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sexta-feira, 24 de junho de 2011

MULHERES DE VONTADE

Por: Pedro Paulo Rosa
Foto: Divulgação
Revisão Textual: Paulo Cappelli



O quinteto “Mulheres de Hollanda”, com sua leveza e harmonia peculiares, cede uma entrevista (por email) para nos falar sobre novos projetos, de como começaram e do desafio de cantar em grupo. O que nos fica evidente, após escuta-las, é a facilidade que todas elas têm com a música, com o encontro do artístico. Entrosadas, as “meninas” de Hollanda escolheram as composições de Chico Buarque como inspiração. As canções desse mestre da música ganham ainda mais charme e beleza nas vozes de Karla, Eliza, Ana, Marcela e Malu.
Hoje, elas estão brilhando os cariocas no teatro Rival, na Cinelândia.

O HÉLIO: Origem. Onde é que tudo começou para cada uma de vocês na música?

- Karla Boechat: Muito cedo, pra mim. Eu comecei a ler música antes de ler letra, comecei no piano aos 5 anos de idade e com 11 já me apresentava em pequenos concertos. Cresci ao lado do meu piano e foi por conta disso e por culpa dele que eu descobri que podia cantar, quando fui obrigada a fazer canto coral pra me formar pelo Conservatório Brasileiro de Música. Nunca mais parei.

- Malu von Krüger: Minha família é toda muito "musical". Tias e tios que sempre gostaram muito de tocar violão e fazer cantoria quando se encontravam. Os tios de minha mãe eram cantores do Madrigal em Belo Horizonte. O avô do meu pai também teve ligações com a música. Lembro muito de ficar ouvindo os discos da Elis e cantando junto. Quando vim morar no Rio ela começou a fazer parte efetivamente com o coral do colégio e outros corais que vieram e foram direcionando a minha vida efetivamente para a música . Acho que "ser cantora" está naquela lista clássica de "o que você vai ser quando crescer?”

- Eliza Lacerda: Começou quando muito criança eu ia aos ensaios do coral da escola em que minhas duas irmãs cantavam. O regente do coral na época me chamou pra gravar um disco de músicas folclóricas pra criança e eu acabei sendo uma das solistas infantis. Depois disso me afastei por muitos anos da música voltando a cantar já adolescente por influência da Malu, minha irmã que não parou de cantar nunca. Acabei fazendo o teste e entrando pro grupo Mulheres de Hollanda.

- Ana Cuba: Para mim foi através do teatro. Assim que me formei na CAL, em 1994, recebi um convite de uma querida mestra, Nara Keiserman, de integar um grupo musical cênico do qual ela fazia parte. Senti a necessidade de ter aulas de técnica de canto e me indicaram a Karlinha (Karla Boechat), por quem me apaixonei e me ensinou muito sobre ser cantora. Incrível, como o meio musical é tão mais receptivo e generoso que o meio teatral, pelo menos comigo o foi.

- Marcela Mangabeira: Comecei aos 13 anos, quando simplesmente "descobri" que cantava, depois que uma professora me ouviu solfejar uma melodia na sala de aula e me pediu que eu a fizesse na frente de todos, para a sala toda ouvir. Nunca soube que possuía um dom 'diferente' até então. A partir daí o que era paixão se tornou vital na minha vida, e hoje eu posso dizer que já tenho 11 anos de estrada profissional na música.


O.H.: Como que o grupo fechou em vocês cinco? Quando disseram: é, somos nós e ponto!

- Karla Boechat: Em 2005. Montei o grupo em 2002, inicialmente com alunas de canto da minha Companhia de Cantores, cantoras do meu elenco de frente. De 2002 a 2005 passamos por algumas (trans)formações e muito amadurecimento. Quando estreamos o primeiro show inteiro, em 2005, já éramos as cinco de hoje e sabíamos que assim seria por muito tempo.

Com admirável maturidade, as “Mulheres de Hollanda” reconhecem os caminhos sinuosos de se construir arranjos para tantas vozes. A equipe trabalha em sintonia na busca de sonoridades diferentes para as composições de Chico. E o resultado final de cada novo arranjo transborda bom gosto.

O.H.: Quais os principais desafios de se cantar em cinco?

- Karla Boechat: não há segredo em ser um quinteto, principalmente em um grupo que vem cantando junto há quase 10 anos. Pelo contrário – há muitas vantagens. Nossos arranjos em sua maioria são mesmo a cinco vozes e isso é muito rico. O desafio do ‘Mulheres de Hollanda’ existe sim, mas no que diz respeito aos arranjos em si. O desafio está na caneta e na cabeça dos arranjadores. Nós somos cinco vozes femininas (não é um grupo misto) e isso dificulta muito o trabalho deles em termos de registro, cor e extensão. Não é qualquer arranjador que consegue escrever para nós. Mas uma vez escrito e aprovado, quando chega pro ensaio é questão de tempo. É bem verdade que sempre que recebemos um novo arranjo começamos uma fase em que odiamos verdadeiramente o arranjador, todos os dias. Mas logo isso também passa (RISOS).

O.H.: Por quê Chico Buarque como pilar das interpretações de vocês?

- Karla Boechat: Minha culpa. Desde menina eu sabia que faria um trabalho com as musicas de Chico e que teria este nome – Mulheres de Hollanda. Eu vi o espetáculo da Tattiana Cobbett (criadora deste nome) na década de 80 dirigido pelo Naum Alves de Ouza, eu era adolescente e nunca me esqueci daquelas imagens. Além disso, sempre me vi fascinada pela facilidade com que o Chico fala na primeira pessoa, no feminino. Como ele sabe o que uma mulher sente? Como uma mãe sente? Não poderia jamais! Mas sabe. Musical e poeticamente é tão brilhante quanto, ele adora a palavra e respeita as melodias. Ou ao contrário e tudo junto. Fato é que nada nesta obra imensa é por acaso, tudo é milimetricamente encaixado. Isso é genial. Minha mãe ‘me nasceu’ e amamentou, ‘me cresceu’ e me criou cantando Chico no meu ouvido. A culpa é dela.

O.H.: São Mulheres ou Meninas de Hollanda? Em que momentos acham que amadureceram para serem mulheres de Hollanda? Pergunto isso porque muitos a chamam, por carinho, de meninas.

- Karla Boechat: Quero ser chamada eternamente de ‘menina de Hollanda’, adoro quando se referem a nós desse jeito tão carinhoso e isso é mesmo muito comum. Acho que vem do brilho nos olhos da gente quando a gente canta, quando a gente fala do trabalho, vem da nossa gana de realizar isso, da nossa luta incansável pra que o trabalho aconteça... criança brilha e não cansa nunca! (risos) Mas somos mulheres hoje, sem dúvida. Com todas as variações de humor e TPMs a que temos direito (risos)

- Ana Cuba: Preciso dizer que fico imensamente feliz por esse carinho que de fato acontece por parte do público e das pessoas que nos conhecem. A estrada de concepção, criação e levantamento de um espetáculo é muito rica e nos faz lidar com nosso emocional, com a qualidade e construção do nosso profissional. Creio que no começo dessa jornada, as "Meninas" estavam mais presentes com seus sonhos e ideais de realidade que continuam a existir, mas que amadureceram junto com cada uma de nós. A realidade da vida de um artista nesse país é por vezes muito dura e cruel. Vermos "bombar” em trabalhos de pouca qualidade e cuidado, é frustrante, mas é um espelho do que é a nossa sociedade. O enfrentamento dessas realidades e as experiências pessoais e profissionais fizeram desabrocharem estas Mulheres. Mas, nunca perdemos o lado menina de cada uma. Este está presente com suas brincadeiras, bom humor, nos fazendo rir depois de um dia cansativo e de uma rotina de ensaios. Renovando as nossas esperanças. As crianças têm essa capacidade.

- Marcela Mangabeira: Difícil isso, né? Até anos atrás essa "transição" ainda não era tão clara na minha cabeça... Mas hoje posso dizer, por mim, que no palco, a mulher é que impera. Apesar de saber que a menina nunca sairá de mim.

- Eliza Lacerda: Hoje são Mulheres, sem dúvida. Quando fiz o teste, o perfil da cantora que entraria não se encaixava com o meu justamente por conta da idade. Eu ainda era uma menina. Mas passei no teste e fui amadurecendo junto com o grupo e hoje somos todas mulheres no palco.

- Malu von Krüger: Acho que o bacana é ser as duas coisas! Meninas e Mulheres. Hoje o trabalho do grupo está mais maduro do que já esteve, o tempo e a prática fazem isso, eu acredito. Já temos mais facilidade de ler os arranjos, de timbrar com o grupo. Já já sabemos o nosso funcionamento juntas.. é igual a qualquer casamento. Só que somos cinco...!

O.H.: Existe alguma lembrança de momento marcante em um show de vocês?

- Karla Boechat: Eu sou uma pessoa que cai, que derruba, que esbarra em cena, fazer o que? Temos alguns episódios tristes (que não sei porque elas acham muito engraçados) que ‘marcaram’ alguns shows de ‘Mulheres de Hollanda’.
Mas seriamente falando, a gravação do primeiro CD/DVD, como um todo, foi até hoje o que mais nos marcou. Naquele momento, naquelas circunstâncias, logo em um primeiro registro depois de cinco anos de tanto trabalho, cantar ao lado do Quarteto em Cy, Zé Renato e Claudio Nucci e ainda com o Cristóvão Bastos ao piano foi de uma emoção que vai nos acompanhar pro resto de nossas vidas. Sem falar que, com tudo isso, nós gravamos tudo em menos de cinco horas! Nós não tínhamos cinco dias de gravação para depois editarmos as melhores partes – nós só tínhamos cinco horas! Fizemos um único show em condições absolutamente adversas e conseguimos aproveitar mais de 90% de gravação corrida. Vc tem idéia?

O.H.: Alguém do quinteto compõe?

- Karla Boechat: Eu escrevo muito, já sonhei muito em ser escritora um dia, talvez quando eu crescer (risos). Por conta disso, tenho uma única música onde eu assino apenas a letra. Nasci em cima de um piano mas sou absolutamente incompetente para criar melodias. Vai entender!?

- Malu von Krüger: Hmm.. não que eu saiba. Talvez por diversão secretamente!

- Ana Cuba: Nada oficial ou rotineiro. Por vezes, gosto de brincar de inventar melodias e letras, mas muito informalmente e sem registros.

- Marcela Mangabeira: Hum... Tenho algumas composições, mas não tenho a vontade de ser compositora nem de gravar essas minhas músicas. Se um dia acontecer, será um processo muito natural.

O.H.: Todo mundo tinha certeza, desde pequena, que seriam músicas?

- Karla Boechat: Eu sim. Quando chegou a hora eu até fiz vestibular para medicina. Sou de uma época em que eu até poderia ser pianista por hobby, mas tinha que ‘ter uma profissão’. Apenas fiz o vestibular de medicina, mas a primeira faculdade que cursei foi de musicoterapia (que era uma profissão, idéia da minha mãe para que eu continuasse ligada ao meu piano e conseguir driblar a exigência do meu pai). Isto terminado, nunca me dediquei integralmente a outra coisa na Vida que não fosse a música, e tudo o que fiz e todos os empregos que tive paralelamente, foram unicamente para conseguir viabilizar continuar estudando e fazendo mais música.

- Eliza Lacerda: Música definitivamente nunca foi uma opção de carreira profissional para mim. Tenho inclusive outra formação profissional. Acontece que a música é soberana, foi mais forte dentro de mim e me venceu. Me formei em publicidade e acabei nunca exercendo a profissão.

- Malu von Krüger: Não. Tive essa vontade e acreditei que seria possível depois dos 15 anos.

- Marcela Mangabeira: Apesar de ouvir muita música constantemente durante toda a minha vida, dentro da minha casa, nunca pensei em ser musicista quando era pequena. Primeiro quis ser bailarina (baseado em quê eu não sei, pois nunca fiz balé! rs)... Depois cirurgiã plástica... Foi um processo gradativo e natural deixar a música e a arte aflorarem em mim. Hoje vejo que foi o melhor que poderia ter acontecido, e tenho muito a agradecer aos meus pais, que nunca me forçaram a seguir outro caminho.

- Ana Cuba: De maneira alguma! Risos! Não era aquela que ficava cantando em frente ao espelho fazendo um desodorante de microfone; minha mãe nunca me inscreveu em programas de calouros ou talentos infantis; não participei da banda e nem do grupo de teatro da escola... Meus pais sempre gostaram de ouvir música, em casa. Gardel, Lupicínio, Noel, Piazzola. Minha mãe cantarola vez por outra em casa, e ficávamos dançando na sala ao som destas músicas. Essas horas em família me agradavam e agradam muito e acho que registrei a música como essa alegria, aproximação, hora feliz... Engraçado como isso aconteceu, mas parece que foi a música que acabou me escolhendo e eu, muito feliz, me entreguei à ela de corpo e alma.




O.H.: Qual é o público das “Mulheres de Hollanda"?

- Karla Boechat: Absolutamente eclético. Adolescentes, casais apaixonados, senhoras e senhores, mulheres sozinhas (muitas) e homens sozinhos (na mesma proporção!). É Chico Buarque gente! (risos) Conto sempre o caso de um rapaz, há tempos, no gargarejo do Teatro Rival, sozinho na mesa, que chorava horrores e alto enquanto a Eliza cantava ‘Mil Perdões’. Foi duro continuar cantando com ele aos prantos. A gente ficou com pena!


O.H.: Atualizem a agenda de shows.

23/06 – TEATRO RIVAL (participação especial de Olivia e Francis Hime)
24/06 – TEATRO RIVAL (participação especial de Lucinha Lins)

19 e 20/07 – SP (gravação do Sr. Brasil – Rolando Boldrin)
20 à 31/08 – turnê em SP passando por Campinas, São Carlos, Santos, Limeira, Ribeirão Preto, Baurú, São Caetano e outras cidades ainda, além de dois shows grandes na capital.

OUTUBRO – Nova temporada no Rio de Janeiro.

O.H.: Como convergem, aliam suas produções com a WEB?

- Karla Boechat: De todas as formas possíveis! Temos um site belíssimo no ar – www.mulheresdehollanda.com.br – estamos no Facebook (como grupo e individualmente), no Tweter, no My Space, no Orkut e no Youtube! Falamos, ouvimos, conversamos e respondemos, pessoalmente, a qualquer pessoa que se aproxime para conversar sobre o trabalho. Somos todas, absolutamente, internéticas. Damos entrevistas fotografando tudo e subindo on time para o Facebook (RISOS).

O.H.: Novo CD em vista?

- Karla Boechat: Sim. Já está na hora de gravarmos o IMAGINA ELA, este novo show que estreou em novembro do ano passado e que, graças a Deus, é um enorme sucesso. A idéia é termos o DVD também, como da primeira vez. Nosso trabalho tem um apelo cênico muito forte e muito bem aceito pelo público, precisamos aproveitar isso para que não se perca, para que não se esqueça.

O.H.: Foi difícil encontrar alquimia e sintonia para construir o grupo? Como foi esse processo?

- Karla Boechat: De jeito nenhum. Eu, Malu e Cuba, cantamos juntas desde 1994! Eliza, que é irmã da Malu, era adolescente ainda e por isso começou a cantar com a gente mais tarde, mas entrou rapidamente em sintonia. Tanto quanto a Marcela, que chegou em 2005 só para cobrir uma licença maternidade e acabou ficando.


O.H.: O quinteto, se pudesse ser sintetizado numa palavra, qual seria?
- Karla Boechat: VONTADE


O.H.: Qual o pensamento, letra de música, reflexão que traduz o trabalho de vocês?

- “A gente vai contra a corrente até não poder resistir”
Mas estamos resistindo. Bravamente!

FICHA TÉCNICA DE MULHERES DE HOLLANDA:

DIREÇÃO GERAL – KARLA BOECHAT
DIREÇÃO MUSICAL – ANDRÉ PROTÁSIO
DIREÇÃO CÊNICA – ANA ABBOTT E MARIA CLARA HERTZ
DESENHO DE LUZ – AURÉLIO OLIOSI
PREPARAÇÃO VOCAL – DECO FIORI
CENÁRIO – LIVIA HEINERICH
FIGURINO E ACESSÓRIOS – VANIA SOARES e ATELIER MISS VEE

MULHERES DE HOLLANDA CANTA ARRANJOS DE:
ANDRÉ PROTÁSIO – AUGUSTO ORDINE – FLÁVIO MENDES – KARLA BOECHAT – MAURICIO DETONI – MURI COSTA

NO VIOLÃO – FLÁVIO MENDES
NA PERCUSSÃO – FABIANO SALEK
NO SOM – DANIEL VASQUES
ROADIE e ASSISTENTE DE PALCO – EDSON OSCAR

UMA PRODUÇÃO – CIA. DA VOZ KARLA BOECHAT

3 comentários:

  1. Amei, Pedro. Como comentei no día do show, foram algumas das melhores perguntas que já nos fizeram em entrevistas. Parabéns! Bjs Ana Cuba de Hollanda ;-)

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  2. Vocês são maravilhosas, Ana. Parabéns a todos. =) Beijos!

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