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domingo, 10 de julho de 2011

A CANÇÃO COMO RAINHA

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Lucas Conrado
Revisão Textual: Paulo Cappelli


O cantor e compositor César Lacerda



O músico César Lacerda, ou seria melhor percebê-lo como cancionista (?), nos cede um rápido bate papo numa livraria em Botafogo, abordando principalmente que não tem uma “luta pela tradição”. César diz que A canção existe e sua maneira de existir é muito natural. E que ele possui uma admiração profunda por esta manifestação humana de produção de cultura e arte. Com visões que podem parecer polêmicas, o compositor se declara um amante de Minas Gerais e enxerga Belo Horizonte como o celeiro de um novo horizonte para a produção original da canção no Brasil.

Na segunda parte da nossa entrevista (que será postada em breve aqui no Blog), vamos falar dos projetos musicais de César Lacerda com mais profundidade. São muitas as ideias e reflexões desse velho jovem pensador da arte musical.


O HÉLIO: Onde tudo começou no RJ, César? E porque do desejo de juntar-se a outras pessoas?

César Lacerda: Tenho um trabalho com a Luiza Brina (cantora, compositora e multiinstrumentista mineira), que se chama Lu e César (www.myspace.com/luecesar). Mudei-me para o RJ há quatro anos, e quando ela se mudou para cá, passamos a nos encontrar regularmente para compor. O que resultou destes encontros vai sair agora em disco, no segundo semestre. Nasceu daí, a ideia de juntar toda a galera da minha geração em Minas. Uma forma de catalogar, cartografar a geração, o que é, em si, pragmaticamente ou, do ponto de vista da logística, uma irrealidade. Vem daí o show Por um passado musicável: notícias numa fita, que é a junção minha, da Luiza Brina e do Luiz Gabriel Lopes (da banda Graveola e o Lixo Polifônico). Esse show se deu da seguinte forma; encontramos via internet para compor todas as canções, via skype mesmo. Depois nos encontrávamos para ensaiar e tocávamos. Nessa, já fizemos Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Onze shows ao todo. É inclusive importante dizer aqui que, atualmente, a banda mais importante do cenário é o Graveola e o Lixo Polifônico. Eles vão lançar no segundo semestre o segundo disco (e meio). No disco uma parceria minha com o Luiz Gabriel.



O.H.: E aí, você e Luiza...?

César: Daí, foi natural. A coisa aconteceu. Tanto eu quanto a Luiza acreditamos num tipo de produção que é essa do agora. Que envolva o agora. A gente senta em casa e produz a música. Não tem percussão, a gente bate numa panela. (RISOS) Não tem guitarra? Então, vamos gravar com violão. Por exemplo, em um dos encontros havia uma obra de construção de um prédio que nos incomodava muito! Resolvemos, vencidos pela obra, a abraçá-la e a colocamos na música. É isso: como que o ambiente pode interferir na produção e o que se extrai disso.

O.H.: E você sempre carrega um pouco de B.H. em seus trabalhos.

César: A gente sempre carrega alguma coisa do lugar de onde a gente vem ou passou. É o nosso código genético natural.

O.H.: O que tem lá de tão especial?

César: Belo Horizonte foi... Bem... A coisa começa assim: De repente, levados pela noção de que muitos novos compositores estavam compondo e querendo mostrar aquela produção pra um público, juntou-se um monte de gente pra fazer música em conjunto. E juntou mesmo! As pessoas perceberam uma necessidade de escoar aquela produção e começaram a fazer shows, discos, filmes, livros em conjunto. Daí, dos encontros no "Reciclo Geral" que nasce o disco mais importante pra essa nova geração; o A Outra Cidade de 2003. Que é um disco (manifesto) importante. Que quer, por um lado, escoar essa produção mas por outro, e mais incisivamente, pretende formatar, inventar um porque de criação artística que reafirme o sentido da produção cultural e a relação disso com a cidade. Isso acabou gerando uma constatação de que era e é viável produzir canção com um leque variado de pessoas, de músicos e com uma relação com a cidade bastante enriquecida e formadora. É a relação cancional interagindo com a cidade. Isso é muito peculiar. Ao mesmo tempo em que se tinha uma relação clara e óbvia com a coisa da cidade e da produção anterior, havia também uma negação. Não pretendia plasmar sobre a canção as mesmas identidades anteriores; do Clube da Esquina ou mesmo do pop dos anos 90. Eu falo disso neste artigo aqui: http://phiattro.blogspot.com/2011/02/sobre-outra-nova-cidade-e-invencao-da.html. Ou seja, o que tem de tão especial em Belo Horizonte hoje é que se conseguiu entender que essa lógica mundial de compartilhamento pode ser levada ao extremo. Então, hoje o cara da banda de rock junta com o cara da banda de pagode e faz um Carnaval. Inventa um Carnaval. Lá não tem essas barreias como aqui no Rio: “a galera do samba” x “ a galera da bossa nova” x “ a galera do forró”. Em BH, existe a galera da música. A galera da Arte.

O.H.: Como é, sob seu ponto de vista, todo esse processo aqui no Rio de Janeiro?

César: Aqui no Rio, as estruturas estão muito sólidas no sentido ruim. Acho que o Rio, por conta talvez da imensa beleza da cidade, esses espaços do fazer artístico foram sendo segmentados de maneira muito estanque. Por exemplo, o samba é uma invenção. Não é uma produção genuína. Ou melhor, é uma produção que morreu atrelada à necessidade de ser genuína. Essa genuinidade que é vendida no Rio é falsa porque é apenas turística.

O.H.: Como assim?

César: Esse espaço da morena, do samba, do Carnaval, é muito consolidado aqui. E eu não sei até que ponto isso é genuíno. O cara do samba, aqui no Rio, nunca vai dialogar com o cara que faz rock. A produção deles não vai vazar para nenhum lugar. Porque eles estão enquadrados, preenchidos por essas lógicas de “tradição e repetição”. E a repetição pode levar a um lugar que é pouco genuíno. Por exemplo, é muito chato você ir à Lapa e ouvir o mesmo repertório. Por quê? Porque aquilo está ligado ao entretenimento. A pessoa não vai lá para ver um show, mas sim para beber cerveja, assim como não vai para assistir a uma peça. As pessoas vão porque precisam ocupar o tempo com alguma coisa que as reconecte com um suposto lugar de felicidade.

O.H.: Qual o problema do público do Rio?

César: Falando assim, me coloco num lugar de acusador e de ressentimento. Não sei qual o problema, de fato. Mas acho que o melhor público do Rio é o pessoal do subúrbio. Das comunidades. É um público ávido, dedicado, respeitoso. Aqui no Rio, você só é visível se sair na foto do jornal famoso, entende?

O.H.: Sua formação?

César: Eu nasci no interior de Minas, numa cidade que se chama Diamantina, e minha mãe estava abrindo uma escola de música para crianças. Ela até hoje toca piano, não tem como parar. E ali que se abrem as fronteiras pra mim. Depois, fui para Fundação de Educação Artística em Belo Horizonte, no fim da infância. A minha formação é em música erudita, por conta da universidade. Por outro lado, há uma tradição da canção brasileira que me puxou. Talvez, a minha formação se dê no entrechoque de informações que existem entre estes lugares; a academia e as mil tradições orais, fonográficas, urbanas...




O.H.: Faz o quê na UNIRIO atualmente?

César: Eu vou me formar como flautista, mesmo não sendo um! (RISOS) Não sou por não querer ser e porque politicamente não sou flautista. Acho brega essa instituição “o flautista”. Porque isso vai de encontro com a minha questão com a canção. Aliás, esse papo de que a canção morreu é mentira, hein!? Talvez o Osama tenha morrido. Talvez! (RISOS).

O.H.: Como encara a questão Ana de Hollanda?

César: Eu quero a Ana fora. Porque ela é fruto de algo que já acabou. Ela poderia ser ministra do Geisel, mas não ministra de uma época pós Gil.

O.H.: O que é a canção, César?

César: Talvez a canção seja tudo aquilo que nos conecte com a terra. Uma reconexão, um refluxo da informação que há entre o nosso trabalho diário de viver e maneira como processamos esta lógica.

O.H.: Algum pensamento que sintetize nosso bate papo?

César: O Roberto Alvim (diretor teatral) falou uma coisa numa entrevista para O Globo que me chamou atenção: É muito duro para o ser humano essa ideia do conhece-te a ti mesmo. Ele, e eu também, gostamos mais da ideia do constrói-te a ti mesmo. Talvez, daqui a 20 anos eu não concorde comigo mesmo. Mas, hoje, aos 24 anos, penso assim.


Guiado por um pensamento filosófico e questionador, César aproxima para si e expande para o seu público discussões inquestionáveis para o modo de pensar arte e de fazer música no Brasil e no mundo.



LINKS RELACIONADOS:

http://www.youtube.com/watch?v=Mw-Q6DbSOS8
http://www.youtube.com/watch?v=Wyamofi-FiQ&NR=1
http://www.youtube.com/watch?v=z5DRyujZCJY&feature=related

2 comentários:

  1. Ótima entrevista. Realmente é admirável a coragem que o César possui ao falar. Muitos se intimidam de frente de uma entrevista. Seu pensamento autêntico e original é o diferencial e algo que devemos nos espelhar. Continue assim!

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  2. Olá adorei seu Blog, e já me tornei seguidor.
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