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terça-feira, 17 de julho de 2012

MARCUS FAUSTINI: O MERCADO NÃO É A MEDIDA DA VIDA

      



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Yasmin Thainá 

Marcus Faustini, cineasta e escritor, inventor da Agência de Redes para Juventude e de tantos outros mais. É um ser humano multifacetado, tocado definitivamente pelo sensível. Criador de uma metodologia baseada na arte como expressão social. Faustini conta para O Hélio sobre como tudo começou. 

O Hélio: Você ainda se lembra daquele Marcus do Cesarão? (favela em Santa Cruz, Rio de Janeiro) O que está mais latente dele em você, no Marcus de hoje, julho de 2012?

MARCUS FAUSTINI: É uma bússula, é uma das principais, porque foi um momento de formação. Porque muitas experiências que me fazem produzir conceitos vieram dali. Eu, moleque, ia pra lote XV, Jacarezinho, Cidade de Deus...

O Hélio: Aquela sua ideia de circulação...

FAUSTINI: É... porque ela foi decisiva. Meu avô vendia garrafa de maracujá, levava os netos. Meu outro tio vendia amendoim e levava a gente.

O Hélio: Você nasceu onde?

FAUSTINI: Nasci no Hospital da Lagoa, minha tia era enfermeira de lá. Minha primeira infância foi na Baixada Fluminense, no bairro da Chacrinha. Bairro onde a gente atravessava a rodovia Washington Luiz para pegar pica-pau. Depois, meu padrasto trocou um revólver e um fusquinha por uma casinha no Cesarão, lá em Santa Cruz, no Rio. Então, minha adolescência e juventude foi no Cesarão, que me configurou muito mais no meu entendimento de lugar. As imagens da infância estão em Caxias. E a juventude é o momento em que começo a andar a cidade sozinho.

O Hélio: Se você pudesse resumir, qual é o cheiro, qual que é a trama da periferia?Hoje, por exemplo, você não deve morar mais lá.

FAUSTINI: (risos) Não, sou um homem de 40 anos de classe média. Que bom que o Brasil está caminhando pra melhorar as condições de vida das pessoas de origem popular. A questão que me coloco como central, e não cobro isso de ninguém que fez trajetória parecida com a minha, mas eu me coloco como central, e principalmente essa questão da circulação é um dado e se fiz essa trajetória de maneira extraordinária ou por obstinação ou por algumas estratégias que fui aprendendo, algumas sensibilidades que fui vendo, aumentando redes, aumentando repertórios, não posso deixar essa minha trajetória ser extraordinária e eu tenho que inventar uma maneira de outras pessoas que vêm de onde eu venho poderem ter direito a essa trajetória. E trabalho pra isso. Por isso surge a Agência (Agência de Redes para a Juventude), o Guia (Guia Afetivo da Periferia), por isso vou fazer edital de funk...pelo entendimento de que ali, mais do que cheiro, é...a primeira negociação de uma moleque de periferia é “mãe, posso ficar no portão?”. A rua é tão importante como lugar afetivo quanto o quarto. A rua tem um lugar determinante. Então, pegar a rua como lugar de ação. A rua é sempre descrita no Rio de Janeiro como lugar de vadiagem. Então, disputar isso e falar que é um lugar de encontro, não é só um lugar para os carros trafegarem de um ponto ao outro. A minha vida eu devo a encontros. Tive grandes encontros na cidade. Fui encontrando diversas pessoas na cidade. Mas, o encontro não pode ser jesuítico. O traço do encontro do menino da favela, do pobre na cidade com a classe média, é hegemonicamente jesuítico. Eu quero inverter essa lógica. Quero um encontro de troca.


O Hélio: Nesse sentido, você acredita na isonomia territorial? Quando você põe na sua porta “aqui se pensa território como cultura”. Então, pra você tudo é lugar, Ipanema, Pavuna, Caxias?

FAUSTINI: Claro. A favela não é o outro do mundo. Durante os anos oitenta, se tinha a Baixada como lugar de derramamento de sangue. E era na Baixada onde se desenhava a maior onda de have metal. E não no Caverna. E saíamos de lá para irmos no Caverna. Tinha uma cena muito forte de metaleiros. Então, a favela sempre teve os atravessamentos do mundo. Ela não é um outro isolado que não tem nada. Ela está fora das redes e dos repertórios. As redes de saberes, de poder da cidade. Muito comum um menino de origem popular que até consegue entrar pra faculdade, mas não consegue uma profissão no que ele se formou porque ele está fora das redes e dos repertórios.

O Hélio: Está fora do lugar da importância.

FAUSTINI: Está fora do que chamo de máquinas expressivas. É um conceito que gosto muito. Todo muito inventa coisas na vida. Só que alguns têm acesso às máquinas expressivas, que potencializam aquilo que você faz. Publicar um livro é uma máquina expressiva. Periferia faz literatura há muito tempo, só que ela está publicando livro há muito pouco tempo. Então, é uma máquina expressiva que tem que se dado o direito, pra você poder se expressar no mundo. Todo mundo que tem direito de se expressar como sujeito estético, ganha uma possibilidade de diálogo maior na cidade. Pedro, o teu livro (O Hélio) tenho certeza que te leva a lugares, combinações, encontros. Essa foi uma percepção que fui tendo desde moleque, cheio de energia.

O Hélio: Você academizou esse pensamento para criar essas metodologias tão próprias e ao mesmo tempo...?

FAUSTINI: Eu sou um camelo turro! (risos) Aprendi tudo com os vendedores de presto barba no trem. A herança do moleque de favela é a oralidade. É ir pra rua conversar. Então, a oralidade é uma chave para o conhecimento. Se diminui muito a oralidade, mas ela é muito potente. A cultura brasileira deve muito à oralidade. Quando larguei o movimento estudantil e fui fazer teatro na Martins Pena...




O Hélio: Você pagou Martins Pena?

FAUSTINI: Não, era gratuito. Na verdade, queria fazer cinema na UFF, mas não tinha dinheiro mesmo sendo de dia e gratuito. Então, a única de formação artística que tinha era a Martins, ali no centro da cidade. E ali era “preto, pobre e morava longe” (risos). Lia uma peça por dia. Isso me ajudou a ter um conhecimento da cultura brasileira. E ali comecei a ver, a sistematizar, a aprender a pesquisar. Vi que tinha que inventar conceitos, produzir minhas peças. Basicamente, nesse movimento que fazia pela cidade, me incomodava ver que o lugar em que vivia era representado ou como lugar de violência ou como o outro.

O Hélio: Mas, no Rio, essa coisa do lugar ainda é muito forte. Por isso, quis muito falar com você, Marcus. Porque você tem um olhar sobre a cidade, sobre a vida que muito tange com o meu. Essa coisa do território é tão forte historicamente. Essa coisa do bonito, do feio...os perfumes que estão em Ipanema, os perfumes que estão na Pavuna, sabe? Isso está muito latente.

FAUSTINI: Sim! É muito injusto, Pedro, só uma parte da cidade ter suas representações garantidas por máquinas expressivas.

O Hélio: É cafona demais isso!

FAUSTINI: Cafona (risos), muito bom. O moleque que mora em Santa Cruz e faz teatro, tem o direito de ser chamado de teatro contemporâneo assim como o moleque da zona sul. Mas, o moleque de Santa Cruz vai ser chamado de amador.

O Hélio: Isso te incomoda ser uma espécie de “bandeira da periferia”?

FAUSTINI: Já fui chamado de tanta coisa! São tantos anos de história...Não tenho do que reclamar. Sempre tive atenção, desde moleque, com o meu trabalho. As pessoas sempre olharam com atenção ao meu trabalho. Não tenho mesmo o que reclamar. Acho que a gente tenta construir uma trajetória que demonstre uma coerência. E uma incoerência dentro dessa coerência para poder buscar um sentido, uma significação. O que estou tentando fazer, em mais de 20 anos nisso: de um lado, tentar produzir as representações da periferia de maneira a colocá-la no contemporâneo, entende? Porque periferia é um conceito cultural atualmente. Então, mostrar que os Clóvis, por exemplo, são contemporâneos. Porque é no contemporâneo que estão as melhores verbas, então quero disputar esse lugar do contemporâneo. Sabe, mostrar que a periferia tem um projeto estético. E de outro lado, inventar metodologia estética para intervir na vida, no capitalismo; pra criar espaço-tempo para esse jovem de origem popular crescer. Porque o espaço-tempo colocado para ele é ser trabalhador de carteira assinada trabalhando 12 horas...

O Hélio: É, no máximo, trabalhar na C&A

FAUSTINI: Exato. Ou no máximo ser aluno de projetos sociais. Cresci na Baixada Fluminense na mesma geração do Heraldo HB do cineclube Mate Com Angu. Inventamos um bando de coisa, e a gente não tinha muitas redes e repertórios. Então, voltando, inventar metodologias para interferir na vida e aí acho que estamos falando de arte. Não faço projeto social, faço arte como uma maneira de fazer política. E produzir uma representação contemporânea desses espaços periféricos da cidade. Esse é núcleo duro do meu trabalho. E tenho uma preocupação enorme com a juventude do Rio de Janeiro. Tem três capitalismos disputando ele. Tem muita oportunidade nesse momento, mas que não está significando reduzir as desigualdades. Temos o capitalismo de infra-estrutura, que pensa essa cidade como oleoduto, como porto, que quer essa cidade como base de alumínio pra jogar tudo pra fora. Aí, tem o capitalismo imobiliário aliado ao capitalismo financeiro, que endivida, pensa o território como commodities. E ainda tem o capitalismo do entretenimento, que pensa essa cidade como lugar do turismo para o fluxo de capital. Esses três modelos estão nesse rearranjo desse capitalismo mundial que usam Jogos e Copa para sugar potencias dos territórios escolhidos.  Então, nesse momento, tem muito dinheiro, muito fluxo de capital, mas essa oportunidade de negócios não está diminuindo as desigualdades. Gosto sempre de chamar atenção a uma coisa: por exemplo, são três anos de UPP, e o governo ainda não sabe dizer quem é o jovem da favela, mas sabe dizer qual o negócio a ser feito dentro da favela. Então, isso é preocupante. O mercado não é a medida da vida. A vida tem outras expressões. É uma disputa. Minha primeira formação foi na teologia da libertação. Era um militante de base da Pastoral da Juventude da Igreja de Nossa Senhora da Glória lá em Santa Cruz.

O Hélio: Tem que escrever outro livro contando sobre isso

FAUSTINI: (risos) Vamos ver... Estou escrevendo a história da minha família, os 18 filhos que se espalharam pelos conjuntos habitacionais... é um épico familiar.

O Hélio: Está sofrendo?

FAUSTINI: To. Não sei quando vou lançar. Não tenho muito essa dor de “ah, preciso fazer mais um filme, mais uma peça”. Faço o que dá. Agora, vou fazer minha primeira exposição, o “Iphone-me”, mandei para um edital, foi aprovado. A ideia é fazer todos os usos do Iphone de maneira plástica. Eu sou meio ciborgue e assumo isso. Não sei sentir sem esse objeto! (risos) Isso aqui é uma prótese emocional.

O Hélio: É verdade, a vida tem mudado muito depois da chuva tecnológica.

FAUSTINI: A vida é uma invenção. Você pode inventar sua vida, reinventar sua vida. A questão também é você pensar como a invenção da sua vida pode beneficiar outros também. Acho que aí o bagulho fica mais instigante ainda. Mais maneiro. Como é que você pensa? É possível. É possível inventar algo sobre a cidade, sobre a vida. Estou muito otimista com a juventude. Olho para trás, as coisas estão mudando, cara. Tenho visto muita coisa diferente. Muita gente misturada, sabe? Acho que pior do que o preconceito, é quem é do campo de transformação ser rancoroso. Acho que os rancorosos ficam malucos em ver tanta gente com capacidade de realizar e inventar. E tem tanta gente rancorosa que não suporta ver uma geração chegando. Gosto de dizer que minha geração é José de Alencar da parada. (risos) Machado de Assis vai chegar já...já! Vem aí a geração PROUNI, que vão ser nossos intelectuais da periferia. Esses sim vão ser os intelectuais da periferia! E aí, nego, o imaginário do Brasil vai mudar! Porque esses camaradas vão fazer tese sobre o Orkut, por exemplo. Tese de doutorado.

Marcus Faustini e Pedro Paulo Rosa (em primeiro plano) na Agência de Redes para Juventude 


O Hélio: Você calcula isso nos próximos vinte anos?

FAUSTINI: Dez, no máximo! E isso vai ser sensacional. Porque o Orkut foi um lugar que ajudou muitos moleques a escreverem. Defendo a orkutização como um conceito, é preciso orkutizar todos os espaços da vida. Para com essa coisa de termos espaços nas redes sociais que são apenas para os que são mais cool. Vamos orkutizar a vida, os direitos. Onde todos possam, de fato, trocar. Acho que a imagem de rede, tradicional, é essa aqui, não é? (Marcus desenha no papel) De pontinhos ligados. Mas, rede pra mim é essa aqui (desenha um circulo com pontos interligados). Pra mim, é isso. O simbólico instituiu o real, já diria Bourdieu: enquanto a gente usar essa representação formal de rede, a gente ainda vai ter mediadores para os encontros. Nessa nova concepção de rede, há a criação de um ambiente, de um espaço-tempo. Onde todo mundo vai poder disparar ações e combinações infinitas. Quem tem medo disso, é quem quer hierarquizar. Então, a Agência não é uma ONG, é uma metodologia.

O desenho da esquerda é o modelo de rede em que Faustini acredita 


O Hélio: Por que você escreve?

FAUSTINI: Porque escrever me dá precisão. Escrevo todos os dias. Todas as outras artes são negociações. Teatro é negociação com ator; cinema é negociação com a câmera. Precisão. Escrevo por precisão. Por isso.




2 comentários:

  1. Precisão. Precisão, sociológica, histórica educacional, periférica, antropológica... Precisão intelectiva...jornalista afetivo, sensível, preciso, conseguiu colher de Marcus esta aula "sócio-cultural-AFETIVA, parabéns a ambos.Um exemplo de como "inventar sua vida, beneficiando os outros", com citou Faustini.Abraços, Mônica Rosa

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