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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PEDRO RIOS LEÃO: NINGUÉM QUER MORRER À TOA



Por Pedro Paulo Rosa
Foto/Filmagem: Rany Carneiro
Colaboração: Antônio Henrique Campello
Revisão textual: Paulo Cappelli

O Blog O HÉLIO, desde o seu inicio, se propõe a ouvir a maior diversidade de vozes e pensamentos possíveis. Por isso, conversa com exclusividade na casa do jovem carioca Pedro Rios Leão ("branco e da zona sul", como ele diz, é um de seus mecanismos de defesa à truculência policial). Com forte atuação política, Pedro demonstra fundamentação em suas afirmativas que buscam uma nova alternativa de mentalidade social, econômica e política aos brasileiros. Na conversa, falamos sobre juventude, remoção, política de segurança nacional e revolução do campo semântico. Para Pedro Rios Leão, a disputa está no “sentido das coisas”.

Pedro - As pessoas têm que entender que uma revolta no aparelho de repressão é uma oportunidade histórica. Bater no policial é só um jeito de apanhar para sempre. Quando você diz que o Rio estava em guerra, isso é uma mentira. É só pra você escolher qual lado do oprimido você quer  para ficar batendo.

O.H.: Qual a sua formação, Pedro?

Pedro Rios Leão – Cara, eu fiz comunicação na UFRJ, mas abandonei o curso, porque é uma merda. Tive alguns professores bons lá dentro. Tive uma formação de moleque de ler muito. Li muito filosofia clássica, metafísica alemã; li depois muita literatura contemporânea. Gosto do muito dos franceses. Li muito Marx, Lênin, Hegel, Engels. Me interessei por política lendo Aristóteles, Maquiavel e Spinoza.

O.H.: Qual teu posicionamento político?

Pedro – Os partidos, até agora, não apresentaram uma alternativa viável e válida dentro do que eu considero uma democracia.

O.H.: E o que seria essa democracia válida?

Pedro – Uma democracia que não seja baseada em abuso de poder econômico. Onde haja, realmente, representatividade. Sem que o Congresso se torne um balcão de negócios. E, cara, dinheiro com dinheiro é pior que imã, né, amigo? Em nenhum momento da história do capitalismo, o ritmo de enriquecimento foi maior do que o ritmo de empobrecimento.

O.H.: Então, estou falando com um marxista?

Pedro – Sim, eu sou.

O.H.: Você curte as coisas que fazem sentido, que se relacionam, né? Em que medida a sua greve de fome em frente à TV Globo se correlaciona com a greve dos PMS?

Pedro – É, as coisas são quase idênticas. Cara, eu acabei de sair do ato mais brutal que a polícia já cometeu nos últimos anos. Eles fizeram um massacre em cima de seis mil pessoas (caso Pinheirinho) a mando do Naji Nahas e aí você vê como o Estado trata os policiais de São Paulo e como o Estado trata os policiais da Bahia.

O.H.: Explica pra gente essa diferença de tratamento.

Pedro – Bom, simples: o Estado está tomado por criminosos. Os que matam pessoas são aqueles que cumprem ordens, são premiados. Estão acima da lei, ninguém investiga. Ninguém denuncia. Há quantas denúncias contra os PMS de São Paulo que estavam matando e ocultando os corpos? Ninguém faz nada! Eu estava numa manifestação de uma mãe que tenta exumar o corpo do filho dela, que foi morto por seis agentes do DEGASE. E o diretor do IML tenta esconder, e a polícia tenta esconder, sabe? E os assassinatos que aconteceram em São Paulo agora?! Aí, a mídia tenta esconder e a casa das pessoas foi derrubada em dois dias numa ação orquestrada por criminosos que tomam conta do Estado.

O.H.: E você pensa que isso tudo se origina de que forma?

Pedro – Isso tem uma origem a partir do momento em que a gente vive num sistema de mercado, onde um governador é eleito por uma força de indústrias e um Congresso funciona como uma máquina de lobby. As pessoas vão se fodendo, se fodendo... Se oprimindo, se oprimindo até o momento limite. Ninguém mais quer morrer à toa, meu amigo! O que os policiais falam é: “boa parte de nós quer ser honesto”. Só que não tem como, senão você morre! Por que interessa ao Governo ter corrupção? Hoje em dia, todo mundo sabe que uma das maiores fontes de renda é a milícia. Pra onde vai todo esse dinheiro?



O.H.: Pra onde?

Pedro – (RISOS) O Governador tem interesse de manter essa corrupção no Rio de Janeiro, que é cheio de curral eleitoral. Existe hoje uma guerra; eu achei um ato irresponsável do Governador Geraldo Alckmin atirar na Polícia Federal. Isso denota claramente essa guerra interna no Estado. Existem elementos do governo federal altamente acuados e o que estou tentando fazer é dar contexto político para eles agirem, porque não existe discussão jurídica nesse país: a lei está suspensa no Brasil. O que há é uma disputa política gravíssima. E que bom que algumas forças de repressão estão se revoltando. A sociedade tem que ir à rua e abraçar essa luta. Os policiais estão cansados de tomar tiro por causa de banqueiro. Se o policial tiver um salário honesto pra sobreviver, o policial vai preferir a se arriscar. Todo mundo ta cansado de ser cão de guarda na polícia. E só eles tomam culpa; o tempo todo, a polícia é o vilão desse país. As pessoas não entendem que não é bater no policial, chutar policial agora é proteger os bandidos de cima. Tem uma quadrilha infiltrada aparelhando o Estado, o Naji Nahas, o Cabral, o Alckmin, o Daniel Dantas que usam a polícia como uma gangue. E quais são as armas que eu tenho? Podem ser prosaicas, mas: sou branco e sou da zona sul do Rio. Ah! E tenho acesso à internet. Cara, pra você ter uma ideia, o terreno onde havia a comunidade do Pinheirinho vale R$ 400 milhões de reais. O capitalismo ganhou da democracia.

O.H.: Quando o Lula venceu, no primeiro mandato, você sentiu esperança de que estes aspectos relatados e visto como comuns, no Brasil, fossem superados no sentido de serem eliminados?

Pedro – Olha, foram melhorados. Foram melhorados... (suspiros) Se o José Serra tivesse sido eleito, a gente teria 5 milhões de pessoas na rua. A gente teria greve. Porque, o Lula, tem um lado bom dos políticos conservadores mais antigos. Ele mantém a classe média dele viva. O Lula tem uma política econômica muito eficiente para o capitalismo. O que ele fez agora foi o que os EUA fizeram em 1930; o Presidente Roosevelt contratava gente pra abrir os buracos das ruas de Nova York e depois contratava gente pra cobrir esses mesmos buracos. Quando o capitalismo super concentra, ou seja, quando há uma concentração demasiada na indústria e nas forças produtivas e os reliz vagabundos não têm mais grana pra consumir, aí você vai e faz um programa de distribuição de renda. Por que a gente se reúne em sociedade? Porque a gente tem medo da morte. Maquiavel.

O.H.: Fala mais.

Pedro – Maquiavel escreveu sobre a organização do Estado, mas a televisão faz as pessoas acreditarem que ele escreveu um livro sobre como passar a perna nos outros (RISOS) e o nome dele virou adjetivo de vilão da Disney. Temos medo da morte, porque sozinho, a gente morre. O homem, biologicamente, é bando. Tanto que o pânico se espalha com força social. O coletivo faz uma noção de comportamento que julga são ou salutar. Sabe? O pânico se espalha até que se gere uma nova ordem. E as pessoas querem ordem. Por isso que a gente tem os conservadores; as pessoas estão desesperadas, não querem ver o massacre que estão na cara delas. Mas, esse véu vai cair. Cara, na boa, acho uma ofensa alguém virar e falar que não teve morte em Pinheiro; é só olhar os vídeos.

O.H.: Por que você escolheu a greve de fome como forma de manifestação? Se inspirou em alguém?

Pedro – Não, não me inspirei em ninguém. O cidadão obediente, o cidadão de bem, prefere sempre se manter na ordem, ninguém quer morrer à toa. É como um cara que se imola; caralho, “ele está falando sério”. Isso faz as pessoas ponderarem melhor. Por isso, escolhi a greve de fome. E a imagem é muito forte. As pessoas precisam sair dessa bolha de segurança delas de alguma maneira. Por exemplo, em Pinheirinho, as provas estavam evidentes. Mas, assim, não ia filmar corpos porque a PM ia sumir comigo, simples assim. Mas, fiz um vídeo contundente pra trazer para cá, pra zona sul do Rio de Janeiro. Não existe distância. O que está em Pinheiro está aqui no Rio. Quantas remoções ainda vamos ter pela frente?

O.H.: Já tivemos muitas e ainda teremos várias ...

Pedro – Não vamos, não; não vamos não ... sacou? A gente começa um trabalho que pode parecer de formiga, mas estamos diante de duas rupturas econômicas muito sérias. Mesmo que o governo Lula tenha sido bom para a economia nacional, o processo tributário, o processo capitalista que acomete o mercado privado, no Brasil, já está muito elevado. Hoje em dia, o cara da zona sul do Rio de Janeiro se forma na UFRJ, estuda feito um cão pra trabalhar 14, 15 horas por dia. Se não trabalhar, tem quem trabalhe. A CLT já foi jogada no lixo há muito tempo! No mercado privado, o assédio moral é implícito. Em qualquer área, Pedro. Então, meu irmão, ta todo mundo puto. A depressão é endêmica. Isso tudo, trabalhar 14 ou 15 horas por dia, para dividir a casa com mais dois amigos.



O.H.: – Ao mesmo tempo, você fala que ser branco e da zona sul é um mecanismo de defesa teu, né?

Pedro – Ah, claro, se eu fosse negro e da zona norte, a guarda municipal não me daria nem “oi”. Sacou?

O.H.: A greve de fome como foi pra você fisicamente? Sentiu alguma coisa muito estranha no corpo?

Pedro – Não sei dizer. Tenho um preparo físico muito bom. Antes de fazer a greve de fome, eu corria 10 km todo dia. Eu já era muito leve. Pesava 68 kg e fui pra 56 kg. Agora, no dia seguinte, já estou com 58 kg. Engraçado, você recupera rápido. Nos primeiros dias eu senti muita fome, e eu tinha saudade da comida. Foram 11 dias. A primeira coisa que comi foi uma banana. Dá vontade de fazer de novo, só pra comer a banana novamente. Sabe o que é ficar 11 dias sem pôr nada na boca, só bebendo água? (RISOS) Eu ficava gargalhando.

O.H.: Algum funcionário da Globo parou pra falar com você durante a greve?

Pedro – Sim. A Globo tentou me mandar um assistente social, só que não sou idiota. A assistente ia lá, ia dizer que eu sou maluco e a Prefeitura ia me tirar de lá. Pegaram uma funcionária qualquer, ela chegou em mim, perguntou se tinha alguém filmando e me disse que “a empresa” queria mandar uma assistente social pra mim, mas que não queria ninguém filmando.  Disse a ela que precisava ver o governador de São Paulo preso e não de uma assistente social. E para o chefe dela ir tomar vergonha na cara.

O.H.: Pedro, você acha que a participação, efetiva, da população brasileira como um todo acontece quando? Isso é possível dentro de um histórico de revoluções, digamos, chamadas de “sufocadas” e “isoladas”?

Pedro – Acho que isso é possível e urgente.

O.H.: Fico pensando no Brasil, tão diverso e diferente e – ao mesmo tempo – as pessoas vidradas no Big Brother, por exemplo. Me situa nisso. Como a população pode se tornar, verdadeiramente, interventora no processo de construção do país. A questão é o voto? É a legislação?

Pedro – É diferente. A questão é a ruptura econômica. Eles veem Big Brother, mas eles veem Big Brother deprimidos, amigo. É muito gostoso fazer a revolução, exercer os seus direitos políticos é bom. Acordar é bom. E assim, é uma questão que vai depender muito de um esforço de ambas as partes. Acho que já tem muita gente, dos dois lados, pra acabar de vez com a briga da sociedade com a polícia. Estado massacrando a sociedade e usando a polícia pra massacrar a sociedade e usando esta pra massacrar a polícia. Que porra é essa, sabe? Isso tem que acabar, e acho que já temos gente pra isso.

O.H.: – Mesmo com uma educação tão ruim, colocando no Ministério da Educação Aluizio Mercadante?

Pedro – Não é o ministro da educação que vai fazer diferença hoje em dia. E a educação, na verdade, é falida. Até a educação formal, a educação que dá um diploma, isso não é educação. As pessoas são adestradas pra serem funcionários. Existe um pânico em relação à educação.

O.H.: Existe um pânico do quê? De não ter emprego?

Pedro – Também! Existe um pânico em relação a tudo. A educação não é estagnada. Se a maioria do povo tem uma determinada educação, a cultura será essa. Dentro das pessoas que controlam o Estado, e nas pessoas que autenticam esse controle, que somos nós, cidadãos, existe uma xenofobia. A gente não enxerga o mundo real! A educação escolar e universitária faliram! Sério, as pessoas não compartilham mais signos e significados. Isso é um problema da educação muito sério. Cada um fala qualquer coisa querendo dizer qualquer coisa. E isso é um problema da Rede Globo. A gente está há  45 anos sendo educado pela televisão. Parece que você pergunta: “que roupa é essa? “e a pessoa responde: “a banana é verde”. Sabe? E isso dá a sensação de desespero, de depressão endêmica que todos estão passando. 

O.H.: Você acha que a Rede Globo, em si, causa tudo isso?

Pedro – A Rede Globo, em si, não. Mas, o tempo de mercado! Das pessoas estarem prontas em 30 segundos. Ninguém pensa porra nenhuma em 30 segundos. Tá todo mundo vivendo muito mais rápido do que deveria. Ninguém entender merda nenhuma! As pessoas estão muito nervosas. O problema da educação começa aí. Que educação uma pessoa que trabalha 14 horas por dia e vê 8 de TV tem? Qual é a educação dessa pessoa?



O.H.: E o controle remoto? Dá pra mudar o canal.

Pedro – A culpa ta na escola, ta no Estado, ta na família, ta no sistema de mercado. Na TV! A culpa está nas pessoas serem educadas para virarem funcionários.

O.H.: Mudando um pouco o rumo e revisitando 2011: como foi a Primavera Árabe pra você, a crise Européia? Como que isso bate no Brasil?

Pedro – Eu achei que não fosse chegar aqui! (pausa. Bebe água) Eu estava confiante no governo Dilma, achei que a gente fosse passar por um processo de reforma. Pensei que os bancos fossem falir lá fora, mas a gente tem um Estado voltado para o mercado interno e quando a coisa apertasse lá fora, a gente injetaria mais aqui dentro. Mudei de ideia porque o que o governo Alckmin fez me provocou mudar de pensamento. Não posso aceitar que um assessor da Presidência seja baleado pela polícia militar de São Paulo e o Ministro da Justiça ou Secretário Nacional dos Direitos Humanos tenha a audácia de dizer que o “problema é do Estado de São Paulo”. Quer dizer, isso não me indica uma mudança pacífica nos ramos da segurança nacional. Se as pessoas não aceitarem as mudanças, meu querido, elas vão tomar porrada.

O.H.: Estava esperançoso na Dilma por quê?

Pedro – Pela história dela. Cara, o maior bandido da terra e o maior herói têm o mesmo desejo. Ambos querem uma estátua em praça pública. Então, acho que a vontade da Dilma não é entrar pra História como a Presidenta que encobriu o massacre de Pinheirinho. Ainda mais por ter sido militante e torturada. Acho que a ambição da Dilma não é entrar para a História como a mulher que sufocou o povo e a última a defender o cidadão.

O.H.: Como é que você acha que a juventude precisa se posicionar?

Pedro – A juventude vai se posicionar porque o bicho ta pegando. Simples assim. A juventude já está se posicionando: estão deprimidos dentro das suas casas tomando Rivotril. É assim que a juventude está se posicionando. Cara, olha só, conheço pilhas de pessoas que estão a uma centelha de uma revolta. Na zona norte, existem legiões que aguardam a trombeta dos céus pra tacar fogo em tudo. Cara, a zona sul do Rio de Janeiro é onde tem o metro quadrado mais caro do mundo. E mesmo nesse lugar do metro mais caro do mundo, só existe luxo mesmo pra banqueiro. Conhece o Complexo de Ícaro? Ele voou alto demais perto do sol com asas de cera, aí as asas derreteram e ele caiu. Pois é, os banqueiros moram muito perto do sol.

O.H.: E a juventude que não teve a sua leitura intelectual e de mundo?

Pedro – Eles estão putos! Isso basta! Como eu falei, a educação e a cultura se manifestam nas ruas, não vêm dos livros. A Dilma está errada, por exemplo, ao achar que o Brasil não tem contexto político para se livrar de um cara como Daniel Dantas. Mas, o Brasil tem sim! Tem contexto político para isso. E também pra se livrar dos juízes que protegem o Daniel Dantas. Eu sou só uma consequencia prática do que foi feito. Um moleque que consegue se expressar uma coisa que TODO MUNDO VÊ.

O.H.: Sua família te ajuda nessa empreitada?

Pedro – (RISOS) Minha família está desesperada, né... Briguei com algumas pessoas da família. Minha mãe está desesperada, muito assustada. Como falei, desde pequeno tenho uma relação muito obsessiva com as palavras; o que tento fazer é descrever o que vejo. O que falo não é nenhuma novidade. Todo mundo sabe quem são os bandidos. É só uma questão de concatenar essa revolta numa manifestação única, num processo real de democracia. A gente tem que entender que, o que ocorre agora, não é jurídico. São questões políticas. Tanto em Pinheirinho como em Salvador. É um absurdo que a polícia seja militar nos Estados. E outra coisa: só estou nesse processo porque tenho certeza de que não estou sozinho. Por isso, nunca participei de nenhum partido para fazer papel de maluco. Só comecei a tomar atitude quando vi que as coisas poderiam ter um poder de mudança. E elas têm. Ninguém quer morrer à toa, estão todos deprimidos.

O.H.: Acredita em heróis?

Pedro – Acredito em estopim. Se não fosse eu, seria outro. 

CONFIRA o filme de Pedro " Eu queria matar a presidenta: depoimentos da guerra civil brasileira" 






4 comentários:

  1. Que entrevista! Muito boa, concordo com ele em várias partes. Excelente trabalho Pedro, parabéns pela matéria.

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