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domingo, 1 de abril de 2012

TATI AZEVEDO – A GRANDE E A ADOLESCENTE MÍDIA


Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Luana Dias
Revisão textual: Paulo Cappelli

            Para fechar o clima de comemoração do aniversário de um ano d’O HÉLIO, espaço virtual independente que conquistou uma grande adesão de visitantes do mundo inteiro, nada melhor do que conversar e aprender com quem fez parte do estímulo ao inicio da minha caminhada pela comunicação.  Tatiana Azevedo ou simplesmente Tati construiu um legado coletivo de produção audiovisual com o seu toque íntimo. Mais do que proporcionar e trocar conhecimento com um heterogêneo conjunto de, no mínimo, 600 jovens, Tati Azevedo possibilitou um espaço de produção de amizades, vivências, projetos e vocações para uma vida inteira.

O HÉLIO – Queria falar com você sobre as suas experiências e o que mais rolar aqui. Acho que a gente pode começar abordando as necessidades da juventude. Como é que você avalia a necessidade dos jovens? Estou focando em cultura e educação. E o que estaria sendo clamado via facebooks e derivativos?

TATIANA AZEVEDO – Assim...o que vejo é que as pessoas não sabem muito ainda usar tudo o que elas têm na mão, sabe? É bacana toda essa revolução das mídias, acesso à cultura, à informação, a compartilhar tudo o que está na rede. A ser produtor, além de consumidor da cultura. Não sei até que ponto o jovem está sabendo usar isso tudo. Acho que acaba sendo muito mais do mesmo. São os mesmos vídeos idiotas que recebem milhões de acessos. A mesma coisa que faz sucesso na televisão é a mesma coisa que está bombando na internet. Não sei te dizer de que forma isso pode mudar, é um ciclo vicioso. As coisas acabam sendo produzidas para a demanda do consumo. E o que chega que é diferente, que leve para uma discussão mais ampla, fica meio de gueto, só pra quem é cabeça. Estava dando uma palestra sobre cultura nordestina. A gente aqui no Rio aprende que, quem nasce lá pra cima é paraíba, independente da onde seja. Você tem milhões de sotaques, de culturas diferentes. Aquilo não é uma massa uniforme. Mas, isso não chega aqui. A gente é muito auto-centrado no que é produzido por aqui, só o que vira febre Rio-São Paulo é o que é considerado bom.

O.H.: E, de alguma maneira, você acha que esses jovens de Belém, por exemplo, aceitam esse paradigma de que o que é bom são as produções do Rio e São Paulo?

Tatiana.: Acho que eles têm lá a cultura deles e de alguma forma isso é valorizado. Acho que já foi mais, mas teve um grande declínio. Acho que, agora, a cultura local começou a ser re-valorizada, muito por conta das pessoas poderem mostrar seus lugares. Sem depender de grandes mídias para isso. Mesmo assim, os jovens que conheço de outros estados, ainda têm uma adoração pelo Rio e por São Paulo. Falam “Ah, vou me formar e ir viver no Rio, me emancipar de pai e mãe.” Cara, Pedro, você sabe, não é assim. Você gasta lá R$ 300 para viver; aqui vai gastar pelo menos R$ 1.000. É bonito pensar, mas é difícil fazer.

O.H.: Mas, tem mercado naqueles estados?

Tatiana.: Ah, cara, acho que mercado a gente faz. Tem muita coisa repetida na área da cultura. Por exemplo, trabalhei num projeto que se resumia em levar cinema brasileiro para comunidades do Rio de Janeiro: Vila Kennedy, Senador Camará, Reta João XXIII lá em Santa Cruz. Era uma puta tela que a gente montava, com cadeiras bacanas, pipocas, a comunidade ia. Eu pensava, “po, legal”, mas tem 15 projetos iguais a esse. São os mesmos projetos indo para os mesmos lugares. Com essa coisa da UPP então, ligada cada vez mais com a política; então o dinheiro vem daquele provedor que tem estratégia política própria e que deseja mostrar serviço para a comunidade, entende? Então, mercado existe, a demanda é forte. Você tem que ter paciência e, de certa forma, grana para investir. Tempo, hoje em dia, é dinheiro. Será que não tem mercado de produção cultural no Nordeste, no Pará?

O.H.: Há dificuldade em não se “aliar” à classe política e de encontrar esse mercado.

Tatiana.: Não estou dizendo que é pra ser milionário. Aí também é uma coisa minha. Não é isso que me importa. Minha fortuna é contabilizada em sorriso, em muito obrigada, em muito bacana. Sabe? Prazer no que faço é fundamental.

O.H.: Se você pudesse traçar um perfil da juventude brasileira, como se arriscaria?

Tatiana.: Não posso dizer juventude e nem dividiria por estados. Essa galera que está mais ligada ao cinema, que conheço bastante, busca caminhos para ter um traço parecido. Independe se esse jovem está em Pernambuco ou em Manaus. Talvez, aqui no Rio tenha mais acesso à diversidade de festivais. Hoje, o profissional troca pelo facebook. Agora, existe outra juventude que a gente não está falando aqui, que é a juventude alienada.  Despreocupada com o que vai ter amanhã. Politicamente e culturalmente. Trabalhei num projeto de formação em teatro recentemente, lá na Ladeira dos Tabajaras (Copacabana, RJ) e os caras têm a praia ali do lado. Era o teatro competindo com a praia e com o futebol dos estudantes. Aí, começamos a buscar outros jovens que estudavam em Copacabana, mas que moravam, sei lá, em Inhaúma. Copacabana é um lugar de muita gente. Havia um rapaz que morava em Cabuçú e que participava. Ao mesmo tempo, conseguíamos convites para uma peça bacana, ia meia dúzia. Pouca adesão mesmo. Acho que tem muito a ver com a formação cultural, talvez a escola pública não desenvolva esse gosto, que precisa existir desde a infância. Não adianta pegar esse jovem que está querendo ir só para a praia e...sabe, eles vão seguir por outros caminhos; talvez eles descubram a cultura lá na frente. E tem muito assim: “Ah, quero ser ator!” Mas, não está preocupado em quem está produzindo, em quem está fazendo trabalho diferenciado. Tomara que algum dia o bichinho da cultura pegue. É importante que em algum momento isso mude. A escola é muito importante nisso.

O.H.: Você sempre procurou trabalhar com jovens para a capacitação em audiovisual; ou, quando viu, já estava envolvida nessa circunstância? Como foi esse movimento, essa trajetória?

Tatiana.: Foi muito por acaso, Pedro. Fiz comunicação social na UFRJ e lá trabalhava com festival de cinema universitário. Coordenava junto com o pessoal. Sempre fui ligada no 220 nesse lance de trabalho. Chegava cedo à faculdade, embora estudasse de noite. Ficava agitando um montão de coisas, procurando equipamento para aprender a mexer. Nesse período da faculdade, trabalhei muito pela faculdade, produzimos muito curta metragem e eventos. A gente não parava. A CPM era uma saleta muito minúscula para caber as coisas. Lá tinha VT de 50 mil reais só que não tinha os cabos. Então, por muitas vezes passamos por essas dificuldades. Nesse caso, fizemos uma vaquinha entre os estudantes, compramos os cabos e com isso fui aprendendo a manusear tudo o quanto é tipo de equipamento. Por conta dessa época, aprendi a editar, a fazer câmera; tínhamos um grupo que, de duas em duas semanas, inventava um curta-metragem para fazer. Nisso, fui produtora, figurinista, maquiladora. Acabei indo por essa linha de produção mesmo. Daí, entrei para a Globo e trabalhei também em muitos outros lugares. Daí, me chamaram para um freela no Canal Futura; na verdade, era uma espécie de curadoria de um festival que o Futura tinha em parceria com o Festival do Rio. Isso lá em 2002. Foi um suor para conseguir filmes de escolas. Conseguimos cerca de trinta filmes. Liguei para quase todas as escolas do Brasil inteiro para saber se elas tinham alguma produção audiovisual. Até que me chamaram e me mostraram o projeto (Geração Futura), perguntando se já tinha feito algo parecido. E, na verdade, nunca tinha feito. O que sempre fiz foi treinar pessoas, afinal era veterana no CPM (Pontão de Cultura da UFRJ). Então, nunca tinha feito oficina, lidado com jovem. Aí, fui fazer lá no Futura, aí essa história foi começando. Com mais acesso à tecnologia, as pessoas perderam o medo de fazer filme. Era muito caro realizar. Fui aprendendo junto com o Geração Futura, junto com todos esses jovens.

Pedro Paulo Rosa e Tati Azevedo no Espaço Lunático, no Jardim Botânico.

O.H.: O que mais te surpreendeu nesse processo todo?

Tatiana.: (RISOS) O que mais me surpreende é que isso não me larga. Gosto muito de lidar com gente, de trocar ideia. Acho que tenho uma boa troca com jovem. Gosto de me colocar como igual, dando aula isso também se manifesta em mim. Procuro saber o que está vindo do outro lado de dúvida. Acho que isso me ajudou muito em como lidei com o Geração Futura e como lido até hoje, mesmo após o Futura. Muita gente me procura por conta desse know how que consegui acumular dentro do Futura. Todo mundo acha que tenho alguma pós ligada à área de pedagogia. Não, não tenho. Talvez, até por isso, sou mais solta, espontânea. Antes, no inicio do Geração, era tudo muito incerto e experimental. Fomos aperfeiçoando na medida em que cada oficina terminava. O que acho que mudou muito é que, no inicio, era uma oficina de produção audiovisual. A gente tinha muita preocupação em ensinar a manusear a câmera, em pensar a luz. Enfim, a parte técnica acabava sendo o principal foco. Depois, ao passar dos anos, fui aprender que mais legal do que saber fazer vídeos é compreender a troca com diferentes pessoas do Brasil inteiro. Diferentes cabeças e ideias. É outro ambiente, com pessoas que nunca ninguém viu. Muitos me falam que o Geração Futura foi um momento importante. De pensar não só carreira. Mas, pensar vida. É um momento difícil. E aquilo ali de alguma forma encanta, né? Você está dentro de um canal de televisão, conversando com gente legal. Então, essa troca toda acho que é o grande barato do Geração Futura. O segundo mais legal, (RISOS), era fomentar, era nascer pensamentos dali. A técnica, na verdade, é ferramenta. Você pode ter um equipamento de cinema fantástico e fazer “Xuxa”. Não importa a ferramenta, mas sim o que está dentro da pessoa. Cabeça e coração. Acho que o Futura é um espaço bom para discutir ideias, porque tem um conceito de educação e cultura que são bacanas. Fomentar e trazer mais gente do Canal para discutir com os jovens, é enriquecer. E discordar também é isso. O Futura, o Geração em si. na verdade, é mistura, e te pergunta: “O que você pensa?”

O.H.: O que te inclinou a fazer rádio e tv? Livro, amigo, família...?

Tatiana.: Tudo por acaso. Ia fazer psicologia. Aí, estudava numa escola...patricinha na Barra e me colocaram para fazer um teste vocacional. Foram duas semanas de teste vocacional. Fiquei até responsável por ajudar nas dinâmicas da psicóloga para toda a minha turma de terceiro ano. Aí, no final do teste, o resultado veio: comunicação ou serviço social. Pensei que não era possível! Por que isso? (RISOS) Aí, eles me explicaram que tinha boas ideias e que precisava investir nisso. Não sei se a decisão foi só por causa disso, aconteceram outras coisas no meu caminho. Sei que não queria fazer jornalismo de jeito nenhum.

O.H.: Por quê?

Tatiana.: Porque não gosto de escrever. Gosto de escrever carta de amor (RISOS). Mas, escrever notícias...sou muito crítica com o que escrevo. Sou muito critica com tudo. Aí, me inscrevi para publicidade por causa da criatividade mesmo. Depois, marquei rádio/TV e produção editorial. Acabou que passei para rádio/TV. Comecei esse curso que era pequeno, com 20 pessoas e era noturno lá na ECO. Quando terminou meu curso, tinham oito na turma. Mas, me apaixonei pelo curso, produzi muito. Trabalhei com muitos professores meus. É um curso bem prático. Agora, faculdade pública tem problema sempre. Há professores que chegaram no primeiro dia, deram suas bibliografias e só voltaram no último. Então, vai de falta de professor à falta de papel higiênico. Mas, adorei a faculdade, fora as pessoas que você acaba conhecendo que são para sua vida inteira. E assim, morei a minha adolescência inteira na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio de Janeiro), condomínio! Então, era aquela coisa totalmente cercadinho. Tinha o transporte da escola que me buscava e trazia; o meu mundinho era aquilo ali. Não ia a museus. Era uma pessoa completamente...o que conhecia era o cinema do shopping, o “polícia e ladrão” do elevador. Não tinha esse movimento cultural, nem meus pais tinham isso de me levar. Então, quando fui para a ECO (Escola de Comunicação da UFRJ), consegui me aproximar de outros mundos. Acho que isso é um dos pontos mais positivos da faculdade, pública principalmente. Então comecei a rodar, a entrar em outras redes sociais, a me conectar com outras visões de mundo. A minha preocupação qual era? Tinha 18 anos e um irmão de oito. Pensava comigo: ele não pode ficar nesse mundo de Barra. Então, todo final de semana pegava meu irmão e levava ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), por exemplo. Ou para o Museu de Belas Artes. Aí, hoje, tem eu, ele e minha irmã, três anos mais nova. E ele continua me ligando para a gente sair. Meus pais não têm isso. Até hoje. Até em relação a viagem, antes viajava muito com meus pais. Depois da faculdade, passei a viajar muito mais sozinha. É muito bom viajar.

O.H.: Como é que as novas mídias incrementariam a TV, o rádio, o impresso?

Tatiana.: Acho que não são mais tão novas assim, elas estão ficando adolescentes. Por mais que as pessoas usem a internet, a grande mídia ainda é a televisão. As pessoas perdem a novela e vão conferir na internet. Não sei... você escuta rádio no celular...acho que você acaba procurando a grande mídia por meio dessa tecnologia.

O.H.: Mas, você acha que isso é um desenho do Brasil, no sentido dessas mídias estarem reforçando a utilização da grande mídia ou é um perfil de consumo mundial?

Tatiana.: No Brasil, pelo menos, tem uma demanda muito forte por televisão. Você pode me dizer também, mas o jantar de família ainda é no sofá vendo “Jornal Nacional”. Para mim, a ideia de que as novas mídias estariam interferindo na televisão ainda é falsa. Por exemplo, mandar um torpedo para o Big Brother Brasil é encarado como participação direta do telespectador. E a gente sabe que isso não é verdade. Poxa, a televisão sim que se apropriou das novas mídias com o fim de reforçar os seus produtos e as pessoas super participam. Eu sou fanática por blogs, buscar informação. Procuro muito blog com imagens, com coisas diferentes. Mas, assim, ainda é muito mais fácil você sentar no seu sofá e ver a TV. É muito mais cômodo. Tanta gente trabalhando para te dar aquela e aquela notícia, sabe? Tem quem levante a pauta, quem pesquise, o cara da edição, o âncora. Uma rede de pessoas para dar a notícia. Agora, gosto de buscar outras coisas. Procurar outras opiniões e pensamentos. E essa variabilidade encontra-se na internet também.



O.H.: Mas Tati, ainda é um desafio, para você, criar esse espectador da internet, principalmente no Brasil?

Tatiana.: Existe esse cara, mas talvez o caminho não tenha sido achado. Acho que ainda não foi desenvolvido o caminho para achar esses caras que já são espectadores da internet. O que faz um vídeo se tornar sucesso de milhões de views? O que faz um blog ter milhões de acessos? Geralmente, você terá que publicar muita besteira para alcançar os milhões na internet. Tem muita gente que pensa assim, vamos fazer um programa para colocar no youtube. Poxa, quando você põe no youtube, você cai no limbo. Quem vai assistir? Porque assim, você twitta, divulga no facebook. Mas, tem alguma coisa aí que é de acaso. Não tem uma receita ainda. Talvez, você usando a grande mídia para chamar à internet, entende? Se você tiver uma pílula do seu programa de internet na televisão, em um programa de sucesso da TV, talvez assim você consiga os seus milhões. Ou, se você tiver o Ancelmo Góis (Jornal O Globo) falando desse programa...

O.H.: Quer dizer, nesse último exemplo, o impresso estaria reforçando o virtual. Ainda é mesmo um grande desafio.

Tatiana.: Sim, Pedro, é porque a internet é um espaço muito...evasivo. Virtual. Por exemplo, sou pouco focada na internet. Para trabalhar, preciso fechar a internet. Porque acabo sendo muito desconcentrada na frente do computador. É um inferno! (RISOS) E isso dificulta muitas coisas, esse lance da desconcentração. Não sei, acho que as pessoas ainda confiam mais na grande mídia. Tenho uma história para te falar muito legal, Pedro, com o meu pai, sempre meu pai...(RISOS); rodo muito por aí, né? Conheço vários lugares, não sei o que e tem várias historinhas desse tipo, “Po, pai, vamos almoçar num restaurante legal lá em Santa Teresa que tem uma comida sensacional?” Meu pai me olha assustado e fala que ninguém mais vai “naquele lugar, o que ele ia comer em Santa Teresa?”. Aí, três semanas depois, o mesmo restaurante que indiquei para ele, sai na capa da revista Rio Show (Jornal O Globo) como sendo um excelente estabelecimento e tal. Meu pai chega para mim e fala: “Tatiana, vamos lá! Saiu no Globo e estou querendo experimentar”. Quer dizer, isso tudo pra dizer que o que sai no impresso acabou sendo mais importante do que o que eu estava dizendo. E as pessoas acreditam mesmo nisso. Sabe o prédio que desabou no centro do Rio? (Na Cinelândia) Pois é, Pedro, estava dentro do prédio três horas antes! E aí, liguei para o meu pai dizendo que estava ainda a maior confusão no centro, caindo coisas. Ele me volta dizendo: “Ah, mas não está aparecendo nada na televisão ainda”. (RISOS) Então ta bom, né?

O.H.: Agora, a comunicação está mais plena pelo uso das novas mídias? Como é que você se posiciona com relação ao direito à comunicação?

Tatiana.: Acho que o direito à comunicação está em quem consome. Se as pessoas continuarem consumindo do jeito que consomem, esse poder vai continuar instaurado do jeito que está. Ainda confiam em quem? Na grande mídia, no jornal O Globo, na televisão em si. Enquanto a gente, como consumidor, não der essa virada de mesa, vai continuar assim.

O.H.: Enquanto não mudarmos o canal, né?

Tatiana.: Exatamente. O BBB, por exemplo, está vendido até 2015, sacou? Por quê? Porque tem uma porrada de gente que assiste. Eu, inclusive! (RISOS) Quando não estou a fim de pensar, sento lá e assisto. E aí, o que acontece, o Guaraná Antártica está vendendo cada vez mais, assim como o Niely Gold. Eles vão continuar investindo nessa porcaria de produto. Aí, você vai culpar a mídia disso? A gente sempre acaba terceirizando a nossa culpa. A nossa responsabilidade. Isso é maluquice, sabe? Se a Globo é a sua única fonte de informação; se você não se comunica com o mundo, só se comunica com a Globo, aí é você quem está errado. Não é a Globo. Porque eles fazem o papel deles, estão lá ganhando o dinheiro deles e colocando produtos que as pessoas estão demandando. E tem muita coisa que é uma asneira atrás de asneira. Por exemplo, entrevistar um artista para saber como ele pega a mulher dele, ah, pelo amor de Deus...tem programas que já estão na terceira temporada na Globo com essa abordagem. Então, assim, a Globo manipula ou eu sou manipulada? Eu, Tatiana, não sou manipulada.

O.H.: Será que você não é manipulada porque você conseguiu sair lá do seu cercadinho da Barra da Tijuca e...sei lá, será que quem está lá em Santa Cruz (RJ), por exemplo, e só consegue comprar o shampoo Niely, como faz?

Tatiana.: Sim, sim, também. Exatamente. Mas, não é a Globo que tem que educar as crianças. São os pais, as escolas. Se não levar meu irmão para as exposições do CCBB, ele vai ficar em casa vendo desenho. Ele vai ser manipulado? Talvez; acho que o direito à comunicação a gente tem, acesso também. As pessoas podem desligar a televisão e  ler um livro. As pessoas podem desligar a televisão e ir para a rua. Talvez não queiram, talvez não saibam que podem. E aí esse não saber é ignorância. Não é a Globo que tem que falar para ele que eles podem, é o que está em volta.

O.H.: Como é que você avalia os atuais e crescentes estudos sobre periferia, assim como a utilização do “cenário” social da favela como produto artístico? Isso tem ou não dois gumes? A câmera da grande mídia, atualmente, querendo ou não, visibiliza esse público. O problema é o como?

Tatiana.: Todo lugar agora é lugar. Muito bacana você tocar nisso, Pedro. A gente está estudando periferia, mas a cultura dessas periferias está mudando muito por conta desse novo olhar. Eles estão começando a se pesquisar, talvez. Ainda acho muito injusta a maneira como as pessoas entram nesses lugares e se sentem superiores. Sabe, com aquele discurso: “vem aqui, que vou mostrar para vocês o que é cultura”. Sempre o que é bom é o que está sendo trazido de fora. E não é assim, eles têm a cultura deles que geralmente não é valorizada com verdade e respeito. Isso para mim é muito cruel. É difícil você ver um projeto social ou político que vá entender o que está acontecendo ali. Na Cidade de Deus, por exemplo, tem muito projeto. Há garotos excelentes. Para mim, é cruel como estão entrando na favela. Acho que tem gente que entra sem vivência, sem ter o que contribuir e que entra na comunidade dizendo que vai levar o saber, a cultura. Tem um projeto que curto muito, que é o Museu da Maré. As pessoas levaram seus pertences, suas memórias para construir o acervo do museu.

O.H.: Foi uma construção de patrimônio espontânea.

Tatiana.: Exatamente. É diferente de, eu, Tatiana, virar e falar: vamos fazer o museu da Rocinha? E aí, querer dizer o que entra e o que não entra. Sabe, Pedro, vejo muita gente ganhando dinheiro em cima de quem está excluído.

     
O.H.: Você já viu muitos vídeos de produção audiovisual jovem. Tem algum que mais tenha te marcado?

Tatiana.: Olha, Pedro...vou falar do último vídeo que fizemos agora com o Geração Futura 17. São muitos vídeos! Mas, vou falar da Liga da Injustiça. Para mim, meio que fechou com chave de ouro a minha participação no Geração Futura. Foi um resultado tecnicamente bacana com uma ideia muito legal. Nas oficinas anteriores, quando íamos pelo seguro tecnicamente, ficava uma coisa quase chapa branca o conteúdo. Muita gente teorizando, sabe? E o que me cobravam era: cadê a jovialidade, a ideia inovadora? E assim, muitos jovens ali pegaram na câmera pela primeira vez. E cada grupo formado tinha uma diversidade de pensamento que existia em si mesmo. Então, buscar a concessão nisso tudo era sempre um grande desafio. Fico me imaginando nessa situação, eu com 16 anos num canal de TV e um monte de gente experiente vindo falar comigo. Aí, tenho que ter uma ideia genial, tenho que fazer bem, ser jovem, inovador! É muita coisa. Você fez parte e sabe como é, Pedro. Então, assim, em alguns momentos, fui pelo “vamos por aqui” dando uma guiada mais forte e em outros momentos pirei na batatinha e deixei que eles inventassem quase tudo. Então, voltando ao Liga da Injustiça, a ideia foi muito boa. Mas, na verdade, não acredito muito em ideias, mas em construções.

O.H.: Fala mais disso.

Tatiana.: Você pode ter uma ideia, mas se vai ao ar, é uma construção coletiva. São 15 jovens mais uma equipe de televisão para fazer aquilo acontecer. É claro que teve um idealizador, mas da ideia sai um projeto que é uma construção. Foi um mês construindo a Liga da Injustiça. A ideia não é minha ou sua. E isso acho que é o mais encantador na cultura e no audiovisual. Quando você põe no papel e desenvolve o roteiro, a sua ideia já mudou. E quando outras pessoas pegam e produzem, já tem outra cara mesmo o que você inventou. Acho muito mágico a gente poder compartilhar. Produção para mim é isso. Acho que é a área que mais lida e se comunica com todos. Por isso, escolhi produção. O produtor conhece o corpo do produto. As etapas. Além do Liga da Injustiça, teve um projeto que coordenei com jovens da Cidade de Deus que filmaram um documentário sobre o “Sítio da Amizade”. Foi ótimo, por aquilo que a gente estava falando, esse foi um projeto que deu voz. E quero pegar esse vídeo e jogar para a grande mídia, para o programa CQC, porque eles têm influência junto ao poder público para fiscalizar e diminuir as ruínas perigosas à saúde que estão lá nesse sítio da amizade. Nesse sentido, o poder da grande mídia se torna bom, compreende? Os meninos podiam querer falar da baladinha, mas não. Eles quiseram mostrar a realidade deles, que está foda e difícil. Então, essa construção junto com eles foi muito emocionante e ver esse filme sendo exibido na comunidade, e as pessoas reagindo a isso, foi muito bacana. Acho que esse vídeo é um vídeo que tenho na mão que é um produto especial.

O.H.: Uma vez você me disse que tinha um sonho de produzir um longa-metragem. Onde que essa vontade está nesse momento?

Tatiana.: Ainda tenho. Gosto muito de cinema, sempre gostei muito de produzir. Acho que ainda vai rolar um dia. Estou trabalhando para isso, Pedro. Saí do Futura não por causa do filme que quero fazer, mas por conta de querer buscar um pouco mais de independência e outras possibilidades. E poder de repente fazer o meu filme.

O.H.: Sei que é clichê, mas é impossível não te perguntar isso. Quais dicas você daria para quem quer seguir com o audiovisual como carreira?

Tatiana.: E eu vou te falar uma coisa que talvez seja dez vezes mais clichê que isso, mas quero falar também (RISOS). Incomoda um pouco essa história de buscar o audiovisual como carreira. Aquilo que estava falando para você, tem que fazer aquilo que gosta. Quando a gente foca naquilo, a gente consegue. E aí a carreira vai acontecendo como consequencia. Por exemplo, não quero ser uma produtora de Hollywood, quero produzir filmes bacanas. Também não quero produzir Xuxa. Não sei se isso é uma boa dica também, mas é como tenho vivido até hoje.  É claro que posso fazer cada vez mais coisas que gosto e ganhar mais dinheiro com isso. Se não der certo, vou cozinhar também! Foco em fazer coisas em que acredito. Se não acredito, vai sair esquisito. A dica para quem quer trabalhar com audiovisual, é pesquisar o mercado não para saber quem paga mais, mas para saber quem está fazendo aquilo que você gosta. Se o que você gosta é fazer comercial de tênis, cara, vai ver quem está cuidando da conta da Olympikus e mostra que entende tudo de tênis. Se você é fã numero 1 do Renato Aragão ou da Xuxa, vai procurar quem produza eles e se oferece como assistente de boy, sabe? Agora, para mim, não serviu trabalhar na Globo. Não funcionou, não acreditava no que estava fazendo. Chorava no banheiro todos os dias. Isso para mim não é vida. Pode ser ponto ideal de trabalho para outros. Tem gente que se formou comigo que está na Globo até hoje. Para eles funciona, para mim não funcionou. Não condeno de jeito nenhum. Mas, não é um ambiente que curto. Mas, aí, vou te dizer, é muito mais difícil quando você assume o seu caminho. Hoje, seria gerente de produção. Já tinha começado num nível bacana, fazendo minissérie. Mas, não funcionou. Assumir o meu caminho é uma batalha, que travo sempre. Com a minha família também. Quando saí do Futura, fui questionada no âmbito familiar. Como assim, ser independente? A vida está aí para ser vivida. Se não der certo, vou espalhar meu currículo por aí e entrar em algum lugar. Posso até terminar minha carreira trabalhando na Record. Isso não seria um problema, se tiver que acontecer. Tenho que viver o que está pulsando agora. Mas, tem gente que não tem a possibilidade de fazer aquilo que acredita, mas o que pode. Faz o que tem a oportunidade. Conheço muita gente que está trabalhando mecanicamente. As pessoas costumam me condenar porque trabalho de mais. Me chamam de coitadinha porque fiquei até tarde trabalhando. Mas, cara, é uma cachaça para mim. Não estou em busca de carreira, mas em busca de trabalho bacana.

O.H.: Maravilha. Fechamos aqui. Obrigadíssimo. Felicidade está aqui com você.

Tatiana.: Muito bom. (RISOS)


Agradecimentos:

Espaço Lunático











































4 comentários:

  1. adorei o texto. muito coerente e justa. Acho que foi uma das entrevistas mais importantes que li este ano. Principalmente por eu estar pensando esse papel da televisão-espectador. Li no momento certo. Valeu, Pedro. Valeu, Tatiana. sucesso!

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  2. Um dia no Canal futura perguntaram pra Tati, o que você mais gosta nas pessoas, ela pensou um instante e disse eu adoro ver pessoas coloridas e diferentes. Entrevistaaaa maravilhosa. Bjus Tati, Rodrigo Bernardino - Reginópolis - São Paulo.

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  3. Parabéns pela entrevista! Graças a você Tati hoje vejo q serei feliz caso siga a área da comunicação! Em pensar que tudo se iniciou no Geração Futura 17 por um acaso...
    Bjos minha linda, saudades mil!

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