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domingo, 26 de agosto de 2012

DRICA CARNEIRO: ENGOLIR O MUNDO SOZINHA



Por Pedro Paulo Rosa
Foto: divulgação

            Drica Carneiro para o seu movimentado cotidiano para conversar com O HÉLIO. Equilibrando as demandas do Cinema Para Todos e a do cineclube que ajudou a fundar, o promissor projeto Buraco do Getúlio (em Nova Iguaçu). Conversamos sobre as diferentes nuances da juventude e a maneira pela qual as autarquias federais encaram os cineclubes e a dificuldade da conhecida bitola que obstaculiza a penetração do cinema nacional nos municípios do interior do estado Fluminense.  No passado, entre conversas com a árvore chamada Camila, em seu colégio de ensino médio, hoje, Drica continua pensando o audiovisual e a tomada de espaços na cidade. Podemos entendê-la como produtora cultural. No entanto, sua paixão é o cineclube – o encontro.

O HÉLIO: Você fez o segundo grau no colégio Adolpho Bloch, não foi?

DRICA CARNEIRO: Fiz ensino médio lá de produção em audiovisual. No Adolpho fiquei muito tempo lendo um livro debaixo de uma árvore que se chamava Camila. Demorei um ano e meio para me relacionar com alguém lá dentro, muito por pretensão minha. Achava que as pessoas não iam conseguir me entender. Mas, aí comecei a tomar cerveja e a me relacionar com as pessoas (risos). Na FAETEC, conheci o Bion (Diego), com quem fundei o Buraco do Getúlio. Ele de cara me levou pra participar das reuniões da Quarta Cúpula Mundial de Mídia, que aconteceu em 2004 aqui no Rio de Janeiro. Eram reuniões sobre política, sobre mídias da criança e do adolescente na perspectiva da produção. Isso tudo durante a FAETEC, durante o colégio Adolpho Bloch. Dali, fui para o Geração Futura (projeto audiovisual do Canal Futura) e tudo virou uma roda gigante maravilhosa.

O Hélio: E vem cá, isso era pensado? Como se construiu em você uma menina que queria cinema?

DRICA: Foi uma fase meio doida. Minha mãe é uma militante da saúde pública. Desde que ela se entende por gente batalha por isso. Ela optou pela saúde, fez o técnico em enfermagem. Depois, conseguiu a graduação. Agora, com 50 anos, ela conseguiu concluir o mestrado com recomendação do doutorado. Tudo na saúde pública! Nessa fase, para mim já era muito claro que eu não conseguiria ficar estudando numa escola do meu bairro. Porque achava o ensino muito ruim mesmo. Queria muito também fazer uma faculdade pública. Não estava procurando faculdade de bairro, entende? Daí, estudei e passei para a escola da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz, no Rio) e a ganhar grana para estudar. Mas, recusei. Falei: “não vou fazer isso”. O olho da minha mãe encheu d’água. Ainda mais porque passei na terceira reclassificação! Nessa época, tinha uns treze anos.

O Hélio: Aí você vai e escolhe o cinema; por quê?

DRICA: Na verdade, escolhi pelo audiovisual. Não é a mesma coisa cinema e audiovisual. Produzi milhares de vezes e ajudei um assistente de alguém num filme de 35 mm na faculdade. Essa galera da minha geração começou a discutir o vídeo, entende? Somos uma geração baixinhos, uma geração da televisão. Quando batia lá na Quarta Cúpula Mundial de Mídia, com meus dezesseis anos, a gente já era contra muita coisa que assistíamos na televisão. Sabe, em Padre Miguel, em Realengo se brinca na rua. Nasci em Caxias, né? Minha família é uma saga. Saímos de Caxias, passamos por Bento Ribeiro, passamos por Marechal Hermes. Nossa saga é entre a Baixada Fluminense e a Zona Norte. Hoje, estou no Rio Comprido. No final do meu ensino médio, já trabalhava no SESC, projetava super oito (um tipo de câmera) num cineclube e dava aula na Mangueira (favela carioca). Daí, me desliguei de tudo e fiquei estudando seis meses para entrar em Federal e aí veio a UFF. O Bion, lá na FAETEC, era uma das poucas pessoas com as quais eu falava.

O Hélio: Parecem dois mundos, e talvez sejam, essa coisa do cinema que é produzido nos cineclubes e o cinema exibido aqui em cima no cine Odeon. Queria que você nos esclarecesse sobre essas possíveis distâncias e diferenças. Você tem uma utopia de que isso mude ou não? Isso não tem que ser igual?

DRICA: Acho que o cinema brasileiro, de fato, vive um grande momento. Os nossos amigos estão trabalhando, ainda que sejam subaproveitados porque não tenham a formação necessária ou não conheçam a pessoa certa; ou porque não tenham um sobrenome conhecido. E grandes nomes hoje da cultura carioca que usam esse argumento da periferia, usam as pessoas da periferia só para aqueles espaços convenientes que a gente conhece bem. Isso acontece aos montes. A gente está com dois filmes em cartaz no Odeon, por exemplo. A gente tem filme em cartaz. Trabalho no Cinema Para Todos e monitoramos isso. Isso é um ponto positivo. O que eu penso é que tem que estimular e valorizar nossos espaços. Vamos buscar novas janelas. Se tem uma coisa em que acredito, é que a gente tem que ocupar os espaços. Se não houver luta por isso, não trabalhar nos lugares da cultura, se a gente não brigar por isso, não estudar para entrar nos cursos...essa é uma coisa que não vou deixar de fazer, o que pode me acarretar grandes problemas. (risos). O modelo de cinema não precisa ser idêntico ao modelo cineclube, que é um modelo colaborativo, onde as pessoas podem sugerir o que vão assistir. Podem entregar seus DVDs, suas mídias. Talvez precisemos solidificar o nosso público. Unir. Acho que assim entenderemos os pontos de exibição como força.

Drica Carneiro e Pedro Paulo Rosa


O Hélio: Então, filme de cineclube é diferente de filme de cinema?

DRICA: Não sei, não sei... (risos) Tenho sérias dúvidas.

O Hélio: É que fico pensando... aquelas pessoas que estão sentadas naquele bar ali. Certamente, ali tem gente de Curitiba, de São Paulo, de Brasília. E seria tão importante essa galera enxergar o Rio de Janeiro tão múltiplo e diferente que os cineclubes como o Buraco do Getúlio produz, entende?

DRICA: Tem uma coisa muito importante na economia de cinema no estado do Rio de Janeiro. A gente tem 92 municípios do Estado e desses, 27 tem salas de cinema registradas pela ANCINE. Nesses outros dois terços, não há sala de cinema. Então, não só o filme brasileiro não chega aos interiores como também temos o problema da bitola. E eu estou falando só Rio porque é o universo que conheço. Isso acontece realmente. Filmes brasileiros que são lançados em digital não chegam em vários municípios do interior. Isso já restringe mais de 50% das salas, além da distribuição ser pequena. A cópia não consegue chegar por força da venda. Por isso que é fundamental que o cineclube exista. A dimensão política desse fenômeno reside aí. Não tem quem possa dizer hoje que não há público para o filme que a minha família, por exemplo, chama de cult. A dimensão política do cineclube é essa. Há público sim. Não é só a Xuxa que é bom de ser exibido. A ideia sobre trocar sobre cinema e conteúdos, a ideia de todos estarem juntos. Isso é cineclube e é cinema. Porque quando os grandes caras estavam fazendo filmes, eles estavam se divertindo também. A ANCINE precisa entender que o público do cineclube é um público sim, pode não ser o mesmo do cinema, mas é real.

O Hélio: Fala mais disso. Não é um corpo administrativo excessivo numa instituição que deveria, como premissa, ser uma curadora artística da sétima arte?

DRICA: Pois é, se fosse uma burocratização que beneficiasse, ok. O problema é que não resulta em nenhum benefício. Na resolução da regulamentação atual, que é facultativa, você tem que ter um CNPJ para abrir um cineclube como associação civil. Mas, poxa, você não vai abrir um CNPJ para ter um lugar que não vai te render nenhum real. E nem é para render mesmo. Eu, por exemplo, não tenho registro hoje porque não me traz benefício algum. Se você perguntar para a ANCINE quantos cineclubes existe no país, acho difícil eles conseguirem te dar um número.

O Hélio: Explica o cineclube Buraco do Getúlio, como isso começou, essa conquista tão grande?

DRICA: O Buraco, como todo cineclube, é um coletivo. Não sou a representante oficial, mas sou membro fundadora. A gente brinca que fundou o cineclube porque não tínhamos praia. Eu morava em Marechal Hermes e meus amigos em Nova Iguaçu. (risos) E começamos com aquele cinemão na veia, sabe? Estávamos esgotados dos cursos de televisão! Começamos exibindo filmes clássicos do cinema americano dos anos trinta, quarenta. A gente começou a exibir dentro de um bar chamado Ananias. E é pra lá que a gente voltou. Com o tempo, fomos melhorando a estrutura. O coletivo: eu, Bion, Luana, Elaine, enfim, somos muitos de meia dúzia! (risos) Então, continuamos a atividade e realizamos uma exibição semanal de um longa-metragem às terças-feiras.

O Hélio: Acho que quem mais pode responder isso é o jovem. Como você tem visto e analisado a juventude. Ou isso é um conceito que já caiu, a juventude?

DRICA: É...a juventude é um conceito novo. Minha mãe tem 50 anos e é mais jovem do que eu. A gente está vivendo também uma ditadura da juventude. É necessário ser jovem e permanecer jovem por muito tempo. E esse discurso tem uma série de repercussões e consequências. Você precisa virar jovem mais cedo e deixar de ser jovem mais tarde. Ao mesmo tempo, é inegável que o peso do trabalho e o pagar das contas e a independência têm. A juventude hoje tem que sair de casa. Saí de casa aos dezoito anos, consegui passar para UFF e o primeiro emprego que arranjei foi num festival de periferia chamado Visões Periféricas. Peguei essa grana, chamei uma amiga e fomos dividir um lugar para morar. Deixei minha família ensandecida, mas isso é importante. Sair de casa para entender outra dimensão. A gente cobra de um menino de 15 anos e, ao mesmo tempo, queremos que esse mesmo menino, aos 20, já tenha saído de casa e largado o vídeo game. Temos que rever essas ditaduras, embora eu concorde com algumas (risos). A estética se beneficia dessa ditadura da juventude, assim como a medicina ortomolecular também. O público do Buraco, por exemplo, é um público jovem. Mas, é uma galera de 17 anos para cima. Que abdicam de suas terças ou sábados para estarem lá tomando cerveja, vendo cinema. E hoje, os caras que seguram o mastro do Buraco do Getúlio, o Bion e a Luana, têm um filho. E têm também casa e contas. Tecnicamente, eles são adultos. Então, abdicar do seu sábado para carregar peso, projetor, investir grana ao invés de estar na balada ou sentado no sofá vendo TV, os torna jovens. E revolucionários. Acho que jovem tem a ver com liberdade de espírito. Por outro lado, a maturidade e a idade devem fazer melhor pra gente. Eu, pelo menos, quero engolir um mundo sozinha.

O Hélio: O que é engolir um mundo sozinha?

DRICA: É querer... (suspiros) Cara, vou te falar uma coisa, Pedro. É muito difícil achar esse lugar ao sol. É muito difícil achar não só porque ele realmente está muito longe das nossas histórias. A minha mãe demorou trinta anos para conseguir o dela. E eu também não sei se esses lugares existem. Não sei muito bem como são essas delimitações. Acho que tem muita gente de sessenta anos que tem um pensamento muito mais a frente do que muitas pessoas com as quais estudei na UFF e na vida.



O Hélio: Um sociólogo, talvez, falasse que isso tudo é porque o mundo é regido pela lógica do mercado. Porque as pessoas pensam com parâmetros econômicos quando refletem a arte, a educação, a saúde...

DRICA: Acho que esse sociólogo precisaria conhecer o Buraco do Getúlio. Mas, na verdade, a gente é regido por isso sim, né? Regidos pelo dinheiro corrente. A nossa subjetividade é individualizada. Somos treinados para isso há muito tempo pela televisão, pela escola, pelas igrejas. Ai, cara, acho perverso isso que as igrejas fazem com os nossos amigos. Acho perverso o que os partidos políticos fazem com os nossos amigos. Acho perverso o que a televisão faz com os nossos sobrinhos, por exemplo. Eu tenho muito medo, Pedro, do discurso que se coloca fora, entende? Se eu falei eles você me corrija. Nós somos assim também, concorda? É o que eu dizia lá no Adolpho Bloch, no meu ensino médio: ou você usa Mac ou você usa All Star. Se você não usa os dois, você usa Havaianas. A gente não tem muita escapatória. Por isso, viver, se torna tão difícil.



Um comentário:

  1. Incrível esse material como atestado de juventude em estado de ebulição. Drica eu te amo ao nacional!

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