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domingo, 18 de março de 2012

PEDRO BERNARDO – JOVEM MADURA CARREIRA


Por Pedro Paulo Rosa
Foto: Ravini Padilha
Revisão textual: Paulo Cappelli



Pedrinho do Cavaco e Pedro Bernardo são quase a mesma pessoa. Pode parecer óbvio, mas conhecendo mais o lado contemplativo do Pedro Bernardo, percebemos no garoto de cinco anos, criado em Água Santa, região da zona norte carioca, uma força de talento musical que, atualmente, leva Pedro às telas da televisão.

Levado pelo pai para “quase todas”, como mesmo frisa Pedro Bernardo, rodas de samba do Rio de Janeiro, nosso entrevistado pode beber da riqueza popular do samba da Mangueira assim como se enriqueceu com o piano clássico, instrumento em que se debruçou por dez anos. Com 21 anos, Pedro conhece desde os oito Alexandre Pires, que o apadrinha e, aos 13 anos, ganha um dos seus melhores amigos e parceiros: Milton Nascimento. A carreira de Pedro Bernardo se realiza tão precocemente quanto a sua vontade de se entregar para a música e, agora, para sua antiga paixão – atuar.

PEDRO BERNARDO: O Alexandre Pires foi o primeiro cara que me ajudou na música. Fui do projeto social “Mangueira do Amanhã”. Ele foi visitar a quadra e me viu. E me falou que tinha que ir com ele. E me chamou para entrar no SPC (banda Só pra Contrariar); entrei e começamos a fazer show, a fazer programas de televisão. Foi o primeiro padrinho musical mesmo.

O.H.: E você tinha quantos anos?

Pedro: Oito anos. Só que chegou um momento em que meu pai falou que ia me tirar. O motivo foi que precisava focar mais nos estudos. Meu pai sempre se preocupou em não me deixar esquecer de estudar. Agradeço muito a ele por ter me feito entender que, aquele momento, foi só mais um momento. Então, me profissionalizei, fui estudar piano clássico por dez anos. Estudei jazz também.

O.H.: E como foi a transposição da música para a arte televisiva?

Pedro.: Na verdade, sempre tive vontade de atuar. Mas, música é aquilo. Dedicação e foco. Acaba que não há tempo para muitas outras coisas. Sempre me disse que precisava procurar um curso para começar a investir na minha carreira de ator. E aí, pintou a oportunidade de fazer o este para Malhação. O Eri Johnson (ator) ficou sabendo que a Globo precisava de um cara com o meu perfil e aí me indicou para fazer o teste. Fiz três testes e passei.

Pedro Paulo Rosa e Pedro Bernardo 


O.H.: Assisti ao documentário que fala sobre o seu envolvimento com música e samba; o resultado é excelente. Incrível ver tanta gente talentosa de diferentes áreas e gerações falando bem do seu trabalho. Milton Nascimento é um forte exemplo...

Pedro.: O Milton foi a mesma situação que aconteceu entre mim e o Alexandre Pires. Só que um pouco mais tarde. Tinha 13 anos. E Milton foi lá à quadra num dos grandes eventos promovidos pela escola.  Fui tocar e o ele me viu. Perguntou se podia tirar uma foto comigo! (RISOS). Po, o cara é o Milton Nascimento. Eu é quem tenho que pedir uma coisa dessas. Então, trocamos telefone e começamos a amizade e parceria a partir desse momento. De lá pra cá, participei de show dele e, atualmente, temos uma música em composição conjunta. A música se chama “Gota de primavera”. Também fui um dos produtores do disco dele. Além dele ser meu padrinho musical, é meu parceiro.

O.H.: Qual foi o posicionamento da sua família? Sempre todos te apoiando?

Pedro.: Sim. Ninguém mexe com música na família. Fui o primeiro da família, vamos ver se meu filho vai tocar! Meu pai sempre me levando para os sambas, sempre. Ele e minha mãe me apoiam. Meu irmão é que foi mais preocupado comigo, sempre sugerindo que tentasse outras áreas que não só a música. Só que, música, você tem que focar. Consome muito. Quem me deu esse conselho foi o Dudu Nobre. Teve uma época em que queria cantar, tocar todos os instrumentos, tudo ao mesmo tempo, sabe? Sempre fui muito de conversar com a galera e tirar proveito desses feras. Milton, por exemplo, me aconselha muito.

O.H.: Fico pensando, você é novo; como é que faz, além de ser tão talentoso, para trilhar esse caminho, entre tantos expoentes da música popular brasileira? Hoje em dia tem muita gente querendo ser ator e cantor, por exemplo. Tem ou não espaço para todo mundo?

Pedro.:  Cara, na verdade, é um dia após outro. É difícil. Costumo dizer que o sol nasce para todos, mas a sombra, é para poucos. Batalho desde os cinco anos de idade. Meu pai me levava para quase todas as rodas de samba desse Rio de Janeiro. Meu pai me defendia mesmo. Hoje, ainda com 21, recebo muito desaforo. Eu e meu pai já passamos por muitas! Fui o primeiro ganhador, por exemplo, do quadro “Se vira nos 30”, do Faustão, que já me conhecia através do Só pra Contrariar. O SPC fez o último programa no Teatro Fênix e o primeiro no Projac! E o primeiro “Se vira nos 30” foi só para convidados. Isso é interessante demais, nunca contei isso pra ninguém. Fui com a minha mãe, isso numa quinta ou sexta feira, daí entrei numa sala em que estava só a nata. Sherman, Roberto Marinho, ... aí me chamaram lá na salinha; entrei, minha mãe entrou. Ai, o Sherman: “E aí, Pedrinho, toca alguma coisa no cavaquinho aí em 30 segundos”.  Executei em 28 segundos. Ele elogiou. Toquei de novo e fiz em 26 segundos. Aí, o Roberto Marinho virou e falou assim: “pode assinar o cheque que é do garoto”. (RISOS)

O.H.: O que você pensa ser mais complicado? Emplacar na música ou na TV?

Pedro.: Cara...boa pergunta...boa pergunta...Na música, a tua música tem que agradar. Se você não agradar a massa, você não dá certo. As pessoas tem que gostar. É difícil fazer um produto com tudo isso. E na TV, você precisa de carisma. O Milton Nascimento também fala isso: “eu sabia que o Pedrinho daria certo como ator porque qualquer música é sensível para atuar”. Concordo plenamente com ele. Lá na Globo, tive uma coach excelente, a Vera. Ela me ajudou demais e até hoje ajuda a todos nós do elenco. Não tive tempo de fazer curso. Na minha vida, foi tudo muito rápido e não dá para se perder oportunidade.

O.H.: Qual seria a sua marca autoral nas músicas?

Pedro.: Cara... (RISOS) ta fazendo umas perguntas boas! O meu cavaco tem o suingado da favela. Tem a quebrada malandra da favela.

O.H.: Engraçado estarmos falando em cavaquinista; quem estreou no Blog O HÉLIO foi o João Callado.

Pedro.: Ele é ótimo. Inclusive, o João Callado gravou para o meu Cd. É um ótimo cavaquinista. Mauro Diniz também é excelente. Tenho a minha identidade, mas não renego as riquezas que posso aproveitar dos outros músicos. Pedro, toco cerca de 20 instrumentos. Esses dias mesmo, gravei um rock no cavaco!

O.H.: E o Pedro Bernardo pianista? Seu piano também tem esse suingado da favela?
Pedro.: O piano me deu uma base imensa. No piano, você vê tudo. Todas as notas. É completo. Mas, sou muito grato a tudo o que o cavaquinho me deu até hoje. E sim, meu piano também tem o suingue da favela. Outro dia, fui à casa da Beth Carvalho (sambista) e ela me viu tocando piano. Ela me disse que serei um dos maiores pianistas populares. Por eu ter a base clássica do piano e também a base do samba.  O Maestro Prazeres também me elogiou muito no piano. Achei isso demais, muita humildade. Ele é um fenômeno.

O.H.: E o seu atual personagem?

Pedro.: Não teria melhor personagem para começar na televisão do que esse. É um cara que veio da favela. Apesar de não ter vindo da favela, sou de origem humilde. Rodei muita favela, sempre subi o morro. Convivi muito na favela. Esse lance de lutar, de vencer na música e pela música me identifica muito. O cara que já nasce na periferia tem que pensar como o Racionais MCs, se você é preto e é da favela, você já tem que ser duas vezes melhor. Então, o cara que nasce na periferia tem que lutar. Mesmo. É complicado. Mas, é super possível que um cara da periferia dê certo. A gente vê isso, graças a Deus, cada vez mais. Darei um exemplo: Ronaldo fenômeno.

O.H.: Pois é, o futebol acaba sendo símbolo de mobilidade social.

Pedro.: Exatamente. O futebol e o samba, né?

O.H.: Há diferença entre samba e pagode? Um mestre de bateria de escola de samba já me comentou, por exemplo, que existe.

Pedro.: Olha, sou também cria do Cacique de Ramos, e o meu pensamento é: samba é um gênero. E pagode, no dicionário, é uma reunião de sambistas. Mas, o mercado fez com que o pagode se torna um gênero musical isolado. Aprendi isso com o Bira, do Fundo de Quintal, presidente do Cacique. Falam que o pagode é mais chiclete e romântico, mas essa segmentação foi criada há pouco. Acho que foram criados vários estilos dentro do samba. Samba de raiz, samba comercial etc. Mas, tudo é samba; acho que não existe diferença não.

O.H.: Acha que isso, de alguma maneira, ocorre com o funk também?

Pedro.: Acho que o funk ainda une todas as classes. Acho muito bom o funk estar se tornando cultura. E funk tem uma identidade e virou cultura. Eu gosto do gênero. Tem muitos profissionais do funk que precisamos aplaudir.




O.H.: Pedro, você já se sentiu um intruso? Mesmo não tendo morado em favela, mas por ser de origem humilde? Afinal, estamos assistindo, calados, a um Rio de Janeiro cada vez mais excludente.

Pedro.: Bacana você estar me perguntando isso, Pedro. Eu já sofri muito preconceito. Por vários motivos, até por ser branco e de olho verde. Já vivi uma situação bem assim: tinha oito anos, estava tocando num barzinho; chega um músico do Zeca (Pagodinho) e fala para eu ir para a escola. Que samba tinha que vir no sangue. Cara, passaram três meses, o mesmo músico veio me elogiar para o meu pai, dizendo que me tornaria maestro. Até hoje falo numa boa com essa pessoa, mas a gente não esquece, né? (RISOS) Já sofri vários preconceitos. Viajava com a Mangueira e aqueles moleques me chamavam de playboy pra baixo. E po, sou criado no Água Santa, bairro pobre da zona norte. Sempre procurei ser famoso e que meu trabalho fosse reconhecido. E o assédio ta rolando mesmo. Até para entrar aqui no restaurante, duas meninas me abordaram ali fora na livraria.

O.H.: Onde você se sente inovando em Malhação?

Pedro.: Adorei a história, o roteiro. E nunca teve samba na série. Nunca. Teve um momento da minha vida que fiquei muito em dúvida com relação a tudo. Perguntei ao Milton o que faria. Ele me respondeu prontamente: faça música. Sem estudar, não existe possibilidade de sucesso. Demora, é difícil, mas Deus é justo. E digo mais: quem não é sambista, quem não curte samba, não consigo entender! Samba quebra e ultrapassa todas as barreiras. É não só para a profissão, mas para a vida.

CONFIRA O DOCUMENTÁRIO "PEDRINHO DO CAVACO"


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AGRADECIMENTOS:

Aline Nobre
Livraria da Travessa
Restaurante Fiammetta








2 comentários:

  1. Pedro Paulo,
    Adorei a entrevista, muito boa.
    Parabénsss

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  2. Parabéns Pedro! Uma das melhores entrevistas que já li em seu blog (Olha que é complicado decidir isto). Só escutei falar desse garoto mas nunca soube ao certo sua história e o que ele fazia. No momento estou na UFRJ, mas chegando em casa irei assistir este documentário. Parabéns novamente

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