tem a possibilidade de fazer aquilo que acredita, mas o que pode. Faz o que tem a oportunidade. Conheço muita gente que está trabalhando mecanicamente. As pessoas costumam me condenar porque trabalho de mais. Me chamam de coitadinha porque fiquei até tarde trabalhando. Mas, cara, é uma cachaça para mim. Não estou em busca de carreira, mas em busca de trabalho bacana.

O.H.: Maravilha. Fechamos aqui. Obrigadíssimo. Felicidade está aqui com você.

Tatiana.: Muito bom. (RISOS)


Agradecimentos:

Espaço Lunático











































sábado, 24 de março de 2012

DEONÍSIO DA SILVA – NÃO FAÇO MC DONALDS LITERÁRIO




       
 
Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Leya Brasil / divulgação
Revisão textual: Paulo Cappelli

Escritor e educador, Deonísio da Silva compartilha não só o tema principal do seu atual romance, “Lotte e Zweig”, como também brinda O HÉLIO com o seu pensamento provocativo, idealista e extremamente necessário para enriquecer a mentalidade brasileira. Deonísio começou a carreira ainda jovem e teve uma base cultural bem vasta no seminário em que estudou. O seu primeiro conto lhe rendeu a prisão por ter sido considerado subversivo aos militares. Nosso entrevistado não é só um escritor, mas um homem reflexivo; dialoga com os sonhos e com a realidade ao mesmo tempo em que belamente elucida questões fundamentais para a cultura, política e educação de nosso país mostrando o seu posicionamento.

O HÉLIO: Você tem uma ligação forte com assuntos proibidos. Acho muito louvável uma pessoa que estuda um momento tão delicado no país. Por que isso?

DEONÍSIO DA SILVA: Olha, o meu conto de estreia, que me rendeu a prisão, 72 horas incomunicáveis e a condenação de dois anos de prisão, que cumpri em liberdade. Fui, de alguma forma, um presidiário infanto-juvenil porque estudei num seminário de padres. A gente era tratado como presidiário. Era filho de uma família pobre, no tempo em que a pobreza não era absoluta. Ganhei um presente maravilhoso neste seminário que foi a formação humanista, com ênfase em História, nas línguas e na cultura geral. A experiência com a prisão é que realmente foi um choque na minha vida. O conto foi denunciado como ofensivo aos militares, isso em 1974. Era ainda aluno do curso de Letras em Ijuí (RS), mas fazia uma coluna em um jornal do Paraná. Nem gosto muito de falar sobre este momento da minha vida. Agora, essa prisão me deu, Pedro, um olhar muito particular para observar a censura no Brasil. Ao examinar os 508 livros proibidos pós 64, era 507 mais um, que era eu! Queria fazer o mestrado sobre aquele estudo. E fiz o mestrado e o doutorado, na USP, sobre a censura. Por isso, tive muitos problemas com orientadores; problemas de ordem teórica e redacional. Pois a academia tem um espartilho danado que eu, como escritor, não tenho. Nunca quis escrever para cinco leitores. Sempre quis escrever para os meus leitores. Isso me fez ter uma fixação pela repressão, mas uma fixação ligada à vontade de saber. Temos um olhar viciado em relação à repressão. Culpamos o ditador, e não percebemos que a ditadura se reproduz em micro-estruturas. O Estado autoritário tem um apoio autoritário na família, na igreja e na educação. A Microfísica do Poder nos mostra isso. Quando Zweig se matou na companhia da mulher, digo que isso foi um assassinato coletivo. Pois quando um casal chega à decisão de tirar a própria vida, ninguém mais naquela cidade de Petrópolis o apoiou em nada. Nem o padeiro, o vizinho, nem o colega de fumar charuto. Quer dizer, digo sempre: o suicídio é um assassinato coletivo.

O.H.: Como foi a elaboração da pesquisa histórica para a construção desse livro, que é romance?

Deonísio: Tive meu trabalho facilitado. Donald Prates fez uma biografia do Stefan Zweig sem emoção, a meu ver. Depois, li outra biografia do Alberto Dines, Morte no Paraíso. Aí sim, me desbravou tudo. Comecei a conversar muito com o Dines sobre isso. Nesse período, sem que a gente conversasse, o Silvo Back fez um filme chamado Lost Zweig, que ainda não entrou em circuito comercial. Daí, também consegui uns documentos que a Casa Stefan Zweig, lá de Petrópolis, liberou.

O.H.: Que tipo de documentos?

Deonísio: Cartas, que tem publicação apenas em inglês, que a Lotte (esposa de Stefan) trocava com pessoas do seu convívio. Não me interesso em saber pra quem ela disse tal coisa. Me interessa saber o que ela disse pra quem estava documentado. Fui muito a Petrópolis. Visitei a casa de Stefan Zweig muitas vezes. Analisava fotografias, paredes. E as fotos falavam, as paredes falavam...aquele lugar úmido, abafado. Imagino como devia ser o verão numa noite abafada. Petrópolis engana. Quando fica quente, fica muito quente.

O.H.: Onde é que nasceu esse interesse pelo Zweig?

Deonísio: Sou um escritor, uma pessoa, um cidadão que foi criado no Brasil meridional, em comunidades de colonização alemã. Embora os neonazistas não fossem maioria nas comunidades, eles existiam bastante. Lá em Ijuí (RS), por exemplo, a Câmara de Vereadores se reuniu para me declarar persona não grata na cidade porque dei uma entrevista à revista Manchete dizendo que vendiam suásticas em Ijuí, era só comprar. Daí, o jornalista da Manchete não acreditou e eu o levei até o local de venda. Ele levou um susto porque eram vendidas naturalmente. Isso em 1977. O jornalista comprou a suástica de prata porque era mais barata. Ele colocou na capa da revista Manchete a suástica com a nota fiscal da compra. Quer dizer, o nazismo também alcançou um judeu austríaco refugiado na cidade de Petrópolis! Isso me fez refletir sobre essa coisa monstruosa do século XX, o nazismo.

O.H.: Como Zweig encontra Petrópolis?

Deonísio: Ele encontrou Petrópolis por amor à Lotte, que sofria de asma. Acho que ele buscou um refúgio para escrever, sair dessa oba-oba carioca e para a Lotte respirar. Embora gostasse do Brasil, a língua não é dele, os costumes não eram dele. Ele era expatriado de tudo: judeu e austríaco. Fiquei no terreno da imaginação, mas acho que a escolha por Petrópolis foi para salvar a sua esposa.

O.H.: Você quis vestir seu livro com romance por falta de que ou em complemento ao que?

Deonísio: É o meu nono romance. Tive um tio que se suicidou, irmão do meu pai. Cheguei a essa coisa que o suicidado pratica um homicídio. O sujeito que se aplica a morte é o homicida. No caso do Zweig, o que me chamou muita atenção, ele é um desesperado sui generis, pois o seu tom é totalmente tranquilo, de que as coisas iam melhorar. Acho que, no íntimo, ele achava que a monstruosidade do holocausto, aquela guerra, tinha ganhado uma dimensão tal que tanto faz quem ganhasse ou perdesse. A escravidão brasileira, falando em monstruosidade, faz parte de catástrofes sociais inapagáveis. Os índios é que deveriam decidir qual a nossa cota! O negro deu um patrimônio cultural incrível para o Brasil. E agora achamos que, fazendo uma concessão ou outra, estamos ajudando.

O.H.: Como é o teu processo de escrita? Qual o ritual?

Deonísio: Pedro, sou um profissional com 34 livros publicados. Você me faz uma pergunta inquietante. Já escrevi por gosto. Escrever é uma das coisas das que mais gosto de fazer, assim como beber vinho. Acontece que, depois, como um jogador de futebol que ganha uma posição, aquele que era o seu brinquedo vira a sua ferramenta de trabalho. E foi isso que fizeram comigo. Aí, querem crônica, ensaio, resenha. E eu tenho uma incapacidade de dizer não para aquilo que posso fazer. A imprensa nasceu com o escritor escrevendo no verso do anúncio. E sem anúncio, não tem como receber dignamente. Ainda mais no Brasil, com tiragens baixas, nenhum jornal sobrevive sem anúncio. Há pessoas que acham uma vergonha porque escrevo uma coluna de etimologia na revista Caras. Acho que o conhecimento precisa ser expandido. Alcançar o número máximo de gente. Tenho também uma coluna na Band News com o Ricardo Boechat. Acho que alguma coisa fica. Sou professor, acredito nas pessoas. Voltando ao gosto de escrever, nunca me submeti ao mercado. Não fui fazer coisas abomináveis, como pedir para me darem uma força porque estou precisando. Acho assim, se o livro valer a pena, alguém vai se interessar por ele. Não sou eu que vou dizer que vale a pena o meu livro. O leitor é quem precisa falar. Sou um homem partido ao meio entre educação e literatura. E que bom que as duas partes se juntaram.

O.H.: Em que momento essas partes se uniram?

Deonísio: (RISOS) Certas perguntas são inquietantes, não é? E as suas perguntas são muito inquietantes. Tive um amigo, colega de seminário, que se reencontrou comigo 30 anos depois. Ele era muito bom em latim. Chama-se Patrício. Perguntei a ele: “Patrício, em que momento da sua vida, você achou que era melhor cuidar de macarrão (ele tem uma empresa de macarrão em Santa Catarina) do que traduzir Terêncio, Juvenal, Sêneca?". Ele olhou bem para mim e falou exatamente assim: “Bateu água na minha bunda e eu tinha que aprender a nadar. Você acha que, na sociedade brasileira, sobreviveria com as minhas propostas de tradução de latim?”. Então, gosto de pessoas que tem afiado o senso de realidade. Porque tenho mais afiado o senso do sonho. Tem gente que chega pra mim e fala: “Professor Deonísio, o senhor é professor aqui da Estácio. O aluno daqui é muito fraquinho; não conseguiu passar num vestibular das universidades públicas.” Falei para o sujeito: “ Sou um médico de CTI, cara! Recebo doentes em fase terminal. Se estou numa CTI, tenho que salvar.” O meu trabalho, Pedro, ao receber esse aluno – reconheço, uma grande parte é fraca – é oferecer um ensino de qualidade. Fazer com que ele veja que a língua portuguesa não é aquela que ensinaram no ensino médio ou segundo grau. Há professores que ensinam ao aluno a odiar literatura e escritores. Então, eu ensino a compreenderam os saberes e os sabores.

O.H.: Nesse sentido, a literatura transforma realmente a vida de uma pessoa?

Deonísio: É comum dizer o seguinte, que a literatura não transforma o mundo. Transforma as pessoas, para que estas transformem o mundo. Sou um admirador daqueles que andam na contramão. Por exemplo, não gosto muito dessa submissão geral que hoje a juventude tem diante do mercado. A maioria dos meus interlocutores jovens estão doidinhos para serem cooptados pelo mercado da música, ou do esporte, ou do jornalismo, enfim, para o Deus Mercado. Ao mesmo tempo, porém, eles não têm um discernimento de ver que um Bill Gates se tornou o homem mais rico do mundo porque, na garagem da casa dele, ele andou contra o mercado. Quis inovar. Um sujeito que inventou muitas coisas. Trocando de assunto, mas não muito, estive conversando com o Leonardo Boff e disse que ele passou pelas mesmas punições que Galileu. E o Brasil não vê Boff como figura referencial da nossa luta. Ele é uma figura, Pedro, fantástica, mas que é tratado como uma espécie de... Rose Marie Muraro é outra. Assim como Frei Betto. Eu tenho muita admiração pelos hereges.


Capa do livro do novo livro de Deonísio da Silva



O.H.: Você foi herege lá no seminário em que estudou?

Deonísio.: Não, ao contrário. Saí com 16 anos e não tinha maturidade para ser herege. Admiro os que ousam discordar do grande todo. A submissão ao mercado é uma prova de anulação.

O.H.: Mas, você já não foi submetido ao mercado em algum momento? Até por ser um grande escritor, relacionando-se com grandes jornais, revistas, rádios e editoras?

Deonísio.: Olha...às vezes, sou mal visto por escrever na Caras. Nunca tive um único corte em nada do que escrevi nessas revistas. Acho que lido bem. Mando, sempre, o primeiro exemplar de cada livro que publico para minha primeira professora, que me alfabetizou e que tinha um cheirinho bom quando me abraçava e que tem até hoje. Foi uma das minhas primeiras paixões. (RISOS) Em seis meses, estava alfabetizado e lendo. Agora, quem me ajudou a publicar meu primeiro livro foi o Rubem Fonseca.

O.H.: Me conta isso.

Deonísio: Era aluno de Letras e teve um trabalho que todos iam fazer sobre Machado de Assis, José de Alencar. Pedi para o meu professor lá de Ijuí, chamado Gustavo Maciel, para fazer o trabalho sobre um outro autor. Sou um apaixonado pela obra do Rubem Fonseca. Retomei a obra de Rubem Nos Bastidores da Censura, que é minha tese de doutorado. Meu professor deve ter me achado louco, pois era um autor ainda pouco conhecido, isso em 1973. Consegui que meu professor gostasse muito do trabalho. E mandou para o Álvaro Pacheco, que mandou para o Rubem. E o Fonseca, que não respondia para ninguém, ... (RISOS) aí vem a lei dos acasos. Ele me escreveu. Tomei um ônibus, fiz 23 horas de ônibus só para conhecer o Rubem e não me arrependo. Só depois de um tempo tive coragem de dizer que escrevia uns contos. Aí, ele me levou para a editora Arte Nova. Então, fiquei colega de catálogo da Clarice Lispector, João Ubaldo Ribeiro. Quer dizer, estava cheio de alegria!

O.H.: Como que a gente faz para o livro ficar mais barato?

Deonísio: Acho que as editoras brasileiras tomaram um caminho perverso, que é fazer vendas maciças para o Governo. Acho também que as grandes editoras não estão investindo nos autores nacionais. Se esses autores não forem revelados pelas grandes editoras nacionais, eles serão revelados por quem? As grandes editoras publicam autores estrangeiros de sucesso porque o país desses autores tem uma política editorial de valorização. Se o Brasil adotar esse caminho de publicar autores estrangeiros de outras editoras, a literatura nacional vai morrer. Acho que tem que investir nos autores novos. Os editores brasileiros arriscam pouco. A venda não pode ser o foco mais pesado. Tem que lançar mais gente nova em todos os gêneros! Quanto ao preço, a culpa não é dos editores. Acho que a culpa é do Estado, que tem que suprir as necessidades culturais do seu povo. Por exemplo, em vez do Estado comprar essas seleções de livros de um milhão de exemplares, que a gente não sabe como são feitas, as bibliotecas públicas deveriam ser obrigadas a comprar o autor nacional. Tem que ter uma política de apoio. Eles encontram verba para o terreno, para o vidro, para o tijolo, para a corrupção, mas não põe livros lá dentro. Deviam comprar os livros de autores brasileiros. De todos. Ter uma política de compra. Poderia até privilegiar regiões. Belém lendo o Rio de Janeiro, São Paulo lendo Rio Grande do Sul.

O.H.: Isso seria fantástico.

Deonísio: É uma boa bandeira, né? (RISOS). Escritor é olhado ainda como um curioso. A submissão ao mercado se tornou arrasadora. É perversa essa hegemonia do mercado.

O.H.: Em algum momento você teve uma crise com suas histórias, seus personagens; ou quis parar de escrever, alguma coisa nesse sentido?

Deonísio: Ah, a gente tem isso muitas vezes... (SUSPIROS). Não gosto de escritores que dizem que já tem o desfecho, o fim da história. Eu, não. Minha direção é o vento, como barco a vela em alto mar. Pode haver tempestade, piratas, ataque, mudanças de planos. Tento chegar ao porto que programei, mas não sei qual é o porto. Sei navegar. Criar é adentrar a uma selva escura, como disse o Dante.

O.H.: Você falou que vive no senso do sonho. Em qual momento a hegemonia de mercado te limita, te neutraliza, por exemplo, a se posicionar politicamente ou te ameaça a não ser tão utópico? Ainda mais aqui neste bairro, a Barra da Tijuca, que respira os ares do mercado hegemônico.

Deonísio: Olha, não sou apenas ameaçado todos os dias. Sou prejudicado todos os dias. Quando entro numa livraria e os livros que lá estão, estão por motivo extra literário; extra qualidade. Por exemplo, quem é que vai ficar livre do Padre Marcelo Rossi, com aquele poder que ele tem na mídia? Ele vendeu milhões de exemplares. Tenho direito a não gostar daquele livro? Não. Acho que há diferença entre um prato refinado e um big Mac. Eu não faço Mc Donalds literário, Pedro. Acho que os meus romances são um prato refinado. Não esperarei que os que comem só big Mac digam que o meu prato é delicioso. Se a gente forma o gosto, é verdade também que a gente deforma o gosto. Um sujeito que está acostumado a ver novela por cinco horas ao dia, a assistir a uma narrativa que de dez em dez minutos é interrompida por uma chusma de comerciais, no dia em que ele pegar um parágrafo do Marcel Proust, ele vai a nocaute, cai durinho e larga o livro. Você, como escritor, sabe exatamente do que estou falando. Porque não houve uma educação narrativa. Ninguém lhe disse que aquilo não é narrativa, é gênero. Uma literatura de qualidade que chega ao âmago do que o autor precisa expressar, exige outro ritmo. Uma amiga minha chegou à minha casa, leu meu novo livro em seis horas. Tranquilamente. Agora, evidente que uma pessoa educada apenas por telenovela ou por literatura de baixa pestana, literatura de massa, não aguentará ler um romance que a obrigue a pensar, a sentir as coisas sob outros pontos de vista. Ou, que a obrigue a sentir que está errada em certos posicionamentos na vida e que já é tarde demais.

O.H.: Resumindo, quem foi Zweig para o Deonísio da Silva?

Deonísio: Foi um herói trágico. Acho que ele sofreu de uma doença que...Acho que um indivíduo precisa ter um mínimo de egoísmo na vida. Tive um professor, que foi o melhor que tive na vida; ele se chama Guilhermino César. Ele sofreu por uma excessiva modéstia. Acho que você tem que ter modéstia, mas quando é excessiva, te prejudica. O Drummond de Andrade dedica um poema belíssimo ao Guilhermino. Tenho orgulho de ter tido aula com um professor que foi inspiração do Drummond.

O.H.: Estamos estreando no século XXI. Apenas 12 anos de convívio com esse novo tempo. Você está otimista?

Deonísio: Olha, Pedro, sempre fui otimista desde o berço. Acho que ouvi, ainda no útero, palavras de otimismo do meu pai, homem muito otimista. Minha mãe dizia que eu era só couro e osso, muito magro. Mamãe me colocava no berço e as vizinhas dela me olhavam e falavam: “esse aí não se cria”; e meu pai, que estava debaixo da terra cavando carvão, chegava todo sujo, se aproximava do berço e dizia: “Ei, se cria sim!” E eu me criei. A criação é também uma tarefa principalmente sua. Então... (SUSPIROS), se não fosse otimista, teria desistido há muito, há muito tempo! Hoje mesmo uma revista me perguntou se acreditava no Brasil. Veja bem, Pedro, se você olhar o Brasil como o deus Janus, com uma face que olha para o futuro e a outra para o passado simultaneamente, perceberá que tudo melhorou. Mesmo o favelado da Rocinha vive melhor do que um nobre do século XVIII. O brasileiro está vivendo melhor. O processo é longo! O brasileiro está vivendo melhor, embora os paulistas não gostem de lembrar, principalmente depois de Getúlio Vargas. Que, com a consolidação das leis do trabalho, des – escravizou o país. Foi um governo extremamente contraditório. Pode notar também que a República piorou muitas coisas que a Monarquia havia conquistado. Hoje, o primeiro olhar que damos a um político é de suspeição. Quer dizer, veja você, é um motivo de pessimismo ter um projeto “ficha limpa”, olha que inversão! Estar cândido, estar limpo deveria ser óbvio! Inclusive, a etimologia da palavra candidato vem do sujeito cândido, que vestia branco e era quase santo.

O.H.: Maravilha, Deonísio. Gostou? (RISOS)

Deonisio: Gostei muito de falar pra você, Pedro. Porque você faz umas perguntas interessantes, algumas que nunca foram feitas e isso é importante.