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domingo, 19 de agosto de 2012

INGRID ZAVAREZZI: TUDO É UM COMEÇO DE MUNDO


Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Karen Ferreira 


    A roteirista e publicitária Ingrid Zavarezzi recebe O HÉLIO em seu apartamento. Lembra-se dos seus avôs – fulcrais para germinar na autora a aptidão para escrever. Dotada de extrema sensibilidade e apuramento artístico, Ingrid demonstra otimismo ao falar da atual juventude brasileira, a quem chama de tema principal da sua teledramaturgia. Envolvida, atualmente, com a pré-produção do seu primeiro longa-metragem baseado na histórica vivência da revolucionária Marilia Guimarães, Zavarezzi nos revela seu lado analítico, certeiro e que prioriza a valorização da ética, como ela mesma diz. Valores familiares, avós, Iphones, novos layouts e muito mais perpassam o universo criativo e múltiplo de Ingrid.

O HÉLIO: Queria começar te perguntando sobre a escolha dos seus temas; como é que você escolhe seus temas para escrever?

INGRID ZAVAREZZI: Eu gosto muito de escrever para os jovens, o meu nicho de mercado é escrever para os jovens. Assim, comecei escrevendo programa infantil “Turma da Hora”, na TV Manchete. Depois, eu fiz “Histórias da Noite”, que era para o Serginho Groissman, que também eram episódios que tinham uma pegada jovem porque era pro Altas Horas. Tenho uma filha de 24 anos. Mas, acho que ela ainda é um pouco adolescente. Acho que hoje a adolescência tardia vai até os trinta (risos). A minha casa vive cheia, a galera vem toda pra cá. E eu fico sempre ouvindo o que eles falam. A ansiedade deles, acho que é uma idade tão rica...crises existenciais e buscas. Acho que...o jovem é muito rico em temas para se trabalhar, gosto demais. A perspectiva de futuro do jovem, é tudo muito ansioso e urgente, né? Ele quer fazer tudo e agora. Fora a herança que cada um traz de seus pais. Então, são personagens que me atraem muito; a sexualidade latente. É um leque de sentimentos que o jovem traz em termos de personagens para trabalhar.

O Hélio: O que você acha que mudou da geração jovem dos anos 90 para cá?

INGRID: Acho que a internet e as redes sociais causaram uma mudança de comportamento. Não só no jovem. Acho que a internet mudou o mundo, a forma de fazer guerra, a forma de se relacionar. A forma de fazer amor, a forma de namorar. Mudaram as hierarquias familiares em função também da internet. Mudou o jeito de você trabalhar, de se relacionar com o seu chefe e com os seus colegas de trabalho! Então, o jovem mudou muito rápido; o mundo mudou muito rápido de uma maneira irreversível. Não tem mais o que era antes. Hoje, em termos de comunicação, para quem escreve dramaturgia, para quem produz entretenimento, tem que pensar a transmídia, em rede social, pensar na interatividade. O jovem está vendo a novela enquanto conversa com zilhões de pessoas pelo twitter. E é assim com tudo. É um novo jeito de se relacionar.

O Hélio: E você acha isso bom?

INGRID: Acho isso maravilhoso.  Não sou fatalista. (risos). Minha avó dizia que tudo era o fim do mundo. Lembro muito dela falando sobre essas coisas. Uma mulher que falasse palavrão, para minha avó, era o fim do mundo. Aí vem a pílula, “ai é o fim do mundo!” (risos). E eu acho que não. Na minha cabeça, tudo é um começo de mundo. Engraçado que, tenho 50 anos de idade, mas se sai alguma coisa nova, eu logo compro. Sou muito antenada com tudo o que sai, com tudo o que está sendo lançado em termos de tecnologia. Essa área da tecnologia da comunicação me atrai demais. Estou cercada de aparelhos eletrônicos. Durmo com o Iphone do meu lado, vou com ele para o banheiro! (risos)

O Hélio: Como você interpreta afirmações do tipo: “entrar para o clube de roteiristas da TV Globo é impossível. É tudo maçonaria de indicações”? Ou quando algumas pessoas reclamam de que, por exemplo, os autores de telenovelas estão muito idosos?

INGRID: Eu vejo aí dois aspectos, Pedro, que são muito importantes para as pessoas entenderem. Tanto a TV Globo quanto a TV Record são empresas produtoras de entretenimento. Uma novela é muito cara! Os escritores não estão velhos. O escritor vai envelhecendo, ele vai ficando cada vez mais competente e maduro. Nós temos grandes gênios trabalhando: O Manoel Carlos, o Aguinaldo (Silva), a Glória (Perez)... O que é a Glória? A Glória Perez é um gênio! Uma mulher que escreve uma novela sozinha! Ela tem uma mente prodigiosa. Então, não pode um menino de 18 anos de idade achar que ele vai escrever uma novela. Não vai, isso não existe. Ele precisa de experiência, tempo, cancha. Você tem que entender o produto e o processo produtivo. A responsabilidade imensa que é. Eu agora como autora principal da última temporada da Malhação. Menino, é uma loucura! É um produto de 20 minutos de duração, de segunda a sexta, e ele dá um trabalho gigantesco. Você lida com público o tempo todo, com ibope, com produtividade. Você imagina a novela das oito, que são 50 minutos. Eu tenho um break só, eles têm quatro! São quatro ganchos para eles escreverem, fora o gancho de fim. Eles são de segunda a sábado. Você sabe quanto custam trinta segundos de comercial na novela das oito? É muito dinheiro, tipo 300 mil reais, é por aí assim. Não tenho essa cifra exata. É muita responsabilidade. É um show business. É uma fábrica de sonhos a TV Globo. É um profissionalismo extremo; da passadeira até o nosso diretor de núcleo. Então, assim, são grandes profissionais. Não é fácil chegar lá, tem que estudar muito, ralar muito. O escritor é meio igual ao ator. O ator faz a CAL (Casa de Artes de Laranjeiras) e já acha que vai ser protagonista. Você tem que ter o dom, a estrela. Escrever é uma arte e uma técnica. Claro, você precisa da técnica também. Até porque, você está entrando na casa de 95 milhões de brasileiros, falando com jovens, com crianças, avós. Está falando com cidadãos, colocando ideias na cabeça deles. E isso é uma responsabilidade imensa! É um perigo. Você tem que estar muito ciente disso. Você está ali para entreter uma família que está passando por diversos tipos de problemas. Uma família que quer rir e desopilar o fígado! Que precisa ter auto-estima, que precisa acreditar que a vida dela vai mudar. Tornar as pessoas melhores. Eu que escrevo para os jovens, penso sempre assim: o jovem que não tem avó, é uma coisa muito séria.

A autora Ingrid Zavarezzi


O Hélio: Por que o jovem que não tem avó?

INGRID: A avó passa valores e éticas muito grandes. Essa coisa de ter amor pelos mais velhos e respeito é algo muito importante. O jovem hoje gosta de falar, falar e falar! Mas, é importante saber ouvir. Tem que ouvir. Minha avó dizia para mim, se a gente tivesse que falar mais, a gente teria duas bocas.

O Hélio: A sua família te influencia muito no seu processo criativo?

INGRID: A influência é muito grande, muito grande. Acho que a família é uma coisa que vai se perdendo, vai mudando. A mulher hoje tomou as rédeas, sabe? Ela vai, ela trabalha fora, trabalha na casa de família. Chega em casa, desce a porrada nos filhos. Minha empregada é assim. O filho dela foge para lan house e se ela chega em casa e sabe que ele foi para lan house escondido, ela dá nele com tampa de panela de pressão. (risos) Ele tem 14 anos, mas já está um homem. Sabe, e ela toma conta disso tudo sozinha. E são milhões de mães assim. Quer dizer, a gente precisa passar o valor de respeitar os mais velhos, de ser um bom cidadão. De tornar esse país melhor, acho que essa é a nossa função como escritores. Mas, aí, a gente estava falando sobre o segundo aspecto do jovem que quer escrever. Acho que o empreendedorismo nessa área é muito importante. Temos aí o webstorytelling , pelos aplicativos você faz livro, lança livro pela web. Sabe? Quem quer, faz. Quem quer, encontra caminhos. Encontra caminho para onde quiser, sabe? Se você quer ser astronauta, corre lá que você vai ser astronauta. Se você quer ser escritor, quer ser cidadão, leia, se aculture. Escreva! As pessoas têm preguiça. Escrevem errado demais. É um horror! Eu tinha uma personagem que se chamava Tia Leiloca, que era uma professora, uma senhorinha, um avatar, né? Ela xingava todo mundo que escrevia errado. E o pessoal mandava Tia Leiloca se foder! (risos).

O Hélio: Como você analisa o protagonismo da classe C? É importante para o seu trabalho?

INGRID: Eles estão aumentando o seu poder aquisitivo. Eles agora têm carro, computador, acessam a internet. Hoje, a internet é mais acessada pela classe C. Isso é fato, é estatística. Hoje, tem mais celular com acesso a internet do que gente. Outro dia foi engraçado, estava com minha filha indo à praia e fomos calibrar o pneu da bicicleta. E o rapaz que nos ajudou, enquanto enchia, falava ao celular com sotaque nordestino e ele dizia que o email não chegou para ele. Então, assim, estão muito conectados. Minha manicure, por exemplo, fica no celular, me pergunta se vi no facebook aquilo ou aquilo outro. E isso é bárbaro! Isso está mudando a nossa sociedade. A gente precisa gerar positividade.

O Hélio: Você é publicitária também.

INGRID: Sim, faço marketing político.

O Hélio: E como você lida com essa diferença de criar literariamente e criar um produto?

INGRID: (risos) Eu falo que eu faço poesia e bula de remédio. É exatamente isso, a poesia é a dramaturgia e a bula de remédio é a campanha política. E campanha política é isso, a gente não veste a camisa; eu não tenho nenhum partido político. Estou ali para eleger aquele candidato.

O Hélio: Você tem vergonha de dizer isso?

INGRID: Não, claro que não. É o meu trabalho. O publicitário não se envolve tanto. Na bula de remédio, você não se envolve. Sou totalmente cerebral. Na dramaturgia, sou totalmente coração.

O Hélio: Quem você destacaria como influência literária na sua vida?

INGRID: Teria que fazer uma lista pra você, é tanta coisa. Vai dos gregos à revista Ana Maria que custa noventa e nove centavos na banca de jornal. Vai de Shakespeare até Sabrina de um real. Sou uma mistura de tudo. E, voltando só um pouco a falar de família, minha mãe era judia polonesa fugida de campo de concentração e, tanto ela quanto meu pai, achavam que escrever não era profissão. Quem muito me influenciou foi o meu avô. Ele, quando eu tinha nove anos de idade, me deu uma máquina de escrever de presente. Me lembro que eu devorava livros e quando não gostava do final, escrevia outro e rasgava o final do livro e colava o meu final (risos). Meu avô era um poeta e ele sabia muito a fundo sobre literatura e poesia, embora ele fosse general do Exército. Ele lia Castro Alves e chorava. Ele que me ensinou a métrica. Me levava para Casa Colombo, passeava comigo pelo Rio de Janeiro. Me ensinava a história do Brasil nos lugares. Tinha um orgulho enorme de estar com ele! Ele que colocou a sementinha de escritor em mim. Perdi meu avô aos doze anos de idade. Fui fazer medicina; já quis ser atriz, comissária de bordo e meu pai sempre me dizendo: “isso é coisa de piranha, minha filha! Vai ser médica”.



O Hélio: Você deve ter muitos temas rondando a sua cabeça.

INGRID: Olha, tenho pavor de ter projetos em gaveta. Sou uma realizadora. Pego e faço. Nesse momento, estou me preparando para meu primeiro longa-metragem. Fui convidada pela Marilia Guimarães, minha sogra, mãe do Marcello (Guimarães). E ela tem uma história de vida extraordinária; aos 25 anos de idade e dois filhos pequenos sequestrou um avião para Cuba. No meio das mamadeiras tinha um revólver! (risos) Foi um sequestro que durou cinco dias com duas crianças pequenas e uma tensão gigantesca. Eles, a qualquer momento, poderiam ser mortos pela Ditadura Militar. É uma história linda. Ela escreveu um livro chamado Nesta Terra, Nesse Instante e me convidou para fazer esse roteiro da história dela. Então, vou escrever essa história!

O Hélio: Agora você me arrebatou! (risos) A Marilia é mãe do Marcello? Nossa!

INGRID: Sim, Pedro! (risos) Ela é maravilhosa, né? A Letícia Spiller já está confirmada no elenco. E vamos para as cabeças!

O Hélio: Novela e minissérie. Em termos de estética, quais as diferenças que você percebe no conceito mesmo da minissérie e da novela? Será que minissérie, de fato, não atinge a todos?

INGRID: Depende da proposta da obra. Existe mercado para tudo. Tudo é para quem é esse produto. A novela é uma obra aberta, pega a família toda na casa assistindo. Se esse é o seu público, o artista tem que ir onde o povo está. Agora, se o seu público é de 23 h, é diferente. Se for canal a cabo, mais diferente ainda. Muitas vezes, diretores realizam com uma expectativa que o público não corresponde. Quando comecei Malhação, cometi um erro. Porque não é um público que não acompanha sempre. O trabalho mudou isso, o engarrafamento, a internet. Tá todo mundo no trânsito, parado, engarrafado, chega em casa, vai para o computador, vai para o banho e depois vê a novelinha no youtube. Então, tive que mudar tudo no caminho. Então, não dá para você não dar para o seu público o que ele quer. Agora, eu gosto de tudo. Adoro Ana Maria Braga, Regina Casé, programa de auditório. Às vezes, estou no carro, ponho no funk, ponho na clássica. Não tenho preconceito não. Tenho que ouvir o que o povo está ouvindo.

O Hélio: Como roteirista e tele dramaturga, como você analisa a sua marca na escrita?

INGRID: Sou muito iconoclasta, emocional demais. Prezo muito os valores familiares, o valor do professor, o valor de uma universidade. O valor da ética mesmo. Escrevo para jovem, então, coloco os conflitos dele e prezo a ética. Não policio ninguém a seguir os meus pensamentos. Mas, sempre tento colocar mensagens bacanas. Outra marca minha é a agilidade no texto. Sai muito da boca dos personagens. Gosto de ver os personagens palpitando, sabe, Pedro? É  um hiperrealismo. E eu vejo uma nova geração de atores maravilhosa! Pessoal que vem da rua, pessoal da Bahia, de Pernambuco. Uma riqueza enorme de sensibilidades. Digo a eles que estudem, todo mundo tem que estudar. Leiam, leiam, leiam! Baixem os clássicos, está tudo de graça. Se aculturem, conversem, produzam. Hoje está cada vez mais fácil pra gente se comunicar e produzir. Produzam coisas boas, façam a sua parte, tornem esse mundo um lugar cada vez melhor de se viver.





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