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terça-feira, 7 de agosto de 2012

ZECA FONSECA: O HOMEM JÁ ERA




Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Bia Willcox

Zeca Fonseca é um escritor de curtas conversas, impacto permanente em mentes ociosas que insistem em não perceber o fluxo da vida. Com influência da literatura gelada, de Bukowski e Nietzsche a Kafka, Zeca também considera ler Rubem Fonseca – por acaso, seu pai – e não acha Machado de Assis atraente. Numa conversa profunda e sincera, o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca abre sua toca criativa niteroiense para falar ao O HÉLIO. Do papo, saem filosofias de vida, Pandemonium (atual livro do autor), política e muito sexo.


O Hélio: Qual a falta que você acha que mais move o ser humano, você?

ZECA FONSECA: Olha, em mim, o que mais sinto falta, é da minha mãe. Ela morreu quando eu tinha quarenta e poucos anos. Eu estou com 55. Você tem mãe?

O Hélio: Tenho.

ZECA: Porra, cara, aproveita. Agora, acho que, de uma maneira geral, no mundo o que mais falta, é uma coisa ligada à mãe. A família está sumindo. Não interessa ao capitalismo muita gente junta. Porque todo mundo junto, é uma geladeira só. Se separarem as pessoas, serão várias geladeiras. Imagina isso. O dinheiro é o que move o mundo, a cabeça das pessoas, o movimento das pessoas. Tudo acaba envolvendo isso. Você já reparou?

O Hélio: Acaba desaguando nisso…

ZECA: Desagua. A gente é vítima do sistema. Isso é uma coisa que está como carro chefe. Tudo tem sentimento. A gente costuma ignorar os sentimentos, mas eles estão aí.

O Hélio: Lá no Pandemonium, o Lemok era um angustiado, né?

ZECA: O Lemok, dentro desse processo, se sentiu um cara preterido. Era o amigo dele que estava apaixonado pela mulher da vida dele! E o pior, a mulher se casou com o amigo e largou ele. (risos) É um negócio que ele até queria ficar feliz pelo amigo, mas não dava. Isso é manjado em romance, mas sempre dá um caldo.

O Hélio: Explica mais sobre o Lemok, porque ele meio que te acompanha. Está sempre contigo…

ZECA: É meio que um alter-ego meu. Nada daquilo aconteceu, mas é claro que tiveram os sentimentos. Eles é que marcam. Quando você escreve uma história, você tempera com coisas da vida real. A gente só não precisa dizer onde é que está. Quando você coloca uma lente, você pode exacerbar como quiser. O Lemok sofre muito quando achava que fosse ficar com a Bel, mas ela gosta do amigo dele. Quer dizer, o Lemok entra dentro do sofrimento dele mesmo e entrega a mulher para o melhor amigo. É um negócio assustador! (risos)

O Hélio: E junto a isso, o Lemok ainda tem uma mãe doente.

ZECA: A mãe doente bate certinho com a minha vida, isso sim. Enfim, não fala muito de mãe, não. Vou acabar chorando com essa entrevista! (risos)

O Hélio: O Lemok se explicava muito para o leitor para tentar se entender.

ZECA: Pois é, eu uso o Lemok para traçar uma cumplicidade com o leitor. Porque o leitor é a nossa meta. Nossa meta é ter leitor. Acho que isso faz parte do meu estilo de escrever. Tenho pavor de livro que você começa a ler e você não sente nada. Insosso. O seu livro é bom, aliás, viu, Pedro. Estava para te falar isso. Bem interessante. Vai dar um caldo esse livro, O Eco da Girafa. Depois eu queria ler o seu primeiro livro, cara (O Hélio).

O Hélio: Eu trouxe um pra você. Meu primeiro livro é bem ingênuo…(risos)

ZECA: O meu primeiro livro também, o Adorador. Ingenuidade é um troço legal, cara, não é ruim não. Por que você falou assim? Poucas pessoas têm ingenuidade na escrita.


Pedro Paulo Rosa e Zeca Fonseca


O Hélio: Talvez porque poucas pessoas achem isso uma coisa boa

ZECA: Cara, se for bem escrito, a pessoa vai lendo. Tem um escritor que todos adoram, veneram: Machado de Assis. Eu não gosto de Machado de Assis! Acho chato. Chato pra caralho! Agora, é uma heresia falar mal dele. Não consigo ler Machado de Assis…

O Hélio: Pra você, seria melhor a Bahia de Jorge Amado, né?

ZECA: Muito melhor, muito melhor. Porra, não tem comparação.

O Hélio: A gente estava falando que o leitor é a nossa meta. Você acha que o perfil do leitor mudou? Acha que o leitor está lendo mais autor brasileiro, por exemplo?

ZECA: Acho que estamos perdendo leitor. Acho que a televisão é uma coisa muito forte. É uma lareira. O cara acaba lendo menos por conta do que vê. É um negócio assustador. Então, a gente continua… somos seres humanos rudimentares vivendo numa modernidade esplendorosa.

O Hélio: Fala mais disso.

ZECA: É tudo muito maquilado. Tudo bonito, tudo cheio de luz. Mas, a gente continua sendo animal. É um conflito.

O Hélio: Um conflitaço! (risos) Zeca, adorei o teor do seu pessimismo, muito parecido com o meu. É um pessimismo que não para. Ele anda.

ZECA: Situo minha vida dentro de um contexto. É incrível, Pedro. Mas, estamos todos no mesmo barco. E não há saída. São as coisas que escolhem a gente.

O Hélio: E a literatura te escolheu como, Zeca?

ZECA: Cara, sou filho de um escritor (Rubem Fonseca). Ele sempre me disse que tinha que escrever. Comecei com engenharia, mas saí e fui para o jornalismo. Não queria seguir o meu pai. Sinto meu pai como uma mangueira muito frondosa. E eu quero pegar o meu sol. Correr da grande sombra. Acho que estou conseguindo.

O Hélio: Me fala do seu livro “O Adorador”. Era um cara que pegava todas na internet?

ZECA: Orkut era a moda. Tinha acabado de descobrir que tinham personagens paralelos, coisas muito sexuais. Aí, criei um personagem que era o legítimo adorador de bucetas, mas a editora achou pesado. Fiz uma pesquisa mesmo, entrei na net para ver tudo. Fiz um perfil chamado Adorador e só aceitava mulher casada. Nossa, as análises que saíram dali foram enormes. Inclusive, esse livro (O Adorador) vai virar filme. Os produtores querem fazer um filme com censura de 14 anos, então, certamente, a levada será de comédia. Parece que o ator está fechado, será o Marcelo Serrado. Ele, inclusive, está apaixonado pelo personagem. Acho que vai ser muito bom. Esse livro vai ter uma segunda etapa de venda bem legal. Parece que quando vira filme as pessoas descobrem a potência do livro. O filme deve sair final de 2013. É importante dizer o quanto escrever um livro é uma exposição.

O Hélio: É meio um livro pra voyeurs, né?

ZECA: É, é... (risos) esse livro tem uma pegada jovem mesmo. Se pegasse esse livro pra ler com dezessete anos, ia gostar muito.

O Hélio: Por que a necessidade do sexo tão presente na sua linguagem literária?

ZECA: Onde a gente vai, o sexo vai, cara. É inalienável. Se a pessoa não perceber isso... Hoje em dia, sexo é acessório. Não coloco isso como razão principal.

O Hélio: Realmente, é um tema norteador. E ter isso no livro define quem vai abrir o seu livro e ficar com ele. Lembrei muito de Kafka lendo o seu Lemok.

ZECA: Porra, Kafka foi o primeiro livro que li na vida, o Metamorfose; gosto muito também de Bukowski, Henry Miller, Nietzsche. Rubem Fonseca (risos). Minha literatura é essa!

Hélio: Falando no Pandemonium de novo, neste livro você mostra um painel de vida muito ácido, muito duro. Ao mesmo tempo, não é uma obra com personagens muito psicologizados. Você tem umas sínteses que falam ao coletivo.

ZECA: Fico procurando na rua até achar uma coisa. E a gente é assim, senão a gente não escreveria. Olho o outro. Essa coisa que a gente chama de lixo eletrônico (a TV), me proporciona ter acesso a mundos que não tenho. Praia do Leblon para inspirar já passou há muito tempo, Pedro! Prefiro ir ao piscinão (de Ramos, favela carioca). É até hilário: a Baía de Guanabara podre e ao lado, aquele piscinão limpinho.

O Hélio: Foi muito diferente sair do Rio e estar morando em Niterói? Altera algo na sua escrita?

ZECA: Niterói é mais classe média. Mais que o Rio, mais que Porto Alegre. O Brasil, conheço muito. Era jornalista da Manchete, nos anos 80, ia para vários lugares. O Norte inteiro! Coisa que não faria pela minha conta. Aqui é um shopping a céu aberto. (risos) Não sei o que aconteceu, é um fenômeno Niterói. Eles conseguiram se separar mentalmente de São Gonçalo. Não sei qual jogada política foi essa! (risos). O Rio era a minha principal referência. O Rio é um lugar internacional por natureza. É muito multifacetado. Está entre as cidades referência: Paris, Roma, Londres. Tem essa aura de influenciar os outros estados e locais do Brasil. Estou focado, no momento, na sociedade. Essa coisa do capitalismo é uma manipulação tão grande. Quando vi que o Eike Batista está gerenciando a carreira do Neymar, porra! O cara virou um Deus. Você não conhece Deus? É o Eike Batista. (risos) O capitalismo tem um véu muito forte que ninguém fala, mas que está ali. Vou reforçar o que já é óbvio: os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Há pessoas que conseguem dizer que Marx está desatualizado. Claro, você tem que ler com uma lente de adaptação, porque o tempo era outro. O fio condutor é sempre o eu-leitor. Romance, por exemplo, você tem que ter muito fôlego!

O Hélio: Voltando à sexualidade, como você compreende o sexo no século XXI?

ZECA: Cara, hoje em dia, o homem já era. Não se precisa mais de pau (risos). As mulheres compram pau na loja. Do tamanho e da cor que elas quiserem. O homem já deu. Vamos ser massacrados nessa sociedade. Aquele homem com estereótipo de machão é o que vai levar porrada! Em breve, inclusive, devemos ter novidade sobre uma minissérie para TV que escrevi com a Bia (Willcox) chamada O Lésbico e que fala muito sobre isso. O personagem masculino terminou. Escute, Pedro, não tenho nada contra homossexual. O que vemos é um direcionamento para esse novo personagem da sociedade. Mas, ele sempre existiu. Que fique claro, não quero destruir ninguém! Cabe todo mundo nesse planeta.




O Hélio: E a fotografia chega quando e como em você?

ZECA: Cada vez chega menos. Como mudei a minha vida e fui para o livro...na verdade, a vida que me mudou! É como se estivesse numa trincheira, sabe, Pedro? É como se eu estivesse com a arma na mão. O leitor é o meu alvo. Minha metralhadora tem letras e não bala. Voltando: o que é fotografia? Ou vou fotografar o real ou parto do zero e monto um estúdio. Então, escrever é como se fosse uma fotografia de estúdio. Vou colocando os ingredientes. Aliás, amo culinária como bom taurino. Meu pai (Rubem Fonseca) é touro também. (risos). Somos três, então, Pedro!

O Hélio: Como você analisa essa competição que existe, em algum nível, entre imagem e escrita? Acha que é uma ameaça para nós, escritores? Falo isso porque há uma infinidade de gente preterindo a escrita e ficando apenas com a imagem.

ZECA: Não vejo como ameaça. Talvez as pessoas possam perder a excitação do tato com o livro. Livro não vai acabar, mas vai coexistir. Por exemplo, quando veio o CD, foi o maior furor na sociedade. Os músicos ainda podem ganhar dinheiro no show. E o escritor, vai ganhar dinheiro como? Não temos como fazer show! (risos) Parece até que querem acabar com os escritores. Só terão roteiristas, eu acho. Só ficaram os teimosos, os taurinos. (risos)

O Hélio: O que você pensa sobre a nova linguagem que estão dando à favela? Pela primeira vez, me parece que se abre o ouvido do respeito para a população de origem popular.

ZECA: Acho que, no futuro, vai ter só gringo morando nas favelas da Zona Sul. As da Zona Norte, acho que vão virar um grande México carioca. Se for morar no Rio de novo, vou morar na Praia de Botafogo num daqueles prédios que tem 40 apartamentos por andar. Escritor precisa disso. Acho que o Brasil está melhorando politicamente, mas a gente ainda está muito dentro do processo para conseguir enxergar. Estamos num momento em que o outro está conseguindo nos enxergar melhor do que nós mesmos. O Brasil é diverso, misturado, não é nada hermético, como uma China, por exemplo! E outra, o Brasil tem um potencial de beleza feminina excelente.

O Hélio: Explica o projeto Berçários de Talentos.

ZECA: Primeiro, a gente queria ter um canal com essa juventude. Vemos que o cara escreve, mas não conseguia reconhecimento. Acho que a gente, um dia, vai encontrar uma pepita, sabe? Nesse garimpo, encontraremos uma pepita. Tem verde bom e tem verde ruim. Vemos pela maneira do cara escrever. É uma coisa bem interessante esse projeto da Faces (editora).

O Hélio: Vou repetir a pergunta que a Zélia Duncan fez. Viver é bom?

ZECA: (risos) Viver é foda. Uma experiência impagável. É emocionante. É uma coisa que coloca a gente sempre em xeque. Somos intimados a viver. Enquanto a gente vir saída para a nossa água interna correr, a gente vai vivendo. O suicida se mata porque não vê mais onde escoar essa água. A sociedade toda se mataria, Pedro. É só vender no mercado um kit morte.

O Hélio: Ou tirar a luz da cidade! Lembra de Saramago?

ZECA: Sim, sim. Ele era fantástico. Então, somos intimados a viver. Quando vejo os mendigos, sinto eles como Jesuses.

O Hélio: No final do seu livro, Pandemonium, fiquei muito impactado.

ZECA: (risos) Imaginei essa palavra, Pedro, impactados e você falou ela agora. Mas, o lance do final do livro, é isso. A única coisa que a gente sabe o que vai acontecer na nossa vida é a morte. O resto é loteria. A gente não escolhe o nosso destino. A gente tenta uma coisa, consegue outra, enfim... De alguma forma, existe algo, coisas de acaso que vão levando a gente, sabe?  Temos que viver e deixar viver. As pessoas têm mania de se jogarem muito nas coisas, mas existe um caminho natural. O ser humano é refém dessa vida. Estamos com as mãos atadas e não nos admitimos. 

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