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segunda-feira, 2 de julho de 2012

PEDRO MORAES: O CLARO ESCURO DA MÚSICA

Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Divulgação 
Revisão textual: Paulo Cappelli 




O cantor e o compositor Pedro Moraes reserva toda sua manhã dentro dos muros do Parque Lage para bater um papo com O HÉLIO. O tema é seu trabalho musical ClaroEscuro, uma produção que tem biografia: as músicas têm dez anos de existência. Pedro se enamorou pela música nos cômodos de casa, especificamente na festividade sambista da mãe e na sedução que Beethoven causou em seu pai, intelectual de esquerda. 

Seu trabalho revela um polivalente compositor, que mescla elementos de música circense (na faixa Triste Folião e Marcela, isso se evidencia) com uma melancolia traduzida nos solos de oboé, nas interpretações próprias com que Pedro emoldura suas músicas, composições que unem fé, paixão e movimento. Fazem o corpo mexer. A versão meio reggae que Pedro cria para Dora, de Dorival, é inesquecível. Ousada. 

PEDRO MORAES: O Cd normalmente está comprometido com a lógica do mercado. O disco, o filme são produtos filhos da indústria. A música não é, mas o disco é. Filhos principalmente dessa indústria do século XX. O Claro Escuro tem cinco anos. Entrei no estúdio em 2007. (Caralho, sua letra é muito parecida com a minha! Quando olhei seu bloco, pensei, po, pareceu meu!)

O HÉLIO: De que maneira você nomeia o início do seu trabalho? 

MORAES: Comecei a trabalhar com música em 2000, e até 2007 fiz várias coisas como compositor. Então, nasci no Rio, mãe baiana; (pausa. Suspiros) pai aqui do Rio de Janeiro. A família por parte de mãe entre Salvador e interior da Bahia. Minha mãe e negra. Mistura de neto de escravo com senhor de engenho. Aquela história bem Gilberto Freire.

O.H.: Isso te incomoda?

MORAES: De maneira nenhuma, de maneira nenhuma. A família da minha mãe, num determinado momento, ganhou uma loteria, aí comprou fazendas e tal. E mandava os filhos para estudarem no Rio de Janeiro. Minha mãe se tornou médica, mas, muito musical. Canta até hoje. Muito samba. Ela tem uma voz bonita e tal, não tem nenhum músico profissional. Muito sarau, sabe? Meu pai já tem uma família com outro background. Como falei, no caso da minha mãe, todo mundo muito pobre e ganhou grana por sorte. Já na família do meu pai, eram intelectuais de esquerda e minha avó judia. Minha avó e meu avô se conheceram em reuniões do partidão. Meu avô estava sendo perseguido em São Paulo e veio para o Rio. Então, a casa de pai era intelectual, literatura. Não era nada musical.

O.H.Engraçado falar isso, porque o seu CD é bem isso. Cheio de literatura mesclada à música.

MORAES: Sim! Até que meu pai descobriu Beethoven e isso impactou muito ele. Para você ter uma ideia, começou a tocar violão. (RISOS) Meus pais ensaiavam em casa, seresta e tal. Agora, o lance da escolha pela música, levar mais a sério, foi bem posterior. Agora, o gosto pelo fenômeno da música, foi lá em casa. Mas, teve um momento chave: tranquei minha faculdade de psicologia e passei um ano na Índia. E fui descobrir que a literatura me dá muito mais de autoconhecimento do que a própria psicologia.

O cantor Pedro Moraes no palco, em Recife.


O.H.Por que você sente isso?

MORAES: Porque, de modo geral, com nobres exceções, a psicologia carece de rigor epistemológico.

O.H.Falta de conhecimento, você acha?

MORAES: Falta de questionamento rigoroso sobre as bases do conhecimento. Para você conhecer aqueles que conhecem, você precisa antes ter um questionamento muito profundo sobre o que é conhecer. Questionar com clareza aquilo que está dentro dos seus olhos, por exemplo. E um questionamento desse processo, na psicologia, pouco acontece. Quando começa a rolar, é interrompido e deixam para a área de filosofia cuidar. Vira literatura depois. Como a psicanálise, é filosofia e literatura, pelo menos para mim. Psicologia é uma ciência jovem e com uma certa arrogância de se assumir científica sem se questionar. E a ida para a Índia era uma busca que me acompanha ao longo da vida. Foi intenso e muito rico. Fui sozinho e fiquei num ashram. Lá, travei contato com músicos brasileiros, mexicanos, australianos. Aconteceu uma coisa curiosa; uma cantora mexicana apaixonada por música brasileira (casada com um baterista brasileiro) me disse que estava procurando repertório para o primeiro disco de carreira dela. Ouviu músicas minhas e, alguns meses depois, me mandou um email pedindo para gravar duas músicas minhas. Na Índia, a coisa da música foi se internalizando como uma necessidade maior, sabe, Pedro? Quando voltei da Índia, não tinha mais nenhuma dúvida de que seria cantor e compositor.

O.H.Qual é a emoção, a intenção, o conceito do seu disco?

MORAES: As minhas músicas me levam a um processo longo. Claro Escuro... já tinha tentado colocar coisas minhas na rua, mas não me sentia maduro. Mas, o caminho é longo. O conceito do meu disco, da minha música é o êxtase. Quando subo ao palco é um prazer físico, extasiante. Não dá para comparar. 

AMANHÃ, dia 3 de julho, às 19 h 30, vocês podem conferir o show de Pedro Moraes no Teatro Rival Petrobras, na Cinelândia, Rio de Janeiro. O cartaz segue abaixo:



>>> Confira o clipe da música "Incomunicável", de Pedro Moraes

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