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domingo, 19 de junho de 2011

PAULINHO MOSKA: COMPOSITOR DE LINGUAGENS

Por: Pedro Paulo Rosa
Foto: Lucas Conrado
Revisão Textual: Paulo Cappelli

O cantor e compositor Paulinho Moska traz consigo uma profundidade que ultrapassa o olhar compenetrado e a fala eloquente. Com um programa de TV (Zoombido, Canal Brasil e Net 66 e tem versão radiofônica na Lumem FM e na MPB FM)sobre música, além de produzir e editar seus materiais artísticos, ele promove - com suas produções - um ponto de encontro entre artistas da música para agradáveis conversas. Versatilidade é a palavra que transborda ao ouvi-lo contar sobre sua origem musical, sobre como escolheu o nome artístico e do seu processo de criação. Muito ligado à natureza e ao silêncio para produção da poesia-canção, Moska se diz um "leigo profissional", que gosta de tudo e não gosta de nada. O baiano de coração e carioca de nascença conversa com a gente em sua "desacelerada" casa no Jardim Botânico.

O HÉLIO: Por que o nome “moska”?

Paulinho Moska – Apelido de escola, eu sou muito magro, tenho olhão. (RISOS). Mas, tem uma coisa legal em que fiquei pensando e que traduz e confirma muito a minha escolha por esse nome artístico. A mosca voa e volta para o mesmo lugar porque ela escolheu exatamente aquele lugar. Entende? Quando ela vai alçar voo, ela não sabe onde é que ela vai pousar. A visão desse animal é muito, mas muito sofisticada! A mosca decide o local do pouso ainda no ar. Então, se ela decide que é no seu joelho que ela vai ficar, não adianta você abanar ela com a mão, porque ela fatalmente voltará ao seu joelho. Aquele foi o lugar que ela, na liberdade do vôo, escolheu ficar. Eu me sinto um pouco assim ao fazer canções. Eu voo não sei para onde. Quando estou no ar, decido a música, a letra, a canção.



O.H.: E a sua origem, Moska? Você é do Rio?

Moska – Eu sou carioca, filho de família baiana. Mas, nascido e criado aqui. Adoro a Bahia, aqui em casa eu cozinho comida baiana. Tenho mesmo uma adoração pela cultura negra, pelo candomblé – embora não siga, pelo inicio do Brasil na Bahia. As religiões africanas junto com o Budismo, para mim, são as que enxergo melhor. Digo isso porque, quanto mais eu envelhoço mais me sinto baiano. Eu estou ficando bem “caverna” e festivo. Atribuo isso ao sangue baiano. Aqui no Rio, tive uma educação bem burguesa: fui criado no Leblon, colégios da Zona Sul, praias da Zona Sul... enfim...

O.H.: Isso te incomoda?

Moska – Não, não... na verdade, eu fico com inveja dos suburbanos, dessa relação suburbana com a alegria.

O.H.: Engraçado que essa relação é recíproca. Os suburbanos talvez te invejariam pela praia do Leblon, pelos colégios...

Moska – (RISOS) Olha, eu não trocaria com eles não.

O.H.: Eles trocariam.

Moska – A inveja que eu tenho é do sentimento suburbano. Passei algumas das minhas férias no interior da Bahia. Gosto muito dessa simplicidade que cada vez tem menos na Zona Sul. Eu moro num condomínio, como você pode perceber, que é bem bucólico. Eu gosto de mesa de bar, de festa, de gente reunida, por isso que eu digo que eu tenho essa inveja. Acredito que a poesia tem mais facilidade de nascer quando as coisas são mais simples. Principalmente num mundo hiper competitivo, de múltiplas velocidades, e com uma certa banalização da violência, banalização de tudo! Então, tudo está em excesso. Eu fico pensando onde nasce a poesia no meio disso. Eu me sinto cada vez mais dentro da caverna para produzir o meu tempo desacelerado em relação ao mundo para que a poesia brote. Eu não uso relógio de jeito nenhum, tempo para mim é outra parada. Eu moro nessa casa e ela é uma casa desacelerada. Retomando, eu fui criado numa Zona Sul diferente, embora meus pais ainda diziam que a Zona Sul estava sendo invadida pelos mendigos. De todo modo, eu percebia que a Zona Sul já estava sendo invadida.


MOSKA em frente à fachada coberta de natureza de sua casa no Jardim Botânico


O.H.: Invadida é uma expressão que você usou e que é bem interessante. Isso me faz lembrar o Zuenir Ventura no seu livro “A Cidade Partida”. E é mais ou menos isso, como se a Zona Sul fosse uma muralha, um Monte Castelo. Só que um Monte Castelo invertido, né? Porque o Monte Castelo real era habitado por uma população pobre.

Moska – Sem dúvida, você está certo. Eu, criança, não tinha nenhum senso crítico sobre isso. Mas, como eu estava dizendo, eu ainda pude jogar bola na rua, eu ia à praia a pé com cinco anos de idade, vendia-se revista em quadrinho na calçada. Não tinha perigo nenhum. A bicicleta ficava sem cadeado na portaria do prédio. Então, tinha o pipoqueiro, o sorveteiro. Enfim, era uma zona sul bem diferente. E bem menos perigosa. Eu também tinha uma fixação com coleções. Colecionei desde maço de cigarro a calota de carro. Selos eu também comprava e logo no primeiro dia de publicação.

O.H.: Você ainda guarda esse colecionador dentro de você?

Moska – Dentro, sim. Um dia, eu joguei tudo fora. Me arrependo. Não sabia que, quando adulto, gostaria de ter isso na mão. Quando eu me casei, fiz uma mala com todas as coleções e pedi para minha mãe jogar fora. E ela jogou. A coleção me ensinou bastante, porque hoje sou um cara que sabe admirar. Eu gosto um pouco de tudo e não gosto muito de nada. (RISOS)

O.H.: Olha o paradoxo sempre te rondando...

Moska – É!! Sempre! Falo que eu gosto um pouco de tudo porque gosto de música, dança, teatro, cinema, filosofia, arquitetura, gosto de ler sobre religiões, ao mesmo tempo: não sou religioso, não tenho condição de dar uma palestra sobre cinema, não posso discutir com um fotógrafo porque não entendo nada das lentes. Mas, eu sou tudo isso. Sou um leigo profissional, entende? A coleção me deu essa vontade de experimentar um pouco de tudo. Eu sou um compositor na medida em que compor é juntar.

O.H.: Na sua composição, você não parece em nada com um leigo profissional.

Moska – Eu acho que a canção foi e é a rainha das minhas experiências. Porque foi com ela que tudo começou. Talvez, eu seja um profissional da canção sim. Vivo dela basicamente. E tudo o que eu faço – fotografia, TV, cinema, teatro – no fundo é para me alimentar e a canção jorrar. Tudo é também para produzir canções. Tentar condensar e sintetizar ideias. E a coleção também jorra numa canção. Voltando à sua pergunta, com treze anos eu comecei a tocar violão. Quando eu nasci e cresci, como sou caçula, já tinham muitos discos dentro de casa. Minha irmã escutava desde Fábio Jr. à Beatles.
E a empregada escutando Wando. Meu pai ouvindo clássico e minha mãe ouvindo Roberto Carlos.

O.H.: E como foi a sua estada na CAL ( Colégio de Artes de Laranjeiras) ?

Moska – Com 16 anos entrei na CAL para estudar teatro. As pessoas que conviviam comigo sempre disseram que eu me tornaria artista. E lá na CAL houve uma apresentação do “Garganta Profunda”, que era um coral de 23 pessoas regido pelo Marcos Leite (que já faleceu) e eu fiquei apaixonado com uma apresentação do “ Garganta” lá na CAL. Eu fui muito atraído porque tinha tudo que me interessava, era um coral meio cênico, tinha cara pintada. Era a junção de tudo o que eu gostava, ainda mais que estudava teatro e tocava violão. Minha ideia, na época, era ser um ator de musical, porque eu cantava e tocava. Depois eu queria ir para Cuba estudar cinema. Meu sonho de criança era fazer um filme musical. Então, era teatro e música ao mesmo tempo. Na minha adolescência, eu queria ser artista! Artista do canto e da interpretação. Então, fui para CAL estudar e conheci o “Garganta”. Quando entrei no coral, ele já estava todo estruturado. E lá dentro do coral, depois de um ano e meio cantando, teve um projeto que era subdividir o coral. Então, formamos vários grupos dentro do “ Garganta Profunda”. Ao invés de ser um show de coral tradicional, entrava um grupo, fazia sua música, depois entrava outro. Nós éramos 23 atores. Era no amor que a gente estava ali. A gente fazia desde comercial para o Barra Shopping até um show no Museu Carmem Miranda. Bom, aí, um desses grupos vocais do “Garganta” era formado por mim, Luiz Guilherme e Luiz Nicolau. Nossa primeira apresentação foi no Paço Imperial, no Centro do Rio. Daí, no nosso ensaio, quando a gente foi passar nossa música, era um punk rock – com baterial, baixo e guitarra, e aí uma administradora do Paço Imperial veio nos advertir informando que ali onde estávamos fazendo aquela barulhada toda era a sala do trono, onde o Rei dava as ordens. Então, naquele dia a gente se batizou de “Os inimigos do Rei”. Inclusive, havia um jornal anarquista baiano naquela época chamado “O inimigo do Rei”. Então, nasceu o trio. Saímos do “Garganta Profunda” e tivemos uma turma com sete integrantes. Lançamos o nosso primeiro disco que estourou! Duramos quatro anos depois que saímos do “Garganta”. Uma música que fez muito sucesso foi “Uma barata chamada Kafka”.




O HÉLIO: Muito para mim é tão pouco e pouco é um pouco demais. O que é isso?

Paulinho Moska – Eu acho essas perguntas sempre muito difíceis. Porque são muitas coisas. Às vezes, é uma frase que você ouviu de alguém e anotou. Hoje em dia, muito do que eu escrevo é mais o jogo das palavras, eu me sinto quase uma criança brincando de lego. Os vermelhos se encaixam, depois eu quero fazer uma linha só de amarelo, ou uma linha só de azul. Sabe? Então, tem esse encaixe das bolinhas, né? As palavras são a mesma coisa. Eu fico jogando com sílabas e rimas. E sentidos. Mas, o sentido tem mais liberdade. Rima é uma rima. Cavalo não rima com cabeça, definitivamente. (RISOS). Então, os sentidos ajudam a gente a estar com essa parte mais lúdica.

O.H.: O seu momento de compositor agora é esse?

Moska - Já faz tempo que eu sou um compositor apaixonado por rimas, trabalhando com métricas. Na verdade, tudo começa com o olhar. Toda música tem alguma coisa real. Às vezes, é inteira. Às vezes, é um vômito de tudo aquilo que você está vivendo. Mas, pô, se está rimadinho, fechadinho, se tem um refrão, que é como se fosse o ápice do livro. Então, é óbvio que numa música tem muito de uma coisa pensada racionalmente. Nas minhas primeiras canções, eu não percebia isso. Fazia isso intuitivamente. O que foi sendo feito intuitivamente se tornou um método.

O.H.: Legal, você amadureceu, né?

Moska – Exatamente. E eu acho que qualquer artista é assim. Por exemplo, sou genro de um grande pintor. Você pega todos os quadros dele e vai ver que tem uma linguagem. Nos primeiros quadros, você vai flagrar marcas dessa mesma linguagem, só que ela não está estabelecida. O artista começa primeiro sem a sua auto-imagem estabelecida. Mas, conforme ele vai fazendo instintivamente e naturalmente as coisas, o artista vai reconhecendo na sua prática os seus traços. Então, eu fui reconhecendo os meus traços e percebi que eles incluem a coisa da rima e da métrica. Coisas que eu gosto muito é começar uma frase e mudar o sentido dela antes do final.



O.H.: A Maria Rita, por exemplo, canta essa música “Muito Pouco” de uma maneira bem explosiva.

Moska – Tentando responder a sua pergunta, o que eu quis dizer com isso, o que eu não acho o mais importante, porque o que o autor quis dizer é só dele. Ninguém tem que entender como o autor. O entendimento é uma coisa muito subjetiva. Porque o entendimento é fruto dos seus encontros com as coisas da vida, com a sua experiência. Agora, eu posso até te dizer o que eu quis dizer, mas quero frisar que a letra é livre e tem que ter um outro sentido para os outros. Essa é a grande liberdade de uma obra de arte, de uma poesia, de uma dança, de um filme. Agora, nessa música, eu tento colocar o muito como pouco e o pouco como muito. Eu gosto disso. Não resisto a um trocadilho! Pedro, tudo para mim tem múltiplos sentidos. Raramente eu escrevo alguma coisa...

O.H.: Monolítica?
Moska – É. Que tenha uma certa objetividade. Eu nunca seria um compositor político, por exemplo.

O.H.: Você é um compositor de linguagens e não de mensagens.

Moska – É. Acho que sim, muito bom isso! Tá ótimo isso. (RISOS)

A originalidade de Paulinho Moska se traduz em um artista que não tem medo de Filosofia. Que se problematiza, observa-se do lado de fora da janela, tornando possível um diálogo aberto e transformativo com a sua maneira de fazer arte, de se liberar através da música. Com talentos múltiplos, a canção é onde tudo juntamente culmina e alça o voo particular das linguagens antes nunca pensadas.

11 comentários:

  1. Incrível! Muito boa a entrevista, com um gênio como Paulinho Moska. Parabéns novamente Pedro por construir um blog tão rico culturalmente.

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  2. Que maravilha!!! Boa idéia e só posso agradecer por saber mais sobre um artista maravilhoso como Moska...

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  3. Moska é sensacional, humilde, sensível, pé no chão! É um verdadeiro artista! Eu amo além...

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  4. Sou muito apaixonada pelas idéias geniais do Moska,ele exala interrogações,mesmo sem o contexto vc se encontra nas frases.Em cada trabalho ele está melhor, surpreendendo a cada álbum.Moska poeta,filósofo,maluco.Cada canção uma sessão de terapia garantida.rs.RobertaDalcól

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  5. .Perfeito. Metáforas, rimas, métricas e filosofia.. enfim! Moska é um artista completo. Bravo!

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  6. Curti a entrevista, Peter.
    ...qual será a próxima? nos surpreenda!

    hehe.

    beijos.

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  7. Adoro paradoxos. E as letras do Moska são cheias deles. Seja no Muito Pouco ou em outro albuns. Por exemplo, a fantástica letra da música "Cheio de Vazio". Viajo em cima destas letras.

    Parabéns pela entrevista!
    E Obrigado por nos brindar com esse presente!
    abs!

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  8. Amei. Que bom ser fa desse cara, tao muito, tao puco e tao genial.

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  9. Sou pirada no som do Moska... ainda vou no RJ só para vê-lo!!! Muito bom!!!!

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  10. moska é o parnasiano pós-moderno que consegue ser cuidadoso e superficial ao mesmo tempo... lindas composições, divertidas letras e um sucesso mais que merecido... pra mim, ele se iguala aos grandes compositores como zeca baleiro, lenine, caetano e milton, cada um em sua geração.

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