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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

MANU SANTOS – aliança entre brasilidade e alegria

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: divulgação/Cristiano Soares
Revisão textual: Paulo Cappelli





Manu Santos enlaça a qualquer um com sua voz cadenciada e motivada pelo brilho da alegria. Em uma conversa no seu bairro de amor e de origem, Bangu (Zona Oeste do Rio), ela nos conta sobre a sua carreira, e como encara a MPB atualmente. De fala rápida e intensa, a artista mescla, em seu CD “Nossa Alegria”, fortes tendências do samba jazz com o batuque brasileiro. Saúda o mar como seu berçário íntimo e lugar de reflexão. A canção “Mulher Jangadeira” ganha força e carisma na interpretação assertiva de Manu. Seu disco traz, de forma autoral, muita religião e charme da música brasileira. A moça também gravou Ivan Lins, Fito Paez, Gilberto Gil e Caetano Veloso. O resultado do seu trabalho traduz o amor pelos palcos e o carinho especial que soube, belamente, construir junto a seus fãs.
O HÉLIO: O que você pode dizer, até o momento, que foi um divisor de águas em sua carreira musical?

MANU SANTOS: Eu e Aline Calixto fomos vencedoras do festival Carioca da Gema. Posso dizer que esse momento foi marcante e um divisor de água na minha carreira e no meu intuito de ser cantora. O Leonardo Lichote me entrevistou e tal, daí depois de um tempo encontrei ele no Facebook e a internet nos possibilitou um contato novo! Disse para ele que a matéria que ele fez comigo repercute até hoje. Mais um exemplo de como a internet junta as pessoas. Até que o Leonardo Lichote me liga informando que fez a crítica do meu CD! (RISOS) Eu comecei a gritar no telefone, ansiosa, querendo saber se ele tinha gostado. E aí, quando eu vi no jornal, chorei muito! Depois, disse para ele que me senti sendo lançada por ele. Tudo mudou mesmo. Muitas entrevistas aconteceram e shows, enfim...

O.H.: E você se acha uma música brejeira?

MANU: Olha, quem começou com esse termo foi até o Leonardo Lichote. Quando ele fala brejeira, não quer dizer maliciosa. Brejeira é uma pessoa que está cantando música mais regional. Foi o que compreendi da parte do Leonardo. Outro crítico me chamou de hiponga! (RISOS). Enfim, não ligo mesmo! Essa mistura de ritmos brasileiros é que compõe a minha música.

O.H.: Percebi muita religiosidade também no seu trabalho.

MANU: Pois é, eu sou ecumênica total! Nesse CD, tem de tudo. Eu comecei a cantar aos treze em uma igreja católica no meu bairro, o bairro Jabour. Aquilo era o meu caminho de agradecer a Deus. Depois, acabei me afastando da igreja católica. Meus pais são umbandistas, meu avô é kardecista. Enfim, até pastor tem na minha família. E dessa mistura a gente só conseguiu paz, sabe? Eu acho que a galera no Brasil, atualmente, está entrando nessa onda ecumênica pra valer. Se tiver que ir a uma missa, eu vou; se tiver que ir a um terreiro de macumba, também! (RISOS). E respeitar é fundamental.

O.H.: E aí, com treze anos você encontrou a música?

MANU: Encontrei e não encontrei! Porque, com essa idade, eu cantava por cantar. Minha vontade era ser oceanógrafa. E eu sou apaixonada pelo mar mesmo. Quero descobrir o que tem ali dentro, sempre quis! Mas então, falei com meu pai que gostaria de fazer oceanografia e ele me apoiou, mas me falou: “aqui no Brasil não tem condições de você estudar isso, porque não é uma carreira que te dê condições amplas. Você vai estudar no exterior”. E eu não quis! Mudou rapidamente minha vontade. Fiquei no Brasil com a minha família. Quando criança, não tinha a menor intenção de ser cantora, eu imitava Fafá de Belém, Wanderléia... (RISOS), só para você imaginar. Mas, não tinha essa pretensão de ser cantora.

O.H.: Seus pais mexiam com música?

MANU: Minha mãe tem uma voz belíssima. Meu pai era um músico muito especial. Eles com certeza são minha primeira influência musical. Agora, ouvi muito também Milton Nascimento, Caetano Veloso, Mercedes Sosa etc.

O.H.: Depois que você decidiu se profissionalizar em música, te deu algum medo ou insegurança fortes?

MANU: Não... não me dá medo. Eu estou aberta, mesmo. Eu aprendi uma coisa com meu pai: se você quer mesmo uma coisa, vai, corre atrás. É melhor lutar e tentar do que morrer frustrado. Eu estou na fase do tentar. Eu sou sagitariana, aventureira e paz e amor. (RISOS)

O.H.: Explica um pouco a parceria com o João Pinheiro.

MANU: Então, João me convidou para o projeto “Chico e Bethânia”, numa gravação que eles fizeram em 1975. Começamos a apresentar esse projeto no Rio em 2010 na sala Baden Powell. Então, agora o João está querendo levar para São Paulo. Recentemente, fui até São Paulo para gravar alguns vídeos para divulgação. Nos apresentaremos, mais tarde, no Teatro Cacilda Becker. E também para conhecer a galera de lá, que é muito legal.

O.H.: Você fez algum curso de voz, de música?

MANU: Não. Não verdade, comecei a fazer preparação vocal com a Eduarda Fadini, que inclusive cuidou disso no meu disco. Mas, pretendo voltar, pretendo estudar também sim. Até porque preciso entender mais a música, né? Eu tenho que entender cada pedacinho da música. Agora, cantar comigo flui. (RISOS). Você me dá uma canção, eu vou ler aquela música, entender, e cantar do meu jeito. Sabe? É muito assim... flui mesmo. Vai numa boa. Acredito que isso acontece fácil porque meus pais faziam isso em casa; lá vivia cheio de poetas.

O.H.: Há diferença em cantar na Zona Oeste e na Zona Sul?

MANU: Cantar em Bangu e no Jabour é cantar com a família. Cantar para quem conheço. Lá na zona sul, as pessoas também curtem a minha música, só que não tem o elo familiar com o espaço, entende? No fundo, é a mesma coisa. Comecei com uma temporada na “Letras e Expressões” que foi ótima. O Rio é muito variado. Se você cantar no Centro Cultural Carioca, por exemplo, o público é mais aberto. Se cantar em um teatro, a galera fica mais fechada. Se cantar na Lona Cultural, algumas pessoas querem te ouvir e outras querem comer tira gosto. Na verdade, a plateia é palco para mim. (RISOS). Lá de cima eu vejo tudo! Quem está gostando e quem não está gostando.

O.H.: Quais foram os principais desafios para lançar o primeiro CD?

MANU: Muitos! Vários! Afinal, sou uma artista independente. As pessoas falavam que meu disco estava virando lenda. Foram dois anos e meio de batalha. Só um exemplo, o estúdio em que estava gravando teve que mudar. Então, tudo mudou! Tive de gravar outras partes em outro estudo. A dinâmica da produção foi revirada. O lado bom disso é que conseguimos fazer a mixagem do CD com o Rodrigo Vidal (que fez o da Maria Gadu, e atualmente o do Ivan Lins). E o Luiz Tornaghi, e foi tudo lindo!





O.H.: Canta profissionalmente a quanto tempo? E como classifica seu público?

MANU: Olha, profissionalmente canto há dez anos. Sobre o público, vejo de tudo! Ainda mais em Bangu. Jovem, idoso, criança. Enfim... aqui é uma região muito farta de músicos. Excelentes artistas. O chato da Zona Oeste é que falta espaço para você se apresentar. Assim, muitas pessoas acham que a zona oeste termina no Recreio. Isso me dói o coração. Gente, pelo amor de Deus... tem Bangu, Campo Grande, Realengo, Padre Miguel, tem vários lugares na Zona Oeste. O Governo precisa olhar para cá musicalmente e culturalmente. A gente precisa dessa motivação.

O.H.: O Rio tem que parar com essa distribuição segmentada, limitada e preconceituosa, né?

MANU: Exatamente. Porque é muito triste, você se sente mal com isso.

O.H.: Você pensa em se mudar daqui?

MANU: Não. No final de 2007, morei em Botafogo, mas depois voltei para cá. Não pretendo sair daqui, pelo menos por enquanto. Mesmo com a violência alta. Está tendo muito tiro. No meu bairro - Jabour - temos a favela da Koréia, do Rebu, do Sapo. Enfim, estamos cercados. E o Governo não olha para cá. Mesmo assim, não quero sair! É amor que sinto por esse lugar. Nasci aqui, cresci aqui e quero ficar. Agora, falta muito emprego. Isso estimula a violência. Mas, também falta motivação para as pessoas arranjarem emprego, entende? Tem que se movimentar, gente!




O.H.: Você sente que o Rio de Janeiro tem um apelo forte pela fama e pela glamorização exagerada da figura do artista de modo geral?

MANU: Olha, que pergunta difícil, eu ainda não pensei nisso. Mas, pra falar a verdade, quando eu saí no O Globo, no Segundo Caderno, tudo mudou mesmo. Várias pessoas vieram me procurar. É impressionante, né? Você sempre esteve ali, mas você só passa a existir depois da fama, depois da foto. Mas, para tentar amenizar isso, a gente sempre usou muito a internet! Eu tenho uma comunidade no Facebook chamada “Espalhe o Amor”, com quase 500 mil pessoas. Fora o youtube que impulsiona muito os contatos. A internet é minha parceira. Eu uso essa ferramenta direto, é a maneira de divulgar minha música, meu trabalho. Aliás, é o nosso trabalho! Eu converso com todo mundo. Não tem que ter essa distância entre o artista e o público. São os seus fãs que vão te colocar lá na frente. Converso com eles no Twitter, no Facebook. E é muito legal que muitos me chamam de amiga! (RISOS). Perguntam como estão minha mãe e tal, é muito legal.

O.H.: Qual a dica que você dá para quem está começando agora na música ou em outra arte?

MANU: Olha meu querido, acredite no seu trabalho e vá para a internet, que é o melhor caminho. E não desistir nunca Existe uma frase que me que não me lembro da autoria, mas fala assim: “O futuro pertence aquele que acredita na beleza dos seus sonhos”. Então, vá à luta, companheiro e faça acontecer!”. Ah, bom lembrar: temos uma apresentação dia 28 de Agosto no MAM. Mas, a minha expectativa é conhecer o Brasil, levar a música para todo esse país, sabe? O meu maior prazer é ver as pessoas sorrindo com a minha música. É saber que as pessoas saem suaves do meu show.

O.H.: Como é ser comparada à Vanessa da Mata, Roberta Sá?

MANU: Ah, para mim é uma honra. Agora, meus arranjos são simples. Brasil para mim é percussão, é chão. Elas colocam arranjos complexos, lindos, mas que eu não me vejo executando. Agora, tanto Vanessa quanto Roberta são maravilhosas naquilo que fazem.

O.H.: Qual o recado para o seu público?

MANU: (RISOS) Galera, fica de olho que eu to chegando e vamos que vamos! Vão me acompanhando aí!

Manu Santos celebra a música com muita humildade e carisma, deixando transpassar pela sua voz, sorriso e composições a alegria bem resolvida das canções que executa. É uma artista que prioriza a MPB enquanto brasilidade, afirma que nossa música é do chão, da terra, do mar, da mistura dos quatro elementos. Manu lança “Nossa Alegria” conduzida pela beleza e som do mar. O resultado, após ouvir o disco, é suavidade e entrega.

6 comentários:

  1. Que maravilha, Pedro! Amei estar com vc! Q honra! :)

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  2. Adorei a matéria! Excelente a entrevista! Que o sucesso seja apenas o início de uma maravilhosa jornada artística para Manu Santos!

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  3. Excelente entrevista...como sempre Manu Santos encantando!! Sou hipermegaultrablaster fã!!

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  4. Meu amor na vida, Manu é a mais pura forma de música e de artista que conheço, faz pelo prazer e pelo gosto do ofício, sem apelar, sem truques, só verdade! parabéns pela entrevista linda e sincera! beijocas jocas

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  5. Amei a entrevista!!! Linda e o melhor de tudo é que traduz a autencidade da Manu. Como disse o João Pinheiro: "ela é sem truques". Bjs ;-)

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